

{"id":65705,"date":"2015-04-15T10:00:18","date_gmt":"2015-04-15T13:00:18","guid":{"rendered":"\/home\/?p=65705"},"modified":"2015-04-14T18:06:06","modified_gmt":"2015-04-14T21:06:06","slug":"o-cantor-de-tangos-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/65705\/o-cantor-de-tangos-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"O Cantor de Tangos, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Todos os dias o pai acordava \u00e0s 4 horas da madrugada, noite fechada, ia direto para o pastinho onde ficavam os cinco burros, e abria a porteira para que eles fossem para perto do pequeno galp\u00e3o; dava uma olhada para ver se estava tudo em ordem, punha comida no cocho, que era um tronco de \u00e1rvore oco deitado no ch\u00e3o, e voltava pra casa. Chamava a mulher e o filho, e um pouco depois estavam \u00e0 mesa tomando caf\u00e9 com broa de milho. \u00c0s cinco o pai e o menino atrelavam cada burro em sua carrocinha, sempre primeiro Pachola, o burro branco, cor de leite, depois os outros. Antes das seis horas, sempre liderados pelo Pachola, as cinco carrocinhas seguiam sozinhas, em calma fila, e chegavam \u00e0 boca da mina de min\u00e9rio. O neg\u00f3cio do pai era, com suas cinco carrocinhas puxadas a burro, transportar o min\u00e9rio dali para junto \u00e0 estrada de ferro. O filho cuidava do carregamento e o pai do descarregamento; o trajeto n\u00e3o era problema, pois os cinco burrinhos iam e voltavam, o dia inteiro, sozinhos; ningu\u00e9m se surpreendia, era cena comum di\u00e1ria, aquelas cinco carrocinhas engatadas em burros, sempre um branco seguido por quatro castanhos. Ao anoitecer, os animais eram desatrelados e soltos no pastinho.<\/p>\n<p>Passaram-se alguns anos, a empresa mineradora entendeu de modernizar o sistema de extra\u00e7\u00e3o e transporte do min\u00e9rio, e acabou que o servi\u00e7o dos burrinhos e suas carrocinhas passou a ser feito por carro\u00e7\u00f5es puxados por tratores.<\/p>\n<p>O pai teve que trabalhar em outro ramo de neg\u00f3cios. Incumbiu o filho de cuidar de uma das tantas vacas leiteiras que ele comprou com as economias. O servi\u00e7o consistia em ir cedo tocar as vacas para o local da ordenha, onde o pai aguardava. O problema inicial, de cercar as vacas para encaminh\u00e1-las \u00e0 porteira, no escuro da noite, foi facilmente e desde logo resolvido pelo pai, que ap\u00f3s bem observ\u00e1-las escolheu Dengosa, e colocou-lhe no pesco\u00e7o dependurada uma sineta. Ficou f\u00e1cil para o menino, que mesmo sem enxergar sabia onde a Dengosa estava, e bastava passar-lhe uma corda e pux\u00e1-la at\u00e9 o curral, para onde ia acompanhada pelas outras.<\/p>\n<p>Terminada a ordenha, as vacas era levadas de volta ao pasto da mesma forma que tinham vindo; os burrinhos iam puxando as suas carrocinhas at\u00e9 a cidade, para entregar os lat\u00f5es de leite aos habituais clientes; era trabalho simples, o menino ia na carrocinha de Pachola, seguida pelas outras, e terminado o servi\u00e7o voltavam para o s\u00edtio, onde o pai passava o dia cuidando de pequenas planta\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>A vida seguiu por um bom tempo at\u00e9 que um dia o menino, \u00e0quela altura j\u00e1 um homem, sentiu-se s\u00f3; com o passar dos anos, primeiro morrera a m\u00e3e, depois o pai, ele sozinho num s\u00edtio com seus velhos burrinhos e vacas. Na primeira oportunidade que surgiu, vendeu o s\u00edtio de porteira fechada, e foi embora pelo mundo sem olhar pra tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Para uma cidade como aquela, a inaugura\u00e7\u00e3o de um hip\u00f3dromo era coisa nunca sonhada; deu nova vida, veio gente de fora; propriet\u00e1rios, treinadores, j\u00f3queis, cavalari\u00e7os cuidando de cavalos que chegavam cercados de enorme curiosidade, verdadeiramente uma grande atra\u00e7\u00e3o. Acabou-se a monotonia, vinha gente da redondeza e at\u00e9 de mais longe, pois em todos os domingos havia corridas, e passou a ser assunto para a cidade inteira; anima\u00e7\u00e3o, mais dinheiro circulando, sucesso, progresso. Os meses foram se passando, e para manter o entusiasmo havia uma constante preocupa\u00e7\u00e3o dos diretores do Clube com sorteios, festas e promo\u00e7\u00f5es de toda ordem.<\/p>\n<p>Um dia chegou a cidade um circo, onde uma das atra\u00e7\u00f5es era uma apresenta\u00e7\u00e3o sincronizada de cavalos persas, cada um com um penacho de cor diferente, e a movimenta\u00e7\u00e3o era perfeita, harm\u00f4nica, disciplinada, um verdadeiro bailado onde os seis protagonistas sabiam o que fazer com precis\u00e3o. Era o n\u00famero mais aplaudido. Foi da\u00ed que surgiu a ideia de um p\u00e1reo no hip\u00f3dromo, exclusivo para aqueles seis lindos cavalos.<\/p>\n<p>Acertados os detalhes com o pessoal do circo, provid\u00eancias tomadas e muita propaganda, o hip\u00f3dromo embandeirado, no dia da corrida houve superlota\u00e7\u00e3o; n\u00e3o cabia mais ningu\u00e9m, a cidade inteira queria assistir. Os seis cavalos desfilaram no galope de apresenta\u00e7\u00e3o, montados por j\u00f3queis profissionais, com mantas numeradas, tudo como nos outros p\u00e1reos, mas o problema era que os seis eram praticamente iguais, dif\u00edcil distinguir um dos outros, como escolher um para apostar? O momento da largada estava chegando, e as d\u00favidas persistiam, escolha dif\u00edcil, quase imposs\u00edvel.<\/p>\n<p>Um homem assistiu o galope de apresenta\u00e7\u00e3o debru\u00e7ado na cerca da pista, olhando fixamente para os seis competidores, examinando-os atentamente. Ele era uma figura popular, apesar de novo na cidade; era um cantor de tangos, que se apresentava no \u00fanico cabar\u00e9 da cidade, e que s\u00f3 deixava de sorrir quando estava cantando, impressionando pela voz potente, pela vasta cabeleira e pelo espesso bigode preto. Terminado o galope, o cantor foi at\u00e9 o dono cabar\u00e9, que como todos na cidade estava no hip\u00f3dromo, e dele tomou adiantado v\u00e1rios sal\u00e1rios, todos os que conseguiu, dados de bom grado, pois o que o empres\u00e1rio mais queria era ter a garantia da perman\u00eancia em cartaz daquela atra\u00e7\u00e3o que tanto dinheiro lhe proporcionava.<\/p>\n<p>Como era grande o p\u00fablico e todo mundo queria participar, o jogo foi muito bom e equilibrado, mas todos perceberam que o cantor de tangos apostara fortemente em um dos cavalos, todo dinheiro que dispunha e sem convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A promo\u00e7\u00e3o foi coroada de \u00eaxito, o movimento de apostas e o entusiasmo do p\u00fablico ultrapassaram as melhores expectativas, compensou em muito o esfor\u00e7o da diretoria do Clube, apesar do p\u00e1reo n\u00e3o ter despertado emo\u00e7\u00e3o em seu desenrolar, pois os cavalos largaram, correram e chegaram sempre nas mesmas posi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>Quem mais gostou foi o cantor de tangos, que ganhou um bom dinheiro, a ponto de despertar a curiosidade e at\u00e9 suspeita; teria havido alguma fraude, o cantor teria armado algum golpe, o p\u00e1reo teria sido roubado? As desconfian\u00e7as e os rumores chegaram \u00e0 diretoria do Clube, que sabendo da necess\u00e1ria indispens\u00e1vel credibilidade nas corridas, acionou o delegado. O feliz acertador foi chamado para prestar declara\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No dia e hora determinados, o cantor apresentou-se despreocupado, e colocou-se \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o para quaisquer esclarecimentos. Riu gostosamente quando soube do motivo pelo qual fora chamado, e pedindo licen\u00e7a, passou a contar a hist\u00f3ria, de um menino, de um burrinho branco chamado Pachola e de uma vaca malhada de nome dengosa. Ele era aquele menino, que agora ganhava a vida como aprendera a gostar, viajando de cidade em cidade, vivendo de cantar. Quando ele soube do tal p\u00e1reo para os seis persas que juntos trabalhavam no picadeiro do circo, ele viu da certeza de ganhar um dinheiro muito f\u00e1cil. Assim como no caso dos burrinhos, que foram ensinados e acostumados a sempre respeitar Pachola, como no das vacas era a Dengosa que mostrava o caminho e ia sempre \u00e0 frente, nos trabalhos dos seis persas havia, como n\u00e3o podia deixar de ser, um cavalo-guia, um que servia de base, de orienta\u00e7\u00e3o para os outros; em todas as evolu\u00e7\u00f5es no picadeiro havia sempre a lideran\u00e7a de um mesmo cavalo, o melhor e mais adestrado, e os outros, por melhor compet\u00eancia que tivessem, sempre o respeitavam, o seguiam. O \u00fanico problema para quem conhecera bem o Pachola e a Dengosa, seus jeitos e atitudes, era descobrir qual dos persas era o l\u00edder; mas bastaria assistir a um espet\u00e1culo.<\/p>\n<p>Em hip\u00f3tese alguma, quantas fossem as voltas a serem dadas na pista, nenhum dos cavalos persas se atrevia a ultrapassar o seu l\u00edder.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Todos os dias o pai acordava \u00e0s 4 horas da madrugada, noite fechada, ia direto para o pastinho onde ficavam os cinco burros, e abria a porteira para que eles fossem para perto do pequeno galp\u00e3o; dava uma olhada para ver se estava tudo em ordem, punha comida no cocho, que era um tronco de [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":15,"featured_media":29420,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[4],"tags":[],"class_list":["post-65705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-noticias"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65705"}],"collection":[{"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/users\/15"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=65705"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/65705\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media\/29420"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=65705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=65705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=65705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}