Faustina era uma tordilha, nem clara nem escura, pequena, e antissociável. Não gostava de ser incomodada em seu box, só não se importava quando era o seu próprio cavalariço. Desde os primeiros trabalhos mostrou muita qualidade e classe. Montada, não criava problemas, mas fora disso era muito desconfiada. Àquela época , eu costumava frequentar a cocheira quase todos os dias, e de box em box eu ia dando açúcar em cubos .
Todos os animais ficavam com as cabeças nas janelas, para pegar os torrões na palma das minhas mãos. Todos, menos a Faustina, que quando eu me aproximava ia para o fundo do box e de lá não saia. A forma encontrada para ela pegar o açúcar era abrir a porta do box, colocar o torrão no chão perto da entrada e me afastar. Ela esperava um pouco para ter certeza de que eu não me aproximaria, ia pegar o açúcar, e voltava para o fundo do box. Eu nunca consegui dar a ela um torrão sequer na palma da minha mão. Ela costumava dar coices nas paredes, de modo que eu mandava forrar as paredes com um acolchoado coberto por lona. Adiantava pouco, pois ela passava a escoicear sempre no mesmo lugar até rasgar a lona, e depois, com os dentes, rasgava tudo. Era um problema. Outro problema era quando ela corria em pista pesada. Na raia seca ela era a melhor de sua geração, mas na pesada, apesar de correr apenas com meia ferradura nos posteriores, mesmo assim batia com um casco no posterior no boleto do outro, e tivemos que improvisar proteções de couro para impedir ferimentos. Mas ela tinha direito a tudo, pois tomava a ponta na largada e vencia sempre facilmente por boa margem. Mas houve um fato curioso. O Bolino, o seu jóquei habitual, foi hospitalizado para tratar de pedras nos rins, e com a Faustina inscrita em um grande prêmio, o Bolino passou a semana toda internado. O Bolino já havia até indicado um substituto, o José Portilho, mas na manhã da corrida o Bolino livrou-se do problema e disse que estava em condições de montar. Eu achei imprudência, mas o jóquei insistiu e eu acabei cedendo, pois o Bolino era digno de toda confiança. Pedi a ele para não facilitar, tomar logo a ponta e deixar correr, para não perturbar as habituais fáceis vitórias. Mas na corrida viu-se tudo diferente. A Faustina ficou em último, com Bolino quieto. Só no meio da reta final ela avançou, e de modo fulminante, passando de último para primeiro e ainda vencendo por cerca de dois corpos. Eu fui cobrar do Bolino a imprudência, mas ele me disse que, inexplicavelmente, a Faustina não se empregava, e quanto mais ele a exigia, mais ela se negava. O jeito foi ficar quieto e aguardar. A Faustina, naquele dia, correu por conta própria, correu como e quando quis, e como sempre vencendo. A Faustina era maravilhosa, e no haras foi mãe clássica.
O Haras Vale da Boa Esperança, de Julio Cápua, em Teresópolis, dominou por cerca de 10 anos a criação fluminense, que nos outros dez derradeiros anos foi dominada pelo Haras Santa Maria de Araras. Depois dos 10 primeiros anos, Julio Cápua morreu, e o seu plantel foi todo leiloado, e o Araras, depois dos segundos dez anos, transferiu-se para o Paraná e depois para o Rio Grande do Sul, onde é desde muitos anos o inconteste líder nacional. Como verdadeiro realce da criação fluminense, só mais um nome muito importante merece grande destaque, que é o de Daião, um filho de Sabinus de criação do Haras Serra dos Órgãos, que venceu o Grande Prêmio Brasil. O citado Sabinus, adquirido pelo Araras quando da liquidação do Vale da Boa Esperança, foi um corredor clássico, e também pai clássico. Era muito bom corredor, apresentava em um lado da garupa as marcas de um ancinho, nele usado pelo seu cavalariço em defesa de uma das muitas agressões. Certo ano, Julio Cápua decidiu enviar Sabinus para correr nos Estados Unidos. Mas o cavalo negou-se a entrar no pallet, e ele não embarcou. Um ano depois , seguindo o conselho do grande treinador argentino radicado nos Estados Unidos, Horácio Luro, aquele que teve o privilégio de treinar Northern Dancer, o cavalo embarcou. O pallet teve os quatro lados abaixados, deitados no chão, ficando apenas o piso para o Sabinus subir, o que ele concordou em fazer. Depois os quatro lados do pallet foram levantados e fixados e Sabinus teve que ceder. Aliás, Sabinus tinha a quem puxar. O seu pai Hyperio, ainda de mais qualidades do que Sabinus, era de manuseio muito difícil. Só para citar um dos seus problemas, para levar uma injeção tinha que ser seguro por um cavalariço, enquanto outro montava nele e de cima espetava a agulha e injetava.
Outro complicado foi ir na liquidação do haras na Venezuela dos animais do príncipe Aly Khan, em uma parceria onde o príncipe entrava só com as éguas e um ou dois reprodutores e os produtos seriam todos vendidos em leilão no qual o resultado seria dividido. Naquele leilão o Jockey Club de São Paulo comprou um lote de cerca de 20 éguas, todas cheias, e que vieram para o Posto de Monta de Campinas. Nesse leilão o Ipiranga comprou uma velha égua, Apealing, uma filha de Hyperion. Nasceu em temporada de 1º semestre um pequeno macho de nome It. Um grave erro foi cometido na criação do It. Sem outro nascido na mesma época, It foi criado sozinho, separado dos outros. Havia ainda o inconveniente de ser neto de Hyperion, cavalo chefe de raça mas com um péssimo temperamento. It passava os dias solto em seu piquete, e corria para tentar pegar os passarinhos que eventualmente pisavam em seus domínios. Era um solitário carente. Muito inteligente, quando via alguém se aproximar, encostava na cerca e mordia uma tábua, mostrando que a boca estava ocupada e que não havia o perigo dele morder. Queria carinho. Quando foi para o prado, na Gávea, teve logo que usar antolhos, e acoplada à sua boca havia uma grade por fora da cabeçada com o freio, uma grade que impedia que ele mordesse não só o cavalariço como a perna do jóquei. Ganhou mais de meia dúzia de corridas comuns, mas se não fosse muito exigido chegava a negar-se a se empregar. Com ele aconteceu um caso curioso. Depois de umas tantas vitórias, em um verão, resolveu-se leva-ló para nadar.
Não havia piscina naquela época, a natação era praticada na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde havia um pontilhão de madeira por onde os cava lariços acompanhavam o exercício segurando na ponta de um cabo. Aconteceu um inusitado logo na primeira vez. Quando se viu dentro d’água, em lugar de começar a nadar como fazem todos os cavalos, que nadam naturalmente, o It virou-se e ficou de barriga para cima. Ele foi salvo pelo cavalariço, que em desespero puxava a cabeça do It pela ponta do cabo. Foi difícil trazê-lo de volta. O episódio poderia ter-se encerrado aí, mas o absurdo foi enfrentado no dia seguinte. Com mais cavalariços para ajudar, foram retirados o antolhos e a focinheira gradeada e logo empurrado o It para dentro d’água. Para surpresa geral, ele saiu nadando normalmente, sem problemas, e nunca mais criou caso para nadar. O It era muito inteligente, sabia o que fazia.
