

{"id":63658,"date":"2015-02-18T10:00:37","date_gmt":"2015-02-18T12:00:37","guid":{"rendered":"\/?p=63658"},"modified":"2015-02-17T20:04:55","modified_gmt":"2015-02-17T22:04:55","slug":"cavalos-complicados-2-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/63658\/cavalos-complicados-2-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Cavalos complicados (2), por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Nassau era um potro muito bonito, grande e forte. Era filho de Guaycur\u00fa, invicto em quatro sa\u00eddas, com o invej\u00e1vel pedigree de Formasterus em filha de Felstead. Nassau era cuidado pelo excelente treinador Expedito Coutinho, e nos trabalhos mostrava muito bom potencial. Mas, nas corridas n\u00e3o confirmava o que sabia para cada p\u00e1reo, o sistema de trabalhos era modificado, sempre muito bem, mas n\u00e3o correspondia na hora do dinheiro. Trabalhos e aprontos semanais fortes ou suaves, ou mesmo sem trabalhos, muita ou pouca movimenta\u00e7\u00e3o, tudo foi tentado, e nada dava resultado. Expedito era muito competente, e n\u00e3o desistia. Nassau foi levado para dar uma volta de galope, na manh\u00e3 de uma corrida em mais uma tentativa. Ele era de bom temperamento, seria apenas mais uma experi\u00eancia. Mas ao entrar na raia, sem motivo maior, o redeador caiu, e Nassau, solto, disparou com tudo e fez uma volta fechada com toda a velocidade. Depois parou e voltou mansamente para as m\u00e3os do seu cavalari\u00e7o. Terminada a manh\u00e3 dos trabalhos, Expedito voltou ao seu grupo de cocheiras, e ia telefonar para o propriet\u00e1rio do ocorrido antes de fazer o forfait. Logo que chegou foi ver o Nassau em seu box. Um empregado disse que tinha encontrado dificuldades para trazer o cavalo de volta, pois ele se mostrara impetuoso, fogoso, alegre e voluntarioso. Expedito telefonou para o propriet\u00e1rio, informou do ocorrido, e disse que ia deixar o cavalo correr \u00e0 tarde, o Nassau mostrava-se exuberante. Foi a primeira de uma s\u00e9rie de seis vit\u00f3rias, sempre galopando largo uma volta nas manh\u00e3s das corridas. Eu mesmo tinha um cavalo considerado bom, mas que n\u00e3o correspondia, n\u00e3o era forte e robusto como Nassau, mas alguma solu\u00e7\u00e3o havia que ser dada. Na manh\u00e3 de um dia de corridas, ele foi levado \u00e0 raia para uma partida forte de 600 metros. Deu muito bom resultado, quando posteriormente eu mandei o Lazio continuar campanha no Cristal, ele J\u00e1 havia vencido cinco p\u00e1reos na G\u00e1vea e\/ou Cidade Jardim. \u00c9 claro que esse sistema de prepara\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode ser generalizado, mas naqueles casos deu certo.<\/p>\n<p>Exchange era um lindo e forte cavalo quase preto, e bom corredor. Mas eu nunca conheci cavalo t\u00e3o pregui\u00e7oso. Ele se mexia o menos que podia, por mais que fosse exigido. Nos trabalhos os seus tempos eram p\u00e9ssimos, nunca baixou de 57 segundos os seus aprontos de 800 metros. Dentro do seu box, em lugar de andar de um cocho para outro, simplesmente girava o seu corpo sobre os posteriores para mudar de dire\u00e7\u00e3o. Em uma manh\u00e3 de s\u00e1bado, o meu saudoso treinador Claudemiro Pereira me telefonou aflito, o Exchange havia quebrado uma perna dentro do box, e o Dr. Adhemar de Faria, um benem\u00e9rito do turfe e que tamb\u00e9m tinha cavalos aos cuidados do Claudemiro, que estava acompanhado por Prot\u00e1sio Pereira, que se dizia formado em Direito, em Medicina e em Veterin\u00e1ria, insistia para que o cavalo fosse de imediato operado em clima de urg\u00eancia, sob pena de o Exchange ter que ser sacrificado. Eu mandei que o cavalo permanecesse dentro do box s\u00f3 com o seu cavalari\u00e7o, e fosse chamado o Dr. Octavio Dupont, que daria a palavra final. Quando eu cheguei \u00e0 cocheira, o Dr. Dupont o estava examinando. Al\u00e9m dos cavalari\u00e7os, l\u00e1 estavam o Dr. Adhemar, o Dr. Prot\u00e1sio, o Claudemiro e o Bolino. O Dr. Dupont pediu a ajuda de um cavalari\u00e7o forte, ajeitou a perna do Exchange, e com uma forte press\u00e3o lateral na perna, aparentemente fraturada na altura do curvilh\u00e3o esquerdo, voltou para o lugar, sem maiores problemas. Para o espanto de todos, o extraordin\u00e1rio veterin\u00e1rio explicou que o movimento de rota\u00e7\u00e3o deslocara a perna de sua natural posi\u00e7\u00e3o, e que, a n\u00e3o ser que houvesse outro fato igual, o problema n\u00e3o deveria mais acontecer, pois a natural movimenta\u00e7\u00e3o da perna era completamente diferente. Algum tempo depois, quando Exchange estava aguardando que o Bolino entrasse com ele no partidor, a perna voltou a sair do lugar. O Bolino, que havia assistido a fa\u00e7anha do Dr. Dupont, conversou com o Starter e com o veterin\u00e1rio, fizeram com o cavalo o mesmo procedimento na hora, a perna voltou para o lugar, o cavalo correu normalmente chegando, se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, em terceiro.<\/p>\n<p>O meu pai foi ao Haras Bela Esperan\u00e7a, do saudoso Jos\u00e9 Paulino Nogueira, para comprar meia d\u00fazia de potros da nova gera\u00e7\u00e3o. Ap\u00f3s escolher cinco, pediu ao criador que lhe indicasse o sexto. O Dr. Paulino n\u00e3o gostava de indicar, os compradores que escolhessem os que gostassem, mas ante a insist\u00eancia do meu pai, ele sugeriu um pretinho de menor presen\u00e7a que era filho de Eboo, cavalo ingl\u00eas de pedigree not\u00e1vel, mas muito genioso, com Etincelante, \u00e9gua argentina de primeira ordem, Morumbi desenvolveu-se. Rapidamente, ficou um lindo dois anos, e desde logo mostrou muita qualidade. Mas era temperamental. Montado pelo Rigoni, Morumbi, j\u00e1 com vit\u00f3rias, foi para o partidor da 1\u00aa prova da tr\u00edplice-coroa carioca, como favorito. Mas negou-se a alinhar, mostrando-se irasc\u00edvel, e nem a maestria do Rigoni conseguiu que ele encara-se o alinhamento. Morumbi fez de tudo, e acabou sendo retirado. Cerca de duas semanas depois, galopando na raia pequena com um redeador, o cavalo repentinamente no meio da reta, ele cravou e o j\u00f3quei caiu, e Morumbi ficou solto. Inacreditavelmente, ele pulou a cerca interna, saiu galopando pelo pi\u00e3o do prado, e atirou-se no lago ainda l\u00e1 existente. Para tira-lo de l\u00e1, foram colocados sacos de serragem dentro da \u00e1gua, para ele poder subir. Morumbi ficou de tal forma dif\u00edcil que foi enviado para S\u00e3o Paulo, aos cuidados do Capit\u00e3o Bela Wodianer. Foi para a Sociedade H\u00edpica Paulista, para as m\u00e3os de um mestre domador. Mais de meio ano depois, ele voltou \u00e0 G\u00e1vea. Voltou melhor, mas n\u00e3o normal. Ganhou ainda o Grande Pr\u00eamio Major Suckow, se n\u00e3o me engano, na raia de areia encharcada debaixo de forte temporal, montado por Ubirajara Cunha. Em S\u00e3o Paulo, outro filho do Eboo, o cl\u00e1ssico Zaluar, tamb\u00e9m era temperamental, n\u00e3o podia correr mais do que 2.000 metros, pois quando ele cruzava a linha de chegadas, simplesmente parava, n\u00e3o seguia de jeito nenhum.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nassau era um potro muito bonito, grande e forte. Era filho de Guaycur\u00fa, invicto em quatro sa\u00eddas, com o invej\u00e1vel pedigree de Formasterus em filha de Felstead. Nassau era cuidado pelo excelente treinador Expedito Coutinho, e nos trabalhos mostrava muito bom potencial. 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