

{"id":63894,"date":"2015-02-25T10:00:49","date_gmt":"2015-02-25T13:00:49","guid":{"rendered":"\/?p=63894"},"modified":"2015-02-25T07:55:26","modified_gmt":"2015-02-25T10:55:26","slug":"cavalos-complicados-3-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/63894\/cavalos-complicados-3-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Cavalos complicados (3), por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Faustina era uma tordilha, nem clara nem escura, pequena, e antissoci\u00e1vel. N\u00e3o gostava de ser incomodada em seu box, s\u00f3 n\u00e3o se importava quando era o seu pr\u00f3prio cavalari\u00e7o. Desde os primeiros trabalhos mostrou muita qualidade e classe. Montada, n\u00e3o criava problemas, mas fora disso era muito desconfiada. \u00c0quela \u00e9poca , eu costumava frequentar a cocheira quase todos os dias, e de box em box eu ia dando a\u00e7\u00facar em cubos .<\/p>\n<p>Todos os animais ficavam com as cabe\u00e7as nas janelas, para pegar os torr\u00f5es na palma das minhas m\u00e3os. Todos, menos a Faustina, que quando eu me aproximava ia para o fundo do box e de l\u00e1 n\u00e3o saia. A forma encontrada para ela pegar o a\u00e7\u00facar era abrir a porta do box, colocar o torr\u00e3o no ch\u00e3o perto da entrada e me afastar. Ela esperava um pouco para ter certeza de que eu n\u00e3o me aproximaria, ia pegar o a\u00e7\u00facar, e voltava para o fundo do box. Eu nunca consegui dar a ela um torr\u00e3o sequer na palma da minha m\u00e3o. Ela costumava dar coices nas paredes, de modo que eu mandava forrar as paredes com um acolchoado coberto por lona. Adiantava pouco, pois ela passava a escoicear sempre no mesmo lugar at\u00e9 rasgar a lona, e depois, com os dentes, rasgava tudo. Era um problema. Outro problema era quando ela corria em pista pesada. Na raia seca ela era a melhor de sua gera\u00e7\u00e3o, mas na pesada, apesar de correr apenas com meia ferradura nos posteriores, mesmo assim batia com um casco no posterior no boleto do outro, e tivemos que improvisar prote\u00e7\u00f5es de couro para impedir ferimentos. Mas ela tinha direito a tudo, pois tomava a ponta na largada e vencia sempre facilmente por boa margem. Mas houve um fato curioso. O Bolino, o seu j\u00f3quei habitual, foi hospitalizado para tratar de pedras nos rins, e com a Faustina inscrita em um grande pr\u00eamio, o Bolino passou a semana toda internado. O Bolino j\u00e1 havia at\u00e9 indicado um substituto, o Jos\u00e9 Portilho, mas na manh\u00e3 da corrida o Bolino livrou-se do problema e disse que estava em condi\u00e7\u00f5es de montar. Eu achei imprud\u00eancia, mas o j\u00f3quei insistiu e eu acabei cedendo, pois o Bolino era digno de toda confian\u00e7a. Pedi a ele para n\u00e3o facilitar, tomar logo a ponta e deixar correr, para n\u00e3o perturbar as habituais f\u00e1ceis vit\u00f3rias. Mas na corrida viu-se tudo diferente. A Faustina ficou em \u00faltimo, com Bolino quieto. S\u00f3 no meio da reta final ela avan\u00e7ou, e de modo fulminante, passando de \u00faltimo para primeiro e ainda vencendo por cerca de dois corpos. Eu fui cobrar do Bolino a imprud\u00eancia, mas ele me disse que, inexplicavelmente, a Faustina n\u00e3o se empregava, e quanto mais ele a exigia, mais ela se negava. O jeito foi ficar quieto e aguardar. A Faustina, naquele dia, correu por conta pr\u00f3pria, correu como e quando quis, e como sempre vencendo. A Faustina era maravilhosa, e no haras foi m\u00e3e cl\u00e1ssica.<\/p>\n<p>O Haras Vale da Boa Esperan\u00e7a, de Julio C\u00e1pua, em Teres\u00f3polis, dominou por cerca de 10 anos a cria\u00e7\u00e3o fluminense, que nos outros dez derradeiros anos foi dominada pelo Haras Santa Maria de Araras. Depois dos 10 primeiros anos, Julio C\u00e1pua morreu, e o seu plantel foi todo leiloado, e o Araras, depois dos segundos dez anos, transferiu-se para o Paran\u00e1 e depois para o Rio Grande do Sul, onde \u00e9 desde muitos anos o inconteste l\u00edder nacional. Como verdadeiro realce da cria\u00e7\u00e3o fluminense, s\u00f3 mais um nome muito importante merece grande destaque, que \u00e9 o de Dai\u00e3o, um filho de Sabinus de cria\u00e7\u00e3o do Haras Serra dos \u00d3rg\u00e3os, que venceu o Grande Pr\u00eamio Brasil. O citado Sabinus, adquirido pelo Araras quando da liquida\u00e7\u00e3o do Vale da Boa Esperan\u00e7a, foi um corredor cl\u00e1ssico, e tamb\u00e9m pai cl\u00e1ssico. Era muito bom corredor, apresentava em um lado da garupa as marcas de um ancinho, nele usado pelo seu cavalari\u00e7o em defesa de uma das muitas agress\u00f5es. Certo ano, Julio C\u00e1pua decidiu enviar Sabinus para correr nos Estados Unidos. Mas o cavalo negou-se a entrar no pallet, e ele n\u00e3o embarcou. Um ano depois , seguindo o conselho do grande treinador argentino radicado nos Estados Unidos, Hor\u00e1cio Luro, aquele que teve o privil\u00e9gio de treinar Northern Dancer, o cavalo embarcou. O pallet teve os quatro lados abaixados, deitados no ch\u00e3o, ficando apenas o piso para o Sabinus subir, o que ele concordou em fazer. Depois os quatro lados do pallet foram levantados e fixados e Sabinus teve que ceder. Ali\u00e1s, Sabinus tinha a quem puxar. O seu pai Hyperio, ainda de mais qualidades do que Sabinus, era de manuseio muito dif\u00edcil. S\u00f3 para citar um dos seus problemas, para levar uma inje\u00e7\u00e3o tinha que ser seguro por um cavalari\u00e7o, enquanto outro montava nele e de cima espetava a agulha e injetava.<\/p>\n<p>Outro complicado foi ir na liquida\u00e7\u00e3o do haras na Venezuela dos animais do pr\u00edncipe Aly Khan, em uma parceria onde o pr\u00edncipe entrava s\u00f3 com as \u00e9guas e um ou dois reprodutores e os produtos seriam todos vendidos em leil\u00e3o no qual o resultado seria dividido. Naquele leil\u00e3o o Jockey Club de S\u00e3o Paulo comprou um lote de cerca de 20 \u00e9guas, todas cheias, e que vieram para o Posto de Monta de Campinas. Nesse leil\u00e3o o Ipiranga comprou uma velha \u00e9gua, Apealing, uma filha de Hyperion. Nasceu em temporada de 1\u00ba semestre um pequeno macho de nome It. Um grave erro foi cometido na cria\u00e7\u00e3o do It. Sem outro nascido na mesma \u00e9poca, It foi criado sozinho, separado dos outros. Havia ainda o inconveniente de ser neto de Hyperion, cavalo chefe de ra\u00e7a mas com um p\u00e9ssimo temperamento. It passava os dias solto em seu piquete, e corria para tentar pegar os passarinhos que eventualmente pisavam em seus dom\u00ednios. Era um solit\u00e1rio carente. \u00a0Muito inteligente, quando via algu\u00e9m se aproximar, encostava na cerca e mordia uma t\u00e1bua, mostrando que a boca estava ocupada e que n\u00e3o havia o perigo dele morder. Queria carinho. Quando foi para o prado, na G\u00e1vea, teve logo que usar antolhos, e acoplada \u00e0 sua boca havia uma grade por fora da cabe\u00e7ada com o freio, uma grade que impedia que ele mordesse n\u00e3o s\u00f3 o cavalari\u00e7o como a perna do j\u00f3quei. Ganhou mais de meia d\u00fazia de corridas comuns, mas se n\u00e3o fosse muito exigido chegava a negar-se a se empregar. Com ele aconteceu um caso curioso. Depois de umas tantas vit\u00f3rias, em um ver\u00e3o, resolveu-se leva-l\u00f3 para nadar.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia piscina naquela \u00e9poca, a nata\u00e7\u00e3o era praticada na Lagoa Rodrigo de Freitas, onde havia um pontilh\u00e3o de madeira por onde os cava lari\u00e7os acompanhavam o exerc\u00edcio segurando na ponta de um cabo. Aconteceu um inusitado logo na primeira vez. Quando se viu dentro d\u2019\u00e1gua, em lugar de come\u00e7ar a nadar como fazem todos os cavalos, que nadam naturalmente, o It virou-se e ficou de barriga para cima. Ele foi salvo pelo cavalari\u00e7o, que em desespero puxava a cabe\u00e7a do It pela ponta do cabo. Foi dif\u00edcil traz\u00ea-lo de volta. O epis\u00f3dio poderia ter-se encerrado a\u00ed, mas o absurdo foi enfrentado no dia seguinte. Com mais cavalari\u00e7os para ajudar, foram retirados o antolhos e a focinheira gradeada e logo empurrado o It para dentro d\u2019\u00e1gua. Para surpresa geral, ele saiu nadando normalmente, sem problemas, e nunca mais criou caso para nadar. O It era muito inteligente, sabia o que fazia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Faustina era uma tordilha, nem clara nem escura, pequena, e antissoci\u00e1vel. N\u00e3o gostava de ser incomodada em seu box, s\u00f3 n\u00e3o se importava quando era o seu pr\u00f3prio cavalari\u00e7o. Desde os primeiros trabalhos mostrou muita qualidade e classe. 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