

{"id":55418,"date":"2014-07-17T12:59:15","date_gmt":"2014-07-17T15:59:15","guid":{"rendered":"\/?p=55418"},"modified":"2014-07-17T09:54:33","modified_gmt":"2014-07-17T12:54:33","slug":"recordacoes-inesqueciveis-33-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/55418\/recordacoes-inesqueciveis-33-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis (33), por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Em 1938, ent\u00e3o com 8 anos de idade, assisti o meu primeiro Grande Pr\u00eamio Brasil, que foi vencido em raia muito encharcada pelo argentino P\u00eandulo, um alaz\u00e3o. Grama pesad\u00edssima, tudo molhado, muitos apaixonados, inclusive eu, lotavam o Hip\u00f3dromo da G\u00e1vea. Foi o meu primeiro passo no turfe, no qual permane\u00e7o at\u00e9 hoje. Comecei a frequentar as corridas dentro do poss\u00edvel, pois s\u00f3 podia ir com o meu pai, o que nem sempre acontecia. Entre 1940 e 1945, o meu pai come\u00e7ou a comprar potros e animais em treinamento. O primeiro potro foi Banco, um filho de Denbigh de cria\u00e7\u00e3o do Haras Maranguape e Fiara uma potranca magrela de cria\u00e7\u00e3o do Mondesir, que foram discretos, mas ganhadores.<\/p>\n<p>Entre os animais j\u00e1 em carreira, compras em leil\u00f5es e tamb\u00e9m em fun\u00e7\u00e3o de ofertas. Dileto, do Mondesir, Ponta Grossa (que no Paran\u00e1 correra com o nome de Fio D\u2019\u00c1gua, Palin\u00f3dia, de um velho turfista que em fun\u00e7\u00e3o da idade estava abandonando o turfe, e da\u00ed em diante vieram os tr\u00eas tradicionais importadores de corredores argentinos e uruguaios, os ga\u00fachos At\u00edlio Irulegui (um gentleman, um dos grandes conhecedores da \u00e9poca), Oswaldo Gomes Camisa (sempre de terno branco, gravatinha borboleta e um charuto), e At\u00edlio Loss Tedesco (o menos atuante na G\u00e1vea, \u00e0 \u00e9poca). O meu pai deu-se muito bem com as sucessivas compras de f\u00eameas argentinas, com Matem\u00e1tica (Cartagin\u00e9s e Met\u00e1fora), Sunburnt, Presteza, Consultiva, Vi\u00fava Alegre, Tintilla, Sorbona, Gortiza, a \u00f3tima uruguaia Bakelita e muitas outras. Quando entre 1945 e 1950, o meu pai iniciou a implanta\u00e7\u00e3o do Haras Ipiranga, algumas daquelas importadas j\u00e1 n\u00e3o estavam mais, mas outras chegariam a fazer parte do plantel, refor\u00e7ado por boas corredoras nacionais, e \u00e9guas francesas e italianas. Em janeiro de 1956, tudo isso caiu em minhas m\u00e3os, assim como os garanh\u00f5es italianos Destino, Mandello, Minotauro e Four Hills, os franceses Fairy King e Flamboyant de Fresnay, o irland\u00eas Kameran Khan e o nacional Manguar\u00ed. Durante os primeiros cinco anos, os mais dif\u00edceis, o meu pai teve todos os m\u00e9ritos, e com a morte dele coube a mim administrar e usufruir dos investimentos, orientando-me sempre que poss\u00edvel do melhor homem de cavalos que conheci e trabalhou para a Comiss\u00e3o de Fomento do Jockey Club de S\u00e3o Paulo e para mim, o excepcional cavaleiro h\u00fangaro, her\u00f3i de guerra, o Capit\u00e3o Bela Wodianer. Ao longo dos mais de cinq\u00fcenta anos, coube a mim a maravilhosa incumb\u00eancia de viver intensamente de uma atividade gloriosa, dif\u00edcil e complexa, mas altamente satisfat\u00f3ria. Passar a vida no maravilhoso mundo dos cavalos de corrida, \u00e9 um grande privil\u00e9gio.<\/p>\n<p>Hoje em dia, e j\u00e1 de algum tempo, os criadores enfrentam cada vez mais a concorr\u00eancia das ind\u00fastrias e de outras atividades, que v\u00e3o buscar m\u00e3o de obra nos haras, quase sempre oferecendo sal\u00e1rios e vantagens que a cria\u00e7\u00e3o de cavalos n\u00e3o pode enfrentar. Naturalmente, os melhores homens, os mais capazes v\u00e3o aos poucos deixando a cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 claro que estou me referindo aos haras que cada vez ficam mais pr\u00f3ximos das cidades. S\u00e3o Paulo, por exemplo, \u00e9 a maior v\u00edtima, Paran\u00e1 tamb\u00e9m, mas menos e o Rio Grande do Sul leva a vantagem de serem as suas melhores terras as que mais distam de Porto Alegre. Mas nas d\u00e9cadas de 40, 50, 60, 70, 80 e ainda 90, podia-se criar no Estado de S\u00e3o Paulo com relativa tranquilidade, apesar de que, cada vez mais ao longo do tempo, muitos haras foram sendo assaltados e saqueados como, por exemplo, o Torr\u00e3o de Ouro, o Guay\u00e7ara, o Ipiranga, e v\u00e1rios outros.<\/p>\n<p>Mas antes dessa fase, podia-se contar com gente qualificada e confi\u00e1vel. Os recursos t\u00e9cnicos eram outros, como tamb\u00e9m os conceitos quanto \u00e0 arra\u00e7oamento, manejo, inicia\u00e7\u00e3o em picadeiros, etc. Havia muitos emprestados em que se podia confiar inteiramente. Entre meus muito bons, havia um homem pequeno, casado e com tr\u00eas filhos, que vivia para os cavalos a ele confiados. Tinha um ou dois ajudantes, era ex\u00edmio em exercitar os potros no picadeiro, e soltos e sob apenas os comandos dados com palavras, fazia o que queria dos potros. Ele s\u00f3 sa\u00eda do haras para comprar mantimentos na cidade mais pr\u00f3xima, Jaguari\u00fana, que ficava pela estrada principal menos de 10km, mas Angelino Meneg\u00e3o, o \u201cSeu\u201d Angelin, ia de bicicleta, cortando caminho por pequenas estradas de terra. Ele ia e voltava para o haras, nunca tinha ido a Campinas, cidade grande distante 25km do haras.<\/p>\n<p>O \u201cSeu\u201d Angelin gostava do que fazia, a muito ficava na sala de sua casa, no haras, ouvindo no r\u00e1dio m\u00fasicas caipiras. Eu s\u00f3 notei que ele estava envelhecendo quando cheguei em um fim de tarde no grupo de cocheiras que ele tomava conta. Os potros j\u00e1 tinham sido recolhidos, e notei que um box estava vazio, embora com a ra\u00e7\u00e3o da noite no cocho. Perguntei ao \u201cSeu\u201d Angelin onde estava aquele potro que faltava, havia morrido ou acontecera alguma coisa? Ele simplesmente me disse que n\u00e3o sabia, quando foram buscar os potros no piquete aquele n\u00e3o estava. Pedi a ele que voltasse ao piquete, e procurasse um pouco. N\u00e3o demorou e ele apareceu trazendo o tal potro puxado por uma corda no cabresto. Quando perguntei onde ele achara o potro, ele simplesmente sorriu e disse que encontrara o potro deitado, dormindo e longe dos outros, por isso n\u00e3o viera antes para o seu box. Foi ai que percebi que era necess\u00e1rio colocar um ajudante mais esperto para cuidar daquele humilde e mais do que confi\u00e1vel trabalhador, um homem que amava o que fazia, mas que estava envelhecendo. Que eu sabia a \u00fanica vez que o \u201cSeu\u201d Angelin foi a Campinas foi levado por mim. Eu soubera que um circo estava se apresentando na cidade, e eu resolvi ir a um espet\u00e1culo noturno, e convidei o \u201cSeu\u201d Angelin e mais uns dois ou tr\u00eas empregados. N\u00e3o sei se o espanto maior foi quanto ao tamanho da cidade ou em rela\u00e7\u00e3o ao espet\u00e1culo em si, todas as vezes que eu de prop\u00f3sito tocava naquela noite, os olhos do \u201cSeu\u201d Angelin brilhavam e ele sorria. Quando o \u201cSeu\u201d Angelin parou de trabalhar, com o dinheiro recebido foi morar em uma vila cont\u00edgua a Jaguari\u00fana, mas n\u00e3o demonstrava prazer, sentia falta da quietude do haras, dos seus potros. De vez em quando dava longas caminhadas pela vila e por Jaguari\u00fana, mas n\u00e3o se mostrava satisfeito.<\/p>\n<p>O \u201cSeu\u201d Angelin morreu em 2013, a caminho dos 90 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1938, ent\u00e3o com 8 anos de idade, assisti o meu primeiro Grande Pr\u00eamio Brasil, que foi vencido em raia muito encharcada pelo argentino P\u00eandulo, um alaz\u00e3o. Grama pesad\u00edssima, tudo molhado, muitos apaixonados, inclusive eu, lotavam o Hip\u00f3dromo da G\u00e1vea. 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