

{"id":68098,"date":"2015-06-17T12:00:27","date_gmt":"2015-06-17T15:00:27","guid":{"rendered":"\/home\/?p=68098"},"modified":"2015-06-16T23:46:12","modified_gmt":"2015-06-17T02:46:12","slug":"furacao-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/68098\/furacao-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Furac\u00e3o, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>L\u00e1, bem no interior, longe dos grandes centros, naquela pequena comunidade (mais uma vila do que propriamente uma cidade), a divers\u00e3o aos domingos era mesmo os desafios com os cavalos. Os fazendeiros e os sitiantes, e todos os outros donos de cavalos da regi\u00e3o e das vizinhas, encontravam-se junto aos \u201ctrilhos\u201d, ali passavam as tardes, e as poucos as disputas come\u00e7avam, com apostas, em clima de burburinho e exalta\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m mercadores traziam cavalos novos para oferecer; comprava-se e vendia-se, tudo em torno das corridas da ocasi\u00e3o, dos desafios que a aud\u00e1cia de uns e a esperteza de outros transformava, em alegria e festa as tardes dos domingos. De quando em vez surgia um cavalo desconhecido, trazido por um forasteiro, que vinha de bolsos cheios para tentar bons lucros em apostas mais altas, e a\u00ed os \u00e2nimos ficavam mais acirrados, e as tardes ainda mais animadas.<\/p>\n<p>Um dia surgiu uma not\u00edcia que despertou a curiosidade de todos: um homem barbudo e usando um chapel\u00e3o de abas largas, e que andava percorrendo o interior, costumava aparecer sem avisar, de mansinho, numa pequena charrete, trazendo amarrado e puxado por uma corda um lindo alaz\u00e3o, grande, forte e muito corredor. O homem nunca sa\u00eda perdedor, pois seu Furac\u00e3o honrava o nome, era muito \u00e1gil na partida, j\u00e1 largava em alta velocidade, e sempre ganhava com boa vantagem, sem dar susto. A not\u00edcia se alastrou, mexeu com a curiosidade de todos, e com ansiedade o assunto passou a ser o centro de todas as conversas.<\/p>\n<p>Os donos dos cavalos melhores come\u00e7aram a temer por um poss\u00edvel desastre, o tal Furac\u00e3o ser na verdade melhor do que todos os cavalos da regi\u00e3o, e eles n\u00e3o poderiam deixar de aceitar um desafio, era quest\u00e3o de honra, de vergonha na cara. Conversa vai, conversa vem, entenderam de montar uma estrat\u00e9gia (se eles n\u00e3o podiam fugir daquele desafio, por outro lado o barbudo tamb\u00e9m n\u00e3o ia poder). Resolveram manter bem preparados os dois melhores velocistas da regi\u00e3o, e logo que o forasteiro chegasse, de imediato seria proposto o desafio, sem dar tempo de descanso ao cavalo que chegava de viagem, andando; para maior seguran\u00e7a seria uma aposta dupla, a segunda logo ap\u00f3s a primeira; primeiro correria o pior dos dois contra o cavalo cansado, por uma aposta razo\u00e1vel, e logo em seguida a outra, entrando o cavalo melhor por uma aposta muito mais alta. N\u00e3o podia falhar, a \u00fanica hip\u00f3tese seria do barbudo n\u00e3o aceitar; mas isso estaria fora de cogita\u00e7\u00e3o, ficaria por conta das provoca\u00e7\u00f5es, das ironias, de press\u00e3o, de suposta esportividade, da honra. Tudo assentado, os cavalos cuidados e preparados com carinho especial, tudo pronto, s\u00f3 faltava o barbudo aparecer.<\/p>\n<p>Alguns domingos se sucederam, sem novidades, e quando parecia que tudo n\u00e3o passava de boato, eis que surge a charretinha puxando o tal alaz\u00e3o, que era ainda mais bonito do que se imaginava, de f\u00edsico impressionante, um terror.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o havia mais o que fazer, a n\u00e3o ser executar logo o plano. O barbudo era simp\u00e1tico, trazia dinheiro suficiente para as apostas que haviam sido alvitradas, procurou ganhar tempo mas n\u00e3o conseguiu, pois se o seu cavalo era t\u00e3o bom como diziam, n\u00e3o havia o que temer; teve que aceitar o que lhe era proposto, e o plano come\u00e7ou a funcionar.<\/p>\n<p>O alaz\u00e3o e seu primeiro competidor foram encilhados e montados, colocaram-se sem problemas no partidor, e sem demora foi dada o larga. Para surpresa geral, n\u00e3o \u00e9 que o cavalo do barbudo perdeu? A alegria foi geral, o cansa\u00e7o j\u00e1 decidira o primeiro confronto, e o melhor estava por vir. O barbudo tentou argumentar, mas n\u00e3o lhe deram chance, trato era trato.<\/p>\n<p>De imediato apresentou-se o cavalo bom, e a sua apar\u00eancia n\u00e3o podia ser melhor; foi logo encilhado, estava pronto. O barbudo olhou bem para o seu alaz\u00e3o, que estava muito cansado, suado, resfolegando de cabe\u00e7a baixa; naquelas condi\u00e7\u00f5es, antes mesmo de participar de novo j\u00e1 estava derrotado, e pior do que isso, se tivesse que correr outra vez, a seguir, poderia at\u00e9 se inutilizar para sempre. Mas trato era trato, e tinha que haver um p\u00e1reo. Silenciosamente, o homem do chap\u00e9u de abas largas levou seu cavalo e o amarrou na traseira da charrete. De cabe\u00e7a baixa, a apar\u00eancia resignada, desatrelou da charrete o velho punguinha tordilho, que dormitava, e disse que, para haver nova corrida e n\u00e3o podendo ele se utilizar do alaz\u00e3o, s\u00f3 lhe restava se apresentar com o outro, que pelo menos n\u00e3o estava exausto; era a \u00fanica forma de ele poder honrar a sua palavra. E assim foram para o partidor. Dada \u00e0 largada, aquele que dormitava pulou como se acionado por um propulsor a jato, e como um b\u00f3lido disparou com enorme velocidade, vencendo a larga vantagem.<\/p>\n<p>O sil\u00eancio era total. O barbudo serenamente pegou a caixa de papel\u00e3o onde estava depositado o dinheiro das apostas e a colocou no ch\u00e3o da charrete. Atrelou o velho punguinha tordilho, acomodou-se, acenou com seu chapel\u00e3o de abas largas para aquela multid\u00e3o que paralisada o observava. Colocou o chap\u00e9u na cabe\u00e7a, e debru\u00e7ando-se um pouco, deu duas amistosas palmadinhas na garupa do cavalinho, e docemente disse: \u201cvamos, Furac\u00e3o\u201d.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>L\u00e1, bem no interior, longe dos grandes centros, naquela pequena comunidade (mais uma vila do que propriamente uma cidade), a divers\u00e3o aos domingos era mesmo os desafios com os cavalos. 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