A coluna dessa semana traz um pouco mais da história do jovem piloto Muriel Silva Machado. Assim como está no nome da nossa série especial de reportagens, a paixão é o norte desse bate papo, onde Muriel revela como surgiu a ideia de se tornar jóquei, suas angústias, sonhos, a paixão pelo cavalo Céu de Brigadeiro, por sua família e, principalmente, pelo seu irmão, o também jóquei, Luan Machado, hoje radicado nos EUA.
Muriel, nascido em 20/11/1996, em Esteio-RS, filho de Ronaldo e Andreia e irmão de Luan, Raissa e Dylan, diz que o gosto por cavalos é antigo na família, mas o seu desejo de se tornar jóquei foi meio que por acaso. Ele nos explica:“Tanto o Luan que é o mais velho quanto eu, sempre gostamos de cavalo, mas o desejo de se tornar jóquei foi quando ele, sem querer, descobriu uma foto do nosso pai montando no Cristal. O Luan já tinha uns 10 anos de idade e até aquele momento, nenhum de nós sabíamos que nosso pai havia sido jóquei. Ele nunca tinha nos contado, porque não queria que nós seguíssemos os passos dele no turfe. Ele e a mãe sempre tiveram medo, por ser uma profissão de alto risco. A partir dali, o Luan cismou que queria montar e para o desespero completo deles, logo em seguida eu embarquei nessa também.”
Muriel chegou a montar durante 5 anos nas retas até que em 2012 surgiu a ideia de vir para o Rio de Janeiro. Aquele menino que montava nas retas no Rio Grande do Sul desejava algo maior para si e passou a enxergar o ingresso na EPT como uma chance de alçar voos maiores na vida pessoal e profissional.“Quando completei 16 anos, embarquei em um avião rumo ao Rio de Janeiro. Queria algo melhor para mim, queria estar entre os melhores pilotos, aprender mais e me tornar jóquei. Meu pai, depois que decidimos montar, sempre nos apoiou e foi um dos maiores incentivadores para que eu também viesse ao Rio para montar aqui na Gávea. Fiz a seleção para entrar na EPT e demorou pouco mais de um mês para me chamarem. Nesse período, fiquei sozinho aqui no Rio, pois o Luan havia voltado temporariamente para o Sul, quem me deu muita força foi o treinador Jaime Aragão, fiquei um mês na casa dele até que a liberação para ingresso na escolinha saísse. Esse começo foi muito difícil, a saudade de casa aperta, eu era muito novo, sozinho em outro Estado, ainda não conhecia quase ninguém… Mas, no final, deu tudo certo!”
Assim como outros meninos que chegam na EPT, Muriel já tinha uma noção de montar devido ao tempo que atuou nas retas e, por conta disso, ficou apenas dois meses como aluno, logo estreando como aprendiz. Porém, uma inimiga que muitas vezes é implacável, surgiu no meio do caminho do jovem piloto. A balança!Enquanto aprendiz de segunda categoria e tendo ainda direito a ficar por mais um ano no quadro da EPT, Muriel acabou sendo desligado do quadro de aprendizes e passado a jóquei profissional por conta de problemas com o peso. Sem rodeios, nos conta que o mais complicado dessa história ainda estava por vir…
“Eu estava pesando 50kg já e mesmo seguindo uma dieta, não era fácil manter o peso abaixo disso, daí me falaram que teriam que me desligar da escolinha e iriam me passar a jóquei. Na hora assusta um pouco, iria perder o beneficio da descarga de peso que os aprendizes tem direito e iria começar a montar de igual para igual com as feras. Porém, o pior foi que eu cometi um deslize, violando um código de conduta dentro da EPT. Eu era muito novo e a falta de maturidade nessas horas faz com que às vezes a gente recorra a um caminho que não é legal. Descobriram que eu fazia o uso de diuréticos para me ajudar a perder peso e com isso acabei tomando 20 dias de suspensão. Fiquei um pouco desnorteado nesse momento, desanima um pouco. Passada a suspensão, continuei trabalhando firme, mas as oportunidades foram ficando um pouco escassas. Foi aí que tive o apoio do treinador Venâncio Nahid, ele me ajudou muito nesse início como jóquei, ganhamos algumas corridas e então a coisa deu uma engrenada.”Apesar de novo, está 24 anos de idade e apenas 8 anos de carreira, Muriel, hoje radicado em São Paulo, acumula algumas vitórias importantes na carreira, como a milha internacional em SP e o GP São Paulo, por exemplo, e traz na sua bagagem uma passagem de 6 meses pelo turfe do Kuwait.
“Eu sou um pouco cigano, sabe?! Em 2018 estava montando pouco aqui na Gávea, poucas oportunidades de montaria e aí surgiu a oportunidade de montar uma temporada la no Kuwait, que são seis meses. Eu fui. Eu já estava querendo sair do País, queria respirar novos ares… acabei topando o desafio, mas não foi fácil.
A cultura de lá é muito diferente, eu estava sozinho, tinha um pouco de dificuldade em me comunicar porque eu não sabia quase nada de inglês, eu quase voltei antes do tempo, mas acabei ficando a temporada toda. Valeu muito como experiência, voltei outra pessoa.
Aí cheguei no Rio e pouco tempo depois veio a pandemia. O Bruno Alexandre, treinador, estava em São Paulo e me chamou para montar uma semana lá, acabei ficando de vez. São Paulo costuma me dar sorte, levantei a milha internacional e o GP São Paulo lá em Cidade Jardim, então resolvi apostar minhas fichas no turfe de lá!”A milha internacional e o GP São Paulo, aliás, foram conquistados com o mesmo cavalo: Céu de Brigadeiro.
“Esse cavalo tem um lugar enorme em minhas memórias e no meu coração. Cavalo de ferro, valente, me deu as maiores alegrias e a minha maior frustração na carreira. Ganhamos páreos de turma, provas especiais, Grupo I… O GP São Paulo foi minha maior alegria, eu e o Bruno, treinador dele, levávamos o cavalo barbada, ele estava tinindo. Sabe um trabalho bem feito, onde não tem o que dar errado? Foi a vitória no GP São Paulo… a maior frustração fica por conta da milha internacional aqui no Rio. Ganhamos o páreo, mas o cavalo foi desclassificado. É um balde de água fria gigante, você não tem noção. Enfim… é um cavalo muito especial para mim, ele me levantou quando eu mais precisava!”
Nos últimos meses, o piloto se tornou assíduo da ponte aérea Rio-São Paulo, aproveitando que tem recebido bastante oportunidade do titular do Stud Happy Again. Toda vez que o jóquei H. Fernandes, contratado da farda do Happy Again, não pode montar, as montarias tem sido oferecidas à Muriel. Bom piloto, não costuma desperdiçar as boas oportunidades que recebe.
“Esse convite do Happy Again chegou através do próprio H. Fernandes, que me indicou ao Mauricio (proprietário do Stud Happy Again). Ele investe bastante no turfe, tem bons cavalos e eu estou muito feliz com essa oportunidade, está sendo uma experiência boa e vem me abrindo outras portas. Por estar montando para um proprietário que está em evidência, eu fico na vitrine também e se as coisas por aqui na Gávea começarem a dar certo de novo para mim, não descarto um retorno em breve. Afinal, quem não é visto não é lembrado!”
Mesmo já tendo conquistado coisas importantes em sua vida profissional, Muriel ainda tem muita coisa pela frente, são apenas 8 anos de carreira. É um jóquei trabalhador, honesto e não deixa a peteca cair, mesmo nas adversidades. Traz consigo um jeitão do interior, onde a simplicidade e o orgulho de suas raízes são evidentes a cada gesto, cada palavra, cada lembrança.
Menino de sorrido largo, só deixou se levar pela emoção ao falar da saudade que sente do seu grande amigo e parceiro para todas as horas, o irmão, Luan Machado.
“O que eu e esse cara temos um com o outro é absurdo, é inexplicável… (choro). O Luan é o meu espelho (choro)”
Pergunto se seria exagero meu dizer que o Luan é o maior ídolo do Muriel. Com os olhos marejados e a voz embargada, a resposta é imediata:
“Não é exagero, porque ele é o meu ídolo, como atleta e como pessoa. Como atleta porque é um bom jóquei, tem uma boa tocada, é inteligente, tem uma boa noção de percurso… Como pessoa, ficaria um dia inteiro falando dele. A coragem que esse cara tem, a determinação, o foco, a educação… o ser humano que se tornou. A saudade é grande demais, a gente sempre segurou a barra um do outro, hoje a gente se fala toda semana através do Whatsapp, das chamadas por vídeo…”
“Eu fico muito mais contente com as conquistas dele do que com as minhas. Ver esse cara vencendo o GP Brasil, conseguindo as coisas dele e se estruturando na América, é a minha maior felicidade. Eu tenho o sonho de ir para lá também, de montar nos Estados Unidos, nem que seja para ganhar um páreo só… Mas o maior sonho mesmo estamos conquistando que é o de ajudar nossa família, e um desses sonhos, eu e Luan realizamos, que foi o de conseguir custear a operação do nosso pai que vinha sofrendo com dores na coluna e nas pernas. O velho agora está tinindo!”
Que a América, num futuro próximo, esteja muito mais perto para você, Muriel, e que não seja apenas um páreo só… Voe, guri!
Texto e fotos: João Cotta
