Quando um cavalo de corridas é de fácil manejo, por ser manso e bem adestrado para a sua profissão, fica mais fácil para os treinadores treiná-los da maneira mais conveniente para que eles produzam os seus máximos. Por outro lado cavalos complicados, em função de eventuais maus amansamentos, ignorância dos cavalariços e/ou más índoles, às vezes fica quase impossível treinar-se bem de forma adequada um corredor.
O meu pai comprou um cavalo de nome Hélio, filho de um bom corredor, mas de péssimas manias que fez a sua campanha nas pistas de São Paulo com o nome de Trunfo. Ele era manhoso, temperamento difícil, um problema. Hélio era forte e bonito e com um tipo de trabalho comum, mostrou qualidades. Até que um dia empacou na entrada da pista, ficava estaqueado, não saia do lugar. Em outras vezes, quando cruzava o disco após um exercício, não diminuía, e contrariando o jóquei seguia galopando por mais uma volta. As manias chegaram a tal ponto, de quando montado Hélio negava-se a quase tudo. Hélio foi levado então para a Sociedade Hípica Brasileira e foi iniciado um trabalho diário para contrariá-lo em todas as suas manias. Quando empacava uma cana de rédea era puxada fortemente, obrigando-o a rodar em círculos, até que ele desesperado, arrancava e saia galopando normalmente, ai empacava novamente. Voltava a ser obrigado a rodar. E assim, com cada movimento de repreensão acompanhado por fortes comandos orais, a cada dia as manhas foram diminuindo e com cerca de três semanas de trabalho corretivos, ele foi levado para a Gávea. Logo no primeiro dia, quando viu que ia entrar na raia, simplesmente empacou, mas imediatamente obrigado a rodar arrancou para dentro da pista e iniciou um galope normal. Quando passou pelo disco após a volta, negou-se a diminuir, e ao contrário, acelerou. Foi deixado que ele corre-se conforme queria, mas antes da entrada da grande curva cansou e quis diminuir, mas foi obrigado, exigido a correr no seu máximo, chegando ao disco ao término da segunda volta em completa exaustão. Que eu saiba ele parou de fazer manhas, e após três semanas de trabalhos normais foi inscrito para correr, tendo vencido sem problemas, mas de quando em vez se ouvia uma forte voz de comando.
Cuore, de criação do Haras Terra Branca, iniciou-se nas pistas com muito prestigio, pois era muito bonito e filho de Coaraze, à época o garanhão do momento. Foi um bom cavalo, mas era muito bravo. Contavam que ele, mesmo após a fase de amansamento, quando montado, deixava-se cair no chão e rolava tentando amassar o seu cavaleiro. Esse foi bravo a vida inteira.
Hechizo, um alazão queimado que o meu pai comprou de um importador da Argentina, tinha um olho de vaca, isto é com o branco dos olhos muito grandes. Corria muito, mas fora da faixa clássica. Ganhou muitas corridas, principalmente depois de chegar em último lugar como favorito, ficou trancado em seu box durante toda uma semana e levado a correr direto do seu box. Venceu facilmente. E veio a explicação lógica. Ele andava dia e noite no seu box, não parava, e quando isso foi entendido como um exercício, o seu treinamento passou a contar com aquele andar contínuo. Hechizo foi uma das paixões equinas do meu pai, o outro era Manguari de criação do Haras Mondesir que além de muitas vitórias deu-lhe o Derby Carioca. Hechizo não ficava de frente para as fitas de partida (naquela época não havia o partidor de hoje) não havia como controlá-lo, ele arrancava sem um possível controle para correr, ele ficava de costas para as fitas, em mãos de um segurador, uns três corpos atrás daqueles que se alinhavam, e a um sinal do starter, o segurador virava o Hechizo no sentido da corrida. Ele já virava arrancando violentamente de modo que, poucos metros após a partida, mesmo dando uma vantagem de dois ou três corpos, como largava correndo e os outros parados, não havia vantagens nem desvantagens.
