Cavalos complicados (2), por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Cavalos complicados (2), por Milton Lodi

Nassau era um potro muito bonito, grande e forte. Era filho de Guaycurú, invicto em quatro saídas, com o invejável pedigree de Formasterus em filha de Felstead. Nassau era cuidado pelo excelente treinador Expedito Coutinho, e nos trabalhos mostrava muito bom potencial. Mas, nas corridas não confirmava o que sabia para cada páreo, o sistema de trabalhos era modificado, sempre muito bem, mas não correspondia na hora do dinheiro. Trabalhos e aprontos semanais fortes ou suaves, ou mesmo sem trabalhos, muita ou pouca movimentação, tudo foi tentado, e nada dava resultado. Expedito era muito competente, e não desistia. Nassau foi levado para dar uma volta de galope, na manhã de uma corrida em mais uma tentativa. Ele era de bom temperamento, seria apenas mais uma experiência. Mas ao entrar na raia, sem motivo maior, o redeador caiu, e Nassau, solto, disparou com tudo e fez uma volta fechada com toda a velocidade. Depois parou e voltou mansamente para as mãos do seu cavalariço. Terminada a manhã dos trabalhos, Expedito voltou ao seu grupo de cocheiras, e ia telefonar para o proprietário do ocorrido antes de fazer o forfait. Logo que chegou foi ver o Nassau em seu box. Um empregado disse que tinha encontrado dificuldades para trazer o cavalo de volta, pois ele se mostrara impetuoso, fogoso, alegre e voluntarioso. Expedito telefonou para o proprietário, informou do ocorrido, e disse que ia deixar o cavalo correr à tarde, o Nassau mostrava-se exuberante. Foi a primeira de uma série de seis vitórias, sempre galopando largo uma volta nas manhãs das corridas. Eu mesmo tinha um cavalo considerado bom, mas que não correspondia, não era forte e robusto como Nassau, mas alguma solução havia que ser dada. Na manhã de um dia de corridas, ele foi levado à raia para uma partida forte de 600 metros. Deu muito bom resultado, quando posteriormente eu mandei o Lazio continuar campanha no Cristal, ele Já havia vencido cinco páreos na Gávea e/ou Cidade Jardim. É claro que esse sistema de preparação não pode ser generalizado, mas naqueles casos deu certo.

Exchange era um lindo e forte cavalo quase preto, e bom corredor. Mas eu nunca conheci cavalo tão preguiçoso. Ele se mexia o menos que podia, por mais que fosse exigido. Nos trabalhos os seus tempos eram péssimos, nunca baixou de 57 segundos os seus aprontos de 800 metros. Dentro do seu box, em lugar de andar de um cocho para outro, simplesmente girava o seu corpo sobre os posteriores para mudar de direção. Em uma manhã de sábado, o meu saudoso treinador Claudemiro Pereira me telefonou aflito, o Exchange havia quebrado uma perna dentro do box, e o Dr. Adhemar de Faria, um benemérito do turfe e que também tinha cavalos aos cuidados do Claudemiro, que estava acompanhado por Protásio Pereira, que se dizia formado em Direito, em Medicina e em Veterinária, insistia para que o cavalo fosse de imediato operado em clima de urgência, sob pena de o Exchange ter que ser sacrificado. Eu mandei que o cavalo permanecesse dentro do box só com o seu cavalariço, e fosse chamado o Dr. Octavio Dupont, que daria a palavra final. Quando eu cheguei à cocheira, o Dr. Dupont o estava examinando. Além dos cavalariços, lá estavam o Dr. Adhemar, o Dr. Protásio, o Claudemiro e o Bolino. O Dr. Dupont pediu a ajuda de um cavalariço forte, ajeitou a perna do Exchange, e com uma forte pressão lateral na perna, aparentemente fraturada na altura do curvilhão esquerdo, voltou para o lugar, sem maiores problemas. Para o espanto de todos, o extraordinário veterinário explicou que o movimento de rotação deslocara a perna de sua natural posição, e que, a não ser que houvesse outro fato igual, o problema não deveria mais acontecer, pois a natural movimentação da perna era completamente diferente. Algum tempo depois, quando Exchange estava aguardando que o Bolino entrasse com ele no partidor, a perna voltou a sair do lugar. O Bolino, que havia assistido a façanha do Dr. Dupont, conversou com o Starter e com o veterinário, fizeram com o cavalo o mesmo procedimento na hora, a perna voltou para o lugar, o cavalo correu normalmente chegando, se não me falha a memória, em terceiro.

O meu pai foi ao Haras Bela Esperança, do saudoso José Paulino Nogueira, para comprar meia dúzia de potros da nova geração. Após escolher cinco, pediu ao criador que lhe indicasse o sexto. O Dr. Paulino não gostava de indicar, os compradores que escolhessem os que gostassem, mas ante a insistência do meu pai, ele sugeriu um pretinho de menor presença que era filho de Eboo, cavalo inglês de pedigree notável, mas muito genioso, com Etincelante, égua argentina de primeira ordem, Morumbi desenvolveu-se. Rapidamente, ficou um lindo dois anos, e desde logo mostrou muita qualidade. Mas era temperamental. Montado pelo Rigoni, Morumbi, já com vitórias, foi para o partidor da 1ª prova da tríplice-coroa carioca, como favorito. Mas negou-se a alinhar, mostrando-se irascível, e nem a maestria do Rigoni conseguiu que ele encara-se o alinhamento. Morumbi fez de tudo, e acabou sendo retirado. Cerca de duas semanas depois, galopando na raia pequena com um redeador, o cavalo repentinamente no meio da reta, ele cravou e o jóquei caiu, e Morumbi ficou solto. Inacreditavelmente, ele pulou a cerca interna, saiu galopando pelo pião do prado, e atirou-se no lago ainda lá existente. Para tira-lo de lá, foram colocados sacos de serragem dentro da água, para ele poder subir. Morumbi ficou de tal forma difícil que foi enviado para São Paulo, aos cuidados do Capitão Bela Wodianer. Foi para a Sociedade Hípica Paulista, para as mãos de um mestre domador. Mais de meio ano depois, ele voltou à Gávea. Voltou melhor, mas não normal. Ganhou ainda o Grande Prêmio Major Suckow, se não me engano, na raia de areia encharcada debaixo de forte temporal, montado por Ubirajara Cunha. Em São Paulo, outro filho do Eboo, o clássico Zaluar, também era temperamental, não podia correr mais do que 2.000 metros, pois quando ele cruzava a linha de chegadas, simplesmente parava, não seguia de jeito nenhum.

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