

{"id":55081,"date":"2014-07-09T10:00:48","date_gmt":"2014-07-09T13:00:48","guid":{"rendered":"\/?p=55081"},"modified":"2014-07-09T00:47:52","modified_gmt":"2014-07-09T03:47:52","slug":"recordacoes-inesqueciveis-32-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/55081\/recordacoes-inesqueciveis-32-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis 32, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">O meu pai morreu em um acidente automobil\u00edstico em 18 de janeiro de 1956. Quinze dias depois eu j\u00e1 havia negociado com a minha fam\u00edlia, m\u00e3e e dois irm\u00e3os, a total propriedade do acervo turf\u00edstico deixado pelo meu pai, o haras de porteiras fechadas e o stud no Hip\u00f3dromo da G\u00e1vea, naturalmente com a inclus\u00e3o de todos os animais. Al\u00e9m de v\u00e1rios garanh\u00f5es e cerca de quarenta e cinco reprodutoras. Havia os produtos em cria\u00e7\u00e3o, e a cocheira na G\u00e1vea era composta por cerca de trinta e seis corredores. No Hip\u00f3dromo \u201cherdei\u201d, o treinador Claudemiro Pereira, um homem alegre, sempre de bom humor, agrad\u00e1vel, em completo contraste de quando era j\u00f3quei durante os p\u00e1reos. O j\u00f3quei agressivo e muitas vezes maldoso virara um treinador competente e de \u00f3timo g\u00eanio.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os cavalari\u00e7os eram antigos e muito bons, liderados por um ga\u00facho pequeno e de cara ruim, sempre de boina e bombacha, e que era muito trabalhador, mas severo em demasia com os empregados, que comentavam que ele estava sempre armado com um fac\u00e3o dentro da bombacha. Mas tudo era suport\u00e1vel pelos bons tratos e amizade do treinador. O Stud seguiu o seu ritmo de vit\u00f3rias, que foram melhoradas com a entrada nas pistas da potrada da letra \u201cC\u201d. As anteriores n\u00e3o tinham sido ruins, pelo contr\u00e1rio, mas sem um necess\u00e1rio brilho cl\u00e1ssico. Mas na letra \u201cC\u201d vieram em bom n\u00famero filhos do franc\u00eas Flamboyant de Fresnay um Pharis em filha de Asterus, que na letra \u201cB\u201d s\u00f3 havia mandado um ou dois filhos. Foi ent\u00e3o o inicio de uma brilhante caminhada. Ap\u00f3s uns quatro anos, eu vi o segundo gerente desrespeitar o treinador de forma bruta, acintosa. Comecei a estudar as atitudes do segundo gerente, e encontrei v\u00e1rias falhas. Levei ao conhecimento do Claudemiro, e ele nada disse. Um fim de dia de trabalho, eu ainda estava no escrit\u00f3rio no centro da cidade, quando me telefonou o caminhoneiro encarregado dos transportes. O Manuel Portugu\u00eas, um homem da melhor qualidade e confian\u00e7a, com o rosto sempre rosado, disse-me que havia chegado do haras com uma carga de potros, e o segundo gerente impediu que os potros ingressassem na cocheira, pois ele havia encerrado o expediente \u00e0s 17 horas e j\u00e1 seriam 17 horas e 15 minutos. Como o Claudemiro n\u00e3o estava ele pediu-me para resolver o caso, para que os potros n\u00e3o passassem a noite no caminh\u00e3o. Telefonei para a cocheira, atendeu o tal segundo gerente, eu perguntei pelo Claudemiro, ele me informou que estava na casa de uma namorada dele. Pedi o telefone de l\u00e1, ele me deu. Liguei, atendeu uma senhora, pedi para chamar o Claudemiro, que veio ao telefone. Informei o que estava ocorrendo, avisei que iria sair naquele momento para a cocheira, e que os potros j\u00e1 n\u00e3o estivessem todos alojados, eu iria mudar de treinador.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">Quando l\u00e1 cheguei, j\u00e1 estava tudo em ordem. Conversei longamente com o Claudemiro, fiz ver a ele que j\u00e1 havia passado a hora de mandar o segundo gerente embora, eu daria a ele todo o dinheiro necess\u00e1rio para a demiss\u00e3o. Mas duas semanas se passaram e n\u00e3o houve a provid\u00eancia. Num pr\u00f3ximo s\u00e1bado \u00e0 tarde, nas corridas, um turfista que eu n\u00e3o conhecia veio dizer-me que naquela manh\u00e3 todos haviam assistido horrorizados a uma monumental surra de pinguelim dada pelo tal segundo gerente em um potro meu, um preto pequeno, ainda em fase inicial de doma. Larguei as corridas, fui at\u00e9 a cocheira, e vi o potro preto pequeno marcado pela viol\u00eancia da agress\u00e3o. Voltei ao Claudemiro, n\u00e3o solicitando, mas exigindo a demiss\u00e3o. Com o dinheiro \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, dei um m\u00eas para as necess\u00e1rias provid\u00eancias, e at\u00e9 l\u00e1 eu n\u00e3o iria \u00e0 cocheira, s\u00f3 aos s\u00e1bados iria ver todos os meus cavalos nos trabalhos matinais dos s\u00e1bados. Cheguei a me oferecer para falar e demitir o p\u00e9ssimo empregado, mas o Claudemiro disse que ele iria tomar sozinho as provid\u00eancias. Passados os quatro s\u00e1bados nenhuma provid\u00eancia havia sido tomada. Avisei que todos os cavalos iam sair, eu deixaria o grande grupo de cocheiras para ele, como forma de agradecimento pelos amig\u00e1veis e bons servi\u00e7os prestados. \u00c0quela altura, eu n\u00e3o tinha nenhum treinador \u00e0 vista nem cocheiras para os meus quase quarenta corredores. \u00c0 tarde nas corridas, troquei ideias com o meu grande amigo Paulo Dunshee de Abranches. Ele me disse que o treinador Expedito Coutinho, que eu at\u00e9 conhecia por ele ter sido anos antes um dos redeadores que trabalhavam diariamente os cavalos de meu pai, que tinha pouco adiante um grupo de cocheiras com mais de 40 boxes, ele s\u00f3 tinha um cavalo aos seus cuidados, de nome Lucky Prince, e todos os outros ocupantes eram de treinadores diversos. Fomos conversar com o Expedito, expliquei tudo, e caso ele se interessasse pela estadia experimental de um m\u00eas, que providenciasse a sa\u00edda dos ocupantes, limpeza dos boxes, cama, ra\u00e7\u00e3o, tudo o necess\u00e1rio para a chegada dos meus cavalos em uns poucos dias. Tudo deu certo, no mesmo dia acertei eventuais compromissos, tendo pago pessoalmente as contas do serrageiro, ferrador, farm\u00e1cia, e mesmo as contas vincendas de ra\u00e7\u00e3o, enfim, nada ficou para tr\u00e1s. Acertei as contas com o Claudemiro com dinheiro e os recibos pagos. Todos os meus cavalos foram acompanhados por seus cavalari\u00e7os, e eu levei como segundo gerente o cavalari\u00e7o que havia acompanhado a Elizabeth na Argentina, Geraldo Adelino de Assis. O Claudemiro ficou com o tal segundo gerente, e mais uns quatro cavalari\u00e7os e menos de dez animais (naquela \u00e9poca, cada cavalari\u00e7o cuidava de dois animais).<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O meu sucesso com o treinador Expedito Coutinho foi imediato, ele se adaptou muito bem ao Antonio Bolino, e diariamente cada um galopava metade do contingente, e no dia seguinte trocavam. Menos de dois meses depois, Expedito Coutinho e Antonio Bolino ganharam para mim, com o Giuliano, a primeira prova da tr\u00edplice-coroa, \u00e0 \u00e9poca chamada de Grande Pr\u00eamio Outono.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Passados esses muitos anos, pensando muito na ent\u00e3o incompreens\u00edvel atitude do Claudemiro, que era uma \u00f3tima pessoa e amigo, cheguei \u00e0 conclus\u00e3o de que ele tinha muito medo do tal segundo gerente, que talvez at\u00e9 o tivesse amea\u00e7ado de morte com o fac\u00e3o que sempre estava na cintura por dentro da bombacha, segundo diziam os cavalari\u00e7os. Eu n\u00e3o sei, mas \u00e9 uma hip\u00f3tese.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O meu pai morreu em um acidente automobil\u00edstico em 18 de janeiro de 1956. 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