

{"id":69322,"date":"2015-07-15T12:12:25","date_gmt":"2015-07-15T15:12:25","guid":{"rendered":"\/home\/?p=69322"},"modified":"2015-07-14T17:13:12","modified_gmt":"2015-07-14T20:13:12","slug":"ouro-fino-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/69322\/ouro-fino-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Ouro Fino, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Angelo Jesus da Paz de Cristo, esse era o nome dele, mas s\u00f3 o conheciam como Boca de Sapo. Era um caboclo pequeno e forte, de rosto redondo, e como mantinha quase sempre um esbo\u00e7o de sorriso, sua boca larga ficava ainda mais larga. Boca de Sapo era um apelido muito adequado.<\/p>\n<p>J\u00e1 nascera no interior, no mundo das fazendas, dos bois, dos cavalos e dos burros, e o seu ganha p\u00e3o era amansar animais; muito jeitoso, maneiro, safo, simp\u00e1tico, trabalhador e sobretudo gostando do que fazia, foi de menino a homem, de fazenda em fazenda, sempre contratado para acertar de lombo e de boca o que houvesse para ser montado. Muito requisitado, suas semanas s\u00f3 terminavam ao anoitecer dos s\u00e1bados; ia para casa, modesta mas agrad\u00e1vel e que ficava uma l\u00e9gua adiante, fazia sua semanal rala barba, tomava um bom banho, colocava uma camisa limpa, montava em seu alaz\u00e3o e ia para a vila, direto para o botequim, beber umas pingas e saber das novidades. Era ai que tudo mudava; seu temperamento cordial, risonho e manso se transformava em agressividade, em irrita\u00e7\u00e3o, em vontade de brigar. E era isso que acontecia, n\u00e3o s\u00f3 no boteco onde todos o conheciam e sabiam que n\u00e3o havia que enfrent\u00e1-lo, era sair fora e se fazer de desentendido, mas o Boca de Sapo desrespeitava, provocava, ia penetrando nos bailes \u00e0 procura de confus\u00e3o, e sempre encontrava outros tamb\u00e9m tocados a \u00e1lcool, valentes, bons de briga, e a pancadaria era a t\u00f4nica das noites dos s\u00e1bados. Chegava em casa ao amanhecer dos domingos e gra\u00e7as ao Ouro Fino, seu cavalo amigo, que o entendia e que o levava de volta, cuidando para que o seu b\u00eabado e extenuado dono n\u00e3o despencasse de cabe\u00e7a no seu lombo.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, Ouro Fino era uma figura importante na vida do Boca de Sapo, que o vira pela primeira vez ainda pequeno, em meio a uma tropa de burros chucros que fora amansar. O pelo dourado, temperamento d\u00f3cil e o olhar esperto, a nobreza de seu porte chamaram a aten\u00e7\u00e3o do Boca de Sapo, que acabou por receb\u00ea-lo em troca da doma da burrada. E houve um entrosamento completo, um ex\u00edmio domador com um cavalo bom, inteligente, \u00e1gil e forte; Ouro Fino aprendeu todas as artes e manhas que o seu dono sabia e lhe ensinou. Andava devagar bem calmo ou a passos largos e firmes, seu trote era t\u00e3o macio que o cavaleiro n\u00e3o saia da sela, seu galope muito c\u00f4modo e se necess\u00e1rio corria loucamente, isso tudo aliado a uma beleza incomum.<\/p>\n<p>Ouro Fino era o xod\u00f3 do Boca de Sapo, que al\u00e9m de lev\u00e1-lo aos s\u00e1bados para a vila, aos domingos \u00e0 tarde, de crinas tran\u00e7adas com fitas coloridas, desfilava triunfalmente pelas poucas ruas da vila, se apresentava em festas e nos circos que de quando em quando apareciam. Das pencas havia participado pouco, pois nunca encontrava competidores \u00e0 altura, ganhava com facilidade independentemente de peso ou dist\u00e2ncia, ningu\u00e9m ousava enfrent\u00e1-lo.<\/p>\n<p>Os anos passaram, com o Boca de Sapo sistematicamente recusando todas as in\u00fameras ofertas para vender o seu cavalo, at\u00e9 que um dia de manh\u00e3, quando a porta da cocheira foi aberta, l\u00e1 estava Ouro Fino estirado no ch\u00e3o, morto. Boca de Sapo n\u00e3o foi trabalhar, vestiu uma roupa limpa, foi para a vila, e como que sem querer disse que resolvera vender o Ouro Fino. A noticia correu rapidamente, e logo o botequim ficou cheio de gente fazendo todos os tipos de propostas e ofertas. Depois de muita conversa, o Boca de Sapo disse que resolvera fazer uma rifa, que iria correr naquele mesmo dia, \u00e0 tardinha. Todos os muitos n\u00fameros foram logo comprados, a cidade inteira queria o Ouro Fino, e a rifa rendeu um dinheir\u00e3o. Feito o sorteio, o felizardo e invejado ganhador foi logo buscar o seu pr\u00eamio, e voltou desesperado ao botequim procurando o Boca de Sapo, que dali n\u00e3o sa\u00edra, bebendo umas e outras. Aparentemente surpreso com a not\u00edcia dada pelo ganhador da rifa, Boca de Sapo de imediato devolveu o dinheiro da compra do n\u00famero ganhador.<\/p>\n<p>Houve quem quisesse reclamar, se o pr\u00eamio n\u00e3o podia ser entregue, todo o dinheiro da rifa tinha que ser devolvido, e as opini\u00f5es se dividiram. Mas aquela altura o Boca de Sapo, b\u00eabado e valente, n\u00e3o era mais Angelo, muito menos Jesus, quanto mais Paz de Cristo, e ali mesmo iniciou-se uma monumental briga, uma pancadaria que se alastrou pela vila, e que s\u00f3 terminou muitas horas depois, e em meio aquele saldo de homens b\u00eabados, sujos, esfarrapados, machucados, suados e exaustos, prevaleceu o entendimento de que o Boca de Sapo estava certo. Ele j\u00e1 tinha devolvido o dinheiro do ganhador, que direito tinham os outros de reclamar, se haviam perdido?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Angelo Jesus da Paz de Cristo, esse era o nome dele, mas s\u00f3 o conheciam como Boca de Sapo. Era um caboclo pequeno e forte, de rosto redondo, e como mantinha quase sempre um esbo\u00e7o de sorriso, sua boca larga ficava ainda mais larga. Boca de Sapo era um apelido muito adequado. 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