

{"id":66895,"date":"2015-05-20T12:00:29","date_gmt":"2015-05-20T15:00:29","guid":{"rendered":"\/home\/?p=66895"},"modified":"2015-05-20T00:08:20","modified_gmt":"2015-05-20T03:08:20","slug":"a-cor-da-sorte-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/66895\/a-cor-da-sorte-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"A Cor da Sorte, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>O marido era um homem j\u00e1 de certa idade, sempre bem vestido, quieto, e que ia ao prado em todos os dias de corridas; tinha cavalos, alguns bem bons, e costumava apostar neles quando eles ganhavam, sempre na certa. A precis\u00e3o de suas apostas em seus pr\u00f3prios cavalos chamou a aten\u00e7\u00e3o dos outros apostadores, que passaram a fiscaliz\u00e1-lo em suas idas aos guich\u00eas de apostas.<\/p>\n<p>Um dia o homem percebeu que desde algum tempo estava sendo observado, e passou a fazer suas apostas antecipadamente, antes do 1\u00b0 p\u00e1reo, de modo que, durante o desenrolar dos programas das corridas, os outros apostadores passaram a ficar sem saber quando ele jogava; tantos os cavalos que teoricamente tinham boas possibilidades de ganhar, assim como os outros de chances menores, ganhavam ou perdiam, mas dava para perceber que o dono s\u00f3 apostava na certa; depois de cada p\u00e1reo vencido ele invariavelmente metia a m\u00e3o no bolso e sorridente olhava as poules; ap\u00f3s cada p\u00e1reo perdido ele sorria para a mulher, n\u00e3o havia apostado.<\/p>\n<p>Aquele estado de coisas foi ficando cada vez mais insuport\u00e1vel, intrigante, instigando a curiosidade dos apostadores, que procuravam ind\u00edcios, sinais que indicassem se aquele homem, sempre quieto antes dos p\u00e1reos e que s\u00f3 se manifestava depois de cruzado o disco, havia ou n\u00e3o jogado.<\/p>\n<p>Um dia, um apostador mais esperto observou um detalhe; aquele homem sempre estava acompanhado pela mulher, bem mais mo\u00e7a do que ele, esguia, bonita de rosto e de corpo, sempre muito elegante, e quieta como o marido; mas havia uma curiosidade, quando ela usava alguma coisa da cor rosa, os cavalos ganhavam, quando n\u00e3o, perdiam. \u00c0s vezes era um chapeuzinho, outras um len\u00e7o, uma eventual echarpe, uma bolsa, sapatos, enfim, quando havia alguma coisa rosa, os cavalos ganhavam e o homem havia apostado, se n\u00e3o houvesse nada rosa era sinal de que n\u00e3o havia f\u00e9, e n\u00e3o havia vit\u00f3ria. Assim, n\u00e3o s\u00f3 aquele observador, mas tamb\u00e9m muitos outros, aprenderam o segredo do marido; na hora do jogo, na poule certa, a mulher usava a cor da sorte, a rosa; e aquilo nunca falhava. Naturalmente todo mundo passou a se beneficiar daquela observa\u00e7\u00e3o; retrospectos, palpites, informa\u00e7\u00f5es, nada interessava, bastava olhar a mulher e n\u00e3o apostar, ou ir na certa. E desse modo, as poules certas davam rateios cada vez menores, e o homem percebeu que o seu segredo j\u00e1 era do conhecimento geral.<\/p>\n<p>Um dia, o homem estrearia um potro de bom papel, de boa preced\u00eancia, num p\u00e1reo em que havia um favorito destacado, em fun\u00e7\u00e3o de boas coloca\u00e7\u00f5es cl\u00e1ssicas, e mais tr\u00eas ou quatro candidatos que j\u00e1 haviam corrido muito bem; p\u00e1reo cheio, forte, dif\u00edcil para um estreante. Mas tudo isso n\u00e3o interessava aqueles apostadores, o dono do estreante nunca errava, por isso havia que se observar a mulher dele antes de irem para os guich\u00eas.<\/p>\n<p>Como j\u00e1 era esperado, o casal chegou logo no inicio do programa, e deu para todo observar que a mulher nada trazia da cor rosa; estava como sempre muito elegante, discreta em sua beleza, junto ao marido, e sem rosa. Os apostadores riscaram o nome do potro estreante do programa, e todos partiram para jogar em duplas do favorito com aqueles tr\u00eas ou quatro bons pretendentes.<\/p>\n<p>Corrido o p\u00e1reo, o espanto e o desaponto eram gerais; ganhara o potro estreante, com grande autoridade, e proporcionando um rateio enorme. A alegria do casal era vis\u00edvel, e era evidente que o homem havia acertado uma pequena fortuna, pois foi com muita emo\u00e7\u00e3o que ele tirara do bolso um bolo de poules que mostrava a mulher.<\/p>\n<p>A revolta, o desespero, a inconformidade, a sensa\u00e7\u00e3o de terem sido enganados, a mistura de sensa\u00e7\u00f5es negativas fez com que um deles, aquele que parecia o mais esperto, porque fora o primeiro a descobrir o detalhe rosa, aguardasse o momento em que o marido foi aos guich\u00eas para receber o dinheir\u00e3o ganho, para se acercar da bela mulher, temporariamente sozinha. Respeitosamente cumprimentou-a, deu os parab\u00e9ns pela vit\u00f3ria, e perguntou-lhe agoniado: \u201cMinha senhora, j\u00e1 h\u00e1 algum tempo que n\u00f3s apostadores est\u00e1vamos acostumados a apostar na certa nos cavalos do seu marido, desde que verificamos que a cor da sorte dele, rosa, era pela senhora sempre e s\u00f3 usada quando das vit\u00f3rias. Naturalmente hoje ningu\u00e9m apostou no potro estreante, e depois do p\u00e1reo todos viram que o seu marido havia jogado nele, e muito. Como \u00e9 que se explica o que aconteceu, como \u00e9 que seu marido apostou forte no potro sem a senhora usar alguma coisa rosa?\u201d<\/p>\n<p>O lindo rosto da mulher se iluminou, os olhos brilharam, ela entreabriu os l\u00e1bios num sorriso divertido, malicioso, e perguntou: \u201cMas quem foi que lhe disse que eu n\u00e3o estou usando nada cor de rosa?\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O marido era um homem j\u00e1 de certa idade, sempre bem vestido, quieto, e que ia ao prado em todos os dias de corridas; tinha cavalos, alguns bem bons, e costumava apostar neles quando eles ganhavam, sempre na certa. 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