

{"id":66718,"date":"2015-05-13T12:00:58","date_gmt":"2015-05-13T15:00:58","guid":{"rendered":"\/home\/?p=66718"},"modified":"2015-05-12T23:45:35","modified_gmt":"2015-05-13T02:45:35","slug":"viola-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/66718\/viola-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Viola, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Nasceu Violeta, bonitinha sem ser bonita, gordinha sem ser gorda. Esperta, participava de todas as atividades no col\u00e9gio que o Jockey Club Brasileiro mantinha e mant\u00e9m gratuitamente para os filhos dos funcion\u00e1rios e profissionais.<\/p>\n<p>Como era filha de um jardineiro do clube (a m\u00e3e era costureira de m\u00e3o cheia, e que habitualmente fazia a farda dos j\u00f3queis); desde logo foi matriculada na escola, e l\u00e1 passou os primeiros anos de sua vida. Aos poucos foi melhorando, mais e mais, o seu bom humor, o seu rosto bonitinho passou a ser muito bonito, os fartos cabelos enfeitando uma promissora figura de mulher. O interesse dos meninos por ela foi aumentando e suas amigas e colegas achavam isso muito natural. Cada vez mais bonita e atraente, Violeta a todos cativava pela simpatia e bom humor. N\u00e3o havia inveja nem ci\u00fame. S\u00f3 uma das meninas, uma magrinha n\u00e3o gostava dela por simples inveja. Mas Violeta n\u00e3o se incomodava, seguia pela vida com alegria contagiante. Mas a M\u00e3e Natureza, que lhe dera sempre tudo de bom, come\u00e7ara a complicar um pouco a sua vida, pois come\u00e7ara a crescer demais e encorpar, Mas Violeta n\u00e3o era burra, n\u00e3o era de se entregar, entrou logo para uma academia de gin\u00e1stica, e malhava diariamente o suficiente para manter o corpo em equil\u00edbrio, o seu peso estava de acordo com a sua altura, e aulas de boxe mantinham a sua musculatura forte e bem proporcionada.<\/p>\n<p>N\u00e3o demorou muito para que as escolas de samba a procurassem. Pagariam os seus estudos, propunham proporcionar-lhe uma vida confort\u00e1vel, a troco dela aprender a sambar e desfilar na avenida.<\/p>\n<p>Violeta n\u00e3o tinha nada a perder, gostava de dan\u00e7ar, estava de bem com a vida, al\u00e9m dos exerc\u00edcios na academia, sambar poderia ajud\u00e1-la a manter-se em forma. Rapidamente galgou posi\u00e7\u00f5es na Escola, come\u00e7ou como figurante, passou a princesa, depois rainha, e chegou ao topo, musa da sua Escola e ainda de todas as Escolas, era Musa das Musas. Alta, grande, de beleza pl\u00e1stica invej\u00e1vel e com um permanente sorriso de alegria e bom humor, Violeta virou a Viola do Samba, a mais bonita e a mais querida. Nos ensaios de sua Escola, quando ela comparecia, quase sempre criava-se um problema, tal era a quantidade de sambistas que queriam v\u00ea-la de perto, queria v\u00ea-la dan\u00e7ar. Nos eventuais eventos em que a Escola participava, e tamb\u00e9m em pequenas participa\u00e7\u00f5es da Escola em programas de televis\u00e3o, o sucesso de Viola era sempre maior. A fantasia que deram para Viola desfilar no carnaval era pequena, bem pequena, mas a figura daquela mulher com lindos adere\u00e7os que n\u00e3o lhe escondiam a beleza, e com um cocar que era muito colorido e deslumbrante, faziam de Viola a principal atra\u00e7\u00e3o do desfile das Escolas de Samba cariocas, na Marques de Sapuca\u00ed. Ningu\u00e9m resistira ao cativante sorriso da linda mulher, da mais bonita da mulheres, espelhando um irresist\u00edvel bom humor, com um escultural e gracioso corpo, sambando e evoluindo com a gra\u00e7a de verdadeira deusa.<\/p>\n<p>Quando Viola despontou na avenida, a agita\u00e7\u00e3o geral cresceu, as c\u00e2meras de televis\u00e3o imediatamente voltaram-se para ela, e por mais beleza que fosse dela esperava, Viola superou a expectativa de todos, era uma deusa que sambava e cantava. O povo cantava com entusiasmo a m\u00fasica da Escola, o barulho era ensurdecedor, mas alternava a alegria e beleza de Viola, que s\u00f3 sorria e sambava, sorria e sambava.<\/p>\n<p>De repente, quando a bateria fez um breque, uma voz estridente, fina e esgani\u00e7ada gritou \u201chorrorosa, gorda\u201d. De imediato, Viola parou de dan\u00e7ar. Ficou parada. Pela primeira vez na hist\u00f3ria dos desfiles das escolas de samba na Marques de Sapuca\u00ed, pela primeira e \u00fanica vez, os milh\u00f5es que acompanhavam as evolu\u00e7\u00f5es pelas televis\u00f5es levando o espetacular desfile aos quatro cantos do mundo, e as dezenas de milhares de pessoas que lotavam o samb\u00f3dromo, todos ficaram atordoados e at\u00f4nitos. A bateria parou de tocar, os passistas, dan\u00e7arinos e sambistas, todo mundo parado, em um monumental e sepulcral sil\u00eancio, todo mundo de olhos fixos na maravilhosa figura da Viola, musa das musas, a suprema rainha do carnaval carioca, a mais bonita e carism\u00e1tica figura do melhor carnaval do mundo. De repente, com todo mundo parado e quieto, Viola correu para uma lateral da passarela, saltou com facilidade a grade que separava a passarela do p\u00fablico apesar de seus adere\u00e7os pesados, um lindo e gigantesco cocar, nada prejudicando a sua figura escultural, dirigiu-se rapidamente para o local de onde sa\u00edra o grito. E l\u00e1 estava a magricela, aquela mesma detest\u00e1vel menina que sempre a perseguia na escola chamando-a de feia e horrorosa. Quando a magricela viu a figura grande e forte da musa das musas, a linda e atl\u00e9tica Viola, ficou p\u00e1lida e recuou um passo. Mas n\u00e3o foi o suficiente, a atl\u00e9tica Viola, que era Violeta quando menina, pegou a desagrad\u00e1vel invejosa pelo pesco\u00e7o e deu-lhe um violento murro na cara, que logo come\u00e7ou a sangrar pelo nariz quebrado. Viola ent\u00e3o disse alto, para que a apavorada infeliz e todas ouvissem, \u201chorrorosa eu at\u00e9 aceito, mas gorda n\u00e3o\u201d. Deu meia volta, saltou de novo a tal grade, colocou-se em sua posi\u00e7\u00e3o central na passarela e recome\u00e7ou a dan\u00e7ar. Nunca antes, e seguramente, nunca depois, o samb\u00f3dromo da Marques da Sapuca\u00ed recebeu tamanha ova\u00e7\u00e3o, a bateria tocando com incomum entusiasmo, os passistas, as cabrochas, as baianas, toda a Escola explodiu em alegria e entusiasmo. Foi a maior e mais ensurdecedora homenagem que qualquer sambista poderia desejar. A maravilhosa Viola, a musa das musas, aquela que crescera Violeta, alegre, feliz, cada dia mais bonita de rosto e de corpo, levava a vida de modo leve, cantando, satisfeita com o que de bom a vida lhe oferecia, esquecia-se rapidamente do que n\u00e3o era bom, mas Viola fazia quest\u00e3o, n\u00e3o abria m\u00e3o de ser feliz. Podia at\u00e9 ser injustamente chamada de horrorosa, mas gorda n\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nasceu Violeta, bonitinha sem ser bonita, gordinha sem ser gorda. Esperta, participava de todas as atividades no col\u00e9gio que o Jockey Club Brasileiro mantinha e mant\u00e9m gratuitamente para os filhos dos funcion\u00e1rios e profissionais. 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