

{"id":74508,"date":"2015-12-16T14:26:24","date_gmt":"2015-12-16T16:26:24","guid":{"rendered":"\/home\/?p=74508"},"modified":"2015-12-16T14:36:57","modified_gmt":"2015-12-16T16:36:57","slug":"reflexos-do-esporte-dos-reis-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/74508\/reflexos-do-esporte-dos-reis-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Reflexos do Esporte dos Reis &#8211; Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: medium;\">No turfe, como em todas as atividades, h\u00e1 n\u00facleos melhores, mais confi\u00e1veis, de bom padr\u00e3o, e tamb\u00e9m h\u00e1 outros nem tanto. O que se faz do turfe uma atividade muito especial \u00e9 o amor aos cavalos, a alegria das competi\u00e7\u00f5es, as grandes incertezas, resultando em um esporte onde h\u00e1 que haver paix\u00e3o, humildade, generosidade quando dos bons resultados e aceita\u00e7\u00e3o dos maus.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A seguir, alguns casos dos quais participei, direta ou indiretamente, de momentos que qualificam a atividade.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Quando o benem\u00e9rito Ant\u00f4nio Joaquim Peixoto de Castro J\u00fanior, o fundador do Haras Mondesir, comprou em 1944 aquele que era considerado o melhor garanh\u00e3o do mundo, o ingl\u00eas King Salmon(<strong>foto<\/strong>), criou-se uma enorme expectativa. S\u00f3 um homem como o Dr. Peixoto poderia realizar tal fa\u00e7anha. Destemido, ele entendia que para uma grande melhoria n\u00e3o bastava comprar o que havia de melhor em rela\u00e7\u00e3o ao calibre do turfe brasileiro, mas havia que trazer o melhor dos melhores, sem quaisquer referencias que n\u00e3o fossem atingir o m\u00e1ximo sem limita\u00e7\u00f5es. Ainda em 1944 King Salmon, alojado no Mondesir em Lorena, SP, recebeu um n\u00famero pequeno de \u00e9guas, como in\u00edcio de uma trajet\u00f3ria que tinha meta alt\u00edssima.\u00a0 Assim, em 1945 King Salmon produziu v\u00e1rias f\u00eameas, que formariam a base feminina do Haras, e dois machos. O benem\u00e9rito Adhemar de Faria, amigo do Dr. Peixoto desde os tempos na Faculdade de Direito, turfman apaixonado, perguntou ao criador se poderia ir ver aquela primeira produ\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que o Dr. Peixoto concordou, e disse que a fun\u00e7\u00e3o primordial de King Salmon era produzir f\u00eameas, de modo que ele at\u00e9 admitia vender um dos machos, \u00e0 escolha do eventual interessado, ficando o outro para defender sua blusa estrelada.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/noticia\/images\/Horse_King_Salmon-_2big.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-74509\" alt=\"Horse_King_Salmon-_2big\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/noticia\/images\/Horse_King_Salmon-_2big-300x246.jpg\" width=\"300\" height=\"246\" \/><\/a>Uns dias depois, o Dr. Adhemar foi conversar com o meu pai. Disse que os dois potros tinham a mesma pelagem, alaz\u00e3o, um tinha um tom meio avermelhado ou caramelado, tinha por m\u00e3e uma \u00e9gua inglesa, era lindo e chama-se Marfim. O outro era tamb\u00e9m de porte m\u00e9dio, mais encorpado, orelhudo, de costelas largas que davam a impress\u00e3o de ser um potro barrigudo sem ser, e tinha como m\u00e3e uma \u00e9gua argentina j\u00e1 com 19 anos, m\u00e3e at\u00e9 ent\u00e3o de 12 produtos, o melhorzinho podia ser taxado apenas de regular. O Dr. Adhemar disse que, apesar da evidencia da escolha ser do Marfim, ele havia gostado mais do orelhudo, filho da \u00e9gua velha. Concluiu dizendo que o pre\u00e7o estabelecido era muito alto, 300 contos, e ele precisava de um s\u00f3cio. Foi assim, sem ver, acreditando na sapi\u00eancia turf\u00edstica do Dr. Adhemar, que o meu pai ficou s\u00f3cio do orelhudo, o Manguari. O resultado n\u00e3o poderia ter sido melhor. Manguari correu sempre na primeira turma, foi o primeiro l\u00edder de sua gera\u00e7\u00e3o, cumpriu extensa campanha dos 2 aos 6 anos de idade, entre as suas mais importantes vit\u00f3rias estavam \u00e0 primeira (1.600 metros) e a segunda (Derby \u2013 2.400 metros) provas da tr\u00edplice coroa e o record dos 2.000 metros na grama, que foi por ele mesmo igualado no ano seguinte. Terminou a campanha nas pistas com 16 vit\u00f3rias e 8 coloca\u00e7\u00f5es, sempre correndo contra os melhores. Terminada a campanha nas pistas, o meu pai disse ao Dr. Adhemar, dono de 1\/3 do Manguari, que embora o cavalo estivesse s\u00f3 em seu nome e correndo com a sua farda, para efeito de estat\u00edsticas, o Manguari era dos dois, e que o Dr. Adhemar determinasse um valor para a parte dele, j\u00e1 que ele n\u00e3o pretendia criar. O Dr. Adhemar foi simples e direto. Ele n\u00e3o pretendia criar, ficava muito satisfeito com o destino do cavalo, que ele tivera o privil\u00e9gio de dispor com total liberdade do Manguari mesmo tendo participa\u00e7\u00e3o menor, a sociedade com o meu pai havia servido para aumentar a \u00f3tima amizade que eles tinham, e que ele n\u00e3o podia vender a parte dele no Manguari, a partir daquele momento aquele cavalo que havia dado tantas satisfa\u00e7\u00f5es aos dois era s\u00f3 do meu pai, alegando que tudo que ele merecia em rela\u00e7\u00e3o ao Manguari ele j\u00e1 tinha recebido.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">O turfe \u00e9 o Esporte dos Reis.<\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Algum tempo depois da morte do meu pai, em 18 de janeiro de 1956, estava eu jantando no Haras Bela Esperan\u00e7a, com o meu padrinho de casamento Jos\u00e9 Paulino Nogueira, quando ele me perguntou se eu disporia do garanh\u00e3o Minotauro. Ele gostaria de utiliz\u00e1-lo em algumas \u00e9guas, para tentar cruzas que haviam dado no Ipiranga, por exemplo, da grande cl\u00e1ssica internacional Derah(<strong>foto<\/strong>), filha do italiano em \u00e9gua origin\u00e1ria do Bela Esperan\u00e7a, uma filha de Seventh Wonder. Eu respondi que eu contava naquele momento com um n\u00famero mais do que suficiente de reprodutores, o Minotauro j\u00e1 havia cumprido a sua miss\u00e3o no Ipiranga, e eu teria grande prazer se ele aceitasse o cavalo de presente. <a href=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2015\/12\/DERAH1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-74510 alignright\" alt=\"DERAH\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2015\/12\/DERAH1-269x300.jpg\" width=\"269\" height=\"300\" \/><\/a>Ele imediatamente disse que n\u00e3o, de presente n\u00e3o, mas o neg\u00f3cio estaria fechado se eu aceitasse uma \u00e9gua virgem, da cria\u00e7\u00e3o dele, que estava arrendada ao propriet\u00e1rio Jos\u00e9 Buarque de Macedo, e em v\u00e9speras de devolu\u00e7\u00e3o. Eu respondi que ele poderia considerar o Minotauro dele, a minha inten\u00e7\u00e3o era satisfazer a vontade do grande criador, e qualquer que fosse a troca oferecida, a proposta j\u00e1 estava aceita, mas eu insistiria em que ele aceitasse o cavalo de presente. E respondeu que o neg\u00f3cio estava fechado. Naquele momento, logo ap\u00f3s o jantar, assinei o documento de transfer\u00eancia do Ipiranga para o Bela Esperan\u00e7a. No dia seguinte, um caminh\u00e3o foi buscar Minotauro. Quatro meses depois, o Dr. Paulino me avisou que a \u00e9gua prometida estava a minha disposi\u00e7\u00e3o no Hip\u00f3dromo de Cidade Jardim. Era simplesmente uma filha da maravilhosa Garbosa Bruleur. Eu considero que n\u00e3o houve uma transa\u00e7\u00e3o, mas na verdade uma troca de presentes.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">O turfe \u00e9 o Esporte dos Reis.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">\u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 Em uma tarde de corridas no Hip\u00f3dromo de Tarum\u00e3, quando de um Grande Premio Paran\u00e1, eu e Matias (Matias Machline do Haras Rosa do Sul). Ele havia rec\u00e9m comprado terras do ent\u00e3o Presidente do Jockey Club do Paran\u00e1, com a intermedia\u00e7\u00e3o do veterin\u00e1rio e amigo dos dois Alceu Ata\u00edde. Matias tinha ido ao Tarum\u00e3 para prestigiar o ent\u00e3o Presidente, melhorando o habitual fraco movimento de apostas com o seu dinheiro. Colocaram junto ao Matias um confi\u00e1vel Diretor Goubert Dion\u00edsio, um homem agrad\u00e1vel e muito bem educado. O Matias, do primeiro at\u00e9 o pen\u00faltimo p\u00e1reo, dizia ao Goubert quais as suas apostas, que as vezes eram at\u00e9 conflitantes, mas o que o Matias queria era mesmo s\u00f3 ajudar. Corrido o pen\u00faltimo p\u00e1reo, Matias disse ao Goubert que iria voltar para S\u00e3o Paulo em um avi\u00e3o que o aguardava, e pediu que o Goubert fosse verificar o resultado das suas apostas, todas feitas verbalmente e transmitidas em confian\u00e7a pelo Goubert a um guich\u00ea especial. A resposta veio surpreendente. O Matias havia tido um bom lucro, havia acertado por simples palpites em alguns rateios grandes. Ao saber do resultado e do valor, o Matias simplesmente disse que ele encaminhasse aquele bom valor a uma institui\u00e7\u00e3o de caridade. Ele me ofereceu carona no avi\u00e3o, a agradeci porque havia ido de autom\u00f3vel. E discretamente, al\u00e9m de ajudar o Clube com as suas apostas e a uma institui\u00e7\u00e3o de caridade, ele simplesmente voltou para S\u00e3o Paulo. Em outra oportunidade, em uma sexta-feira \u00e0 tarde, eu passei pelo Stud Book Brasileiro em S\u00e3o Paulo para fazer um comunicado qualquer, e conversando um pouco com o ent\u00e3o gerente de nome Newton, soube que na semana entrante deveria ser publicado em Di\u00e1rio Oficial as novas normas para importa\u00e7\u00e3o, bem mais restritas que as vigentes. Perguntei por que n\u00e3o teria havido uma referente divulga\u00e7\u00e3o do assunto, e me foi respondido que havia sido para evitar palpites, opini\u00f5es, outras manifesta\u00e7\u00f5es que iriam tumultuar e atrasar normas ent\u00e3o consideradas necess\u00e1rias. No dia seguinte, s\u00e1bado nas corridas em Cidade Jardim, encontrei um Alceu Ataide euf\u00f3rico, o Matias havia comprado na Argentina um bom haras e de porteiras fechadas, que inclu\u00edam 40 \u00e9guas reprodutoras, que viriam todas para o Rosa do Sul, em Atibaia. Eu contei ao Dr. Alceu a novidade que eu tomara conhecimento na v\u00e9spera, e disse que dentre as 40 \u00e9guas rec\u00e9m-compradas certamente haveria pelo menos algumas que pelas novas regras n\u00e3o iriam poder entrar, o plantel teria cunho tradicional as modernas normas restritivas, e eu perguntei se a papelada das tais \u00e9guas j\u00e1 havia dado entrada no Stud Book. Ante a resposta negativa, havia que ser registrada no Stud Book um documento qualquer, devidamente datado daquela segunda-feira, informando pelo menos os nomes dos animais adquiridos na Argentina, e com o compromisso da apresenta\u00e7\u00e3o dos referentes documentos de cada \u00e9gua logo que chegassem da Argentina. O Dr. Alceu tomou as devidas providencias na segunda-feira mesmo. Na quinta-feira veio no Di\u00e1rio Oficial a nova restritiva regulamenta\u00e7\u00e3o. Passados alguns dias, o Dr. Alceu me telefonou, tinha instru\u00e7\u00f5es do Matias para me mandar uma caixa de champanhe francesa. Eu agradeci, aquilo que seria um desprop\u00f3sito, que ele agradecesse ao Matias por mim mas que ele esquecesse essa caixa de champanhe. <a href=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2015\/12\/tumble1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-medium wp-image-74512\" alt=\"tumble\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2015\/12\/tumble1-300x214.jpg\" width=\"300\" height=\"214\" \/><\/a>Mas o Dr. Alceu disse que tinha instru\u00e7\u00f5es, n\u00e3o aceitar qualquer recusa, e mandar a tal caixa. Ap\u00f3s muitas pondera\u00e7\u00f5es de parte a parte, ante a firme postura do Matias, eu disse ao Dr. Alceu que, para encerrar aquele epis\u00f3dio, n\u00f3s entender\u00edamos o caso com uma troca de gentilezas, ele receberia de mim a tal preciosa informa\u00e7\u00e3o e ele me cederia uma cobertura do seu \u00f3timo garanh\u00e3o Tumble Lark(<strong>foto<\/strong>). Ideia aceita na hora, uma \u00e9gua minha de nome Poupete foi para o Rosa do Sul. Transporte, estadia, cobertura, tudo de gra\u00e7a. Nasceu um bom cavalo preto, muito bonito, que me deu muitas satisfa\u00e7\u00f5es. Chamava-se Einstein.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: medium;\">O turfe \u00e9 o Esporte dos Reis.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No turfe, como em todas as atividades, h\u00e1 n\u00facleos melhores, mais confi\u00e1veis, de bom padr\u00e3o, e tamb\u00e9m h\u00e1 outros nem tanto. 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