

{"id":53297,"date":"2014-05-29T04:18:23","date_gmt":"2014-05-29T07:18:23","guid":{"rendered":"\/?p=53297"},"modified":"2014-05-31T13:22:11","modified_gmt":"2014-05-31T16:22:11","slug":"sobre-joqueis-percursos-e-fadiga-aguda-por-sergio-barcellos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/especial\/53297\/sobre-joqueis-percursos-e-fadiga-aguda-por-sergio-barcellos\/","title":{"rendered":"Sobre j\u00f3queis, percursos e fadiga aguda, por S\u00e9rgio Barcellos"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\"><b>SOBRE J\u00d3QUEIS, PERCURSOS E FADIGA AGUDA<\/b><\/p>\n<p><em><strong>Sergio Barcellos\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0<\/strong> <\/em><\/p>\n<p><a href=\"\/?attachment_id=53299\" rel=\"attachment wp-att-53299\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-53299\" alt=\"Bal A Bali post29\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2014\/05\/Bal-A-Bali-post29.jpg\" width=\"490\" height=\"333\" \/><\/a>Um cavalo de corrida bem treinado consegue alcan\u00e7ar velocidades em torno de 18 metros por segundo e usa suas reservas <b>naturais<\/b> de energia para percorrer os primeiros <b>400 metros<\/b> de qualquer percurso. At\u00e9 a\u00ed, nada de novo.<\/p>\n<p>A partir dos 400 metros, por\u00e9m, os pulm\u00f5es aumentam progressivamente a transfer\u00eancia de oxig\u00eanio para o sangue de forma a dissipar o \u00e1cido l\u00e1ctico acumulado nas fibras musculares, e a temperatura corporal sobe (\u201cenergia gera calor\u201d).<\/p>\n<p>\u00c9 o chamado processo aer\u00f3bico, t\u00e3o mais efetivo quanto seja o desenvolvimento da capacidade pulmonar do indiv\u00edduo e a perfei\u00e7\u00e3o de seu aparelho card\u00edaco. Nesse instante, com o cora\u00e7\u00e3o batendo mais de 130 vezes por minuto, dois magn\u00edficos foles bombeando oxig\u00eanio, e o sistema capilar ajudando a dissipar calor, o cavalo de corrida se transforma na <b>melhor m\u00e1quina aer\u00f3bica do mundo animal. <\/b>Uma beleza.<\/p>\n<p>Tudo, entretanto, se complica quando a quantidade de \u00a0oxig\u00eanio n\u00e3o \u00e9 mais capaz de lidar com o crescente derrame de \u00e1cido e o sistema amea\u00e7a entrar em colapso. Geralmente, \u00e9 o que ocorre nos metros finais de uma disputa.<\/p>\n<p>Para aumentar a velocidade do esfor\u00e7o final (leia-se,\u00a0 percorrer os \u00faltimos 200 metros em torno de 12\u201d), e \u201cchegar correndo\u201d, um cavalo superiormente treinado lan\u00e7a m\u00e3o de suas reservas de <b>glicog\u00eanio<\/b> \u2013 fato que equivale a mudar o processo, de aer\u00f3bico para anaer\u00f3bico<i> <\/i>(etimologicamente, <i>sem<\/i> oxig\u00eanio). Se ele n\u00e3o \u00e9 capaz de realizar a troca, em outras palavras, se n\u00e3o existe estoque adequado de glicog\u00eanio, a conseq\u00fc\u00eancia \u00e9 ter que escolher entre diminuir o ritmo, ou entrar em fadiga aguda com os riscos da\u00ed decorrentes, dos quais o pior \u00e9 a s\u00edncope card\u00edaca (cora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 m\u00fasculo).<\/p>\n<p>Em termos gerais, \u00e9 assim que funciona a <b>\u201cpartitura da<\/b> <b>fadiga\u201d<\/b> no puro sangue: 400 metros iniciais usando reservas naturais de energia \u2013 derrame progressivo de \u00e1cido l\u00e1ctico \u2013 aerobismo \u2013 amplia\u00e7\u00e3o do derrame \u2013 fase anaer\u00f3bica, via glicog\u00eanio. Federico Tesio tinha um outro nome para essa seq\u00fc\u00eancia: chamava-a de \u201c<i>Lei do Cansa\u00e7o Progressivo<\/i>\u201d (vide \u201cIl Purosangue, Animale da Esperimento\u201d, Editora Hoepli, Mil\u00e3o, 1978).<\/p>\n<p>Do ponto de vista te\u00f3rico, o treinamento ideal de um cavalo \u00e9 o que consegue fazer com que ele atinja o \u00e1pice da forma f\u00edsica no <b>instante da prova<\/b>, sem que disso resulte uma baixa anormal de seu estoque de glicog\u00eanio, primeira conseq\u00fc\u00eancia da intensidade dos exerc\u00edcios de raia, trabalhos e \u201caprontos\u201d preparat\u00f3rios.<\/p>\n<p>Para quem se interessa pelo assunto, glicog\u00eanio (acumulado basicamente no f\u00edgado) \u00e9 a mol\u00e9cula respons\u00e1vel pelas <b>fontes secund\u00e1rias<\/b> de energia, que pode rapidamente ser mobilizada pelas fibras musculares para complementar os eventuais <b>d\u00e9bitos de glicose<\/b> resultantes de situa\u00e7\u00f5es extremas. E \u201csitua\u00e7\u00f5es extremas\u201d, \u00e9 o que invariavelmente ocorre nos momentos finais de um p\u00e1reo, principalmente em percursos acima dos 2.000 metros.<\/p>\n<p>Assim, animais que entram em corrida com baixo estoque de glicog\u00eanio, raramente \u201cchegam correndo\u201d, j\u00e1 que dependem exclusivamente de seu sistema aer\u00f3bico para produzir o melhor de que s\u00e3o capazes. Para esses, a fadiga aguda \u2013 cujo primeiro aviso \u00e9 a apn\u00e9ia, e cujo reflexo vis\u00edvel \u00e9 levantar a cabe\u00e7a na busca desesperada por ar \u2013 sempre acontece antes do disco.<\/p>\n<p>Estas considera\u00e7\u00f5es preliminares ajudam a explicar \u00a0o porqu\u00ea da exist\u00eancia de uma correla\u00e7\u00e3o direta entre a velocidade m\u00e9dia de cada percurso e a melhor forma de abord\u00e1-lo. Melhor ainda, indicam que quanto maior \u00e9 a capacidade do j\u00f3quei em perceber o ritmo da disputa (ou \u201ctrem de corrida\u201d, no jarg\u00e3o do turfe), menor \u00e9 o perigo de sobrecarregar o sistema aer\u00f3bico do animal, e, no caso, antecipar seu colapso.<\/p>\n<p>H\u00e1 formas de preservar e manter estoques razo\u00e1veis de glicog\u00eanio ao longo do processo de treinamento. Mas isso \u00e9 assunto para outro momento e outra ocasi\u00e3o.<\/p>\n<p>O que importa saber para efeito desses coment\u00e1rios, \u00e9 que centenas e centenas de corridas s\u00e3o perdidas todas as semanas nos hip\u00f3dromo do mundo pelo desrespeito (ou desconhecimento) dessa que \u00e9 uma regra b\u00e1sica da equita\u00e7\u00e3o em alta velocidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>Percursos e j\u00f3queis<\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 John Hislop, criador do not\u00e1vel Brigadier Gerard, dos maiores milheiros da hist\u00f3ria do turfe ingl\u00eas, foi um excelente j\u00f3quei amador em seu tempo e escreveu um livro sobre a arte de conduzir cavalos de corrida que ainda hoje \u00e9 considerada a b\u00edblia dessa profiss\u00e3o (vide \u201cFrom Start to Finish\u201d, J.A.Allen, Londres, 1958).<\/p>\n<p>Em seu cap\u00edtulo X, p\u00e1g. 101, diz Hislop:<\/p>\n<p><a href=\"\/?attachment_id=53300\" rel=\"attachment wp-att-53300\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignright size-full wp-image-53300\" alt=\"Aerosolpost29\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2014\/05\/Aerosolpost29.jpg\" width=\"490\" height=\"431\" \/><\/a>\u201c<i>Em qualquer p\u00e1reo, o fator mais importante \u00e9 o ritmo em que ele \u00e9 disputado. Se algu\u00e9m quer se transformar num grande j\u00f3quei, tem, antes disso, que revelar-se um bom <b>\u2018juiz de ritmo\u2019<\/b> e avaliar corretamente se o p\u00e1reo est\u00e1 sendo corrido r\u00e1pido demais, lento demais, ou no ritmo adequado para a capacidade do cavalo que dirige, o estado da pista e a categoria e caracter\u00edsticas de seus oponentes.<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Prossegue Hislop:<\/p>\n<p>\u201c<i>Quando o j\u00f3quei \u00e9 um bom \u2018juiz de ritmo\u2019, ele sabe exatamente qu\u00e3o r\u00e1pido deve ir quando o mandam correr na frente e onde deve estar quando o mandam correr vindo de tr\u00e1s. E n\u00e3o importa o que os outros j\u00f3queis est\u00e3o fazendo durante o percurso. Aqueles que conseguem avaliar corretamente o ritmo da carreira, s\u00e3o os verdadeiros senhores da capacidade locomotora de seus conduzidos e, em alguns casos, fazem-nos superar seus pr\u00f3prios limites<b>. Julgamento de ritmo \u00e9, basicamente, uma quest\u00e3o de experi\u00eancia na profiss\u00e3o<\/b>, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma quest\u00e3o de prestar aten\u00e7\u00e3o e de raciocinar, sobre o que se est\u00e1 pedindo ao animal, seja em corrida, seja em trabalho.<\/i>\u201d<\/p>\n<p>E conclui:<\/p>\n<p>\u201c<i>V\u00e1rias e v\u00e1rias vezes, um j\u00f3quei receber\u00e1 do treinador a seguinte instru\u00e7\u00e3o: \u2018Se n\u00e3o houver trem de corrida, corra entre os da frente. Se largarem correndo, apenas acompanhe.\u2019 Quando o j\u00f3quei n\u00e3o tem uma boa no\u00e7\u00e3o de ritmo, instru\u00e7\u00f5es como essa n\u00e3o servem para <b>absolutamente nada<\/b>. O que um j\u00f3quei profissional tem que fazer, \u00e9 desenvolver seu senso de \u2018ler\u2019 os ritmos da prova como se l\u00ea uma partitura de m\u00fasica. Depois de algum tempo, isso se torna instintivo, mas at\u00e9 l\u00e1 \u00e9 preciso trabalhar muito bem essa no\u00e7\u00e3o, at\u00e9 domin\u00e1-la completamente. Alguns conseguem. Outros n\u00e3o. Esta \u00e9 a diferen\u00e7a fundamental entre simplesmente montar e pilotar um cavalo.\u201d<br \/>\n<\/i><\/p>\n<p>Os grandes j\u00f3queis do mundo do turfe, em qualquer \u00e9poca, exibem a caracter\u00edstica comum de serem bons \u201cju\u00edzes de ritmo\u201d, e alguns deles parecem mesmo ter um sensor implantado no c\u00e9rebro. Isso independe de sua estatura, do peso f\u00edsico com que montam, da forma de estribar, e do maior ou menor vigor de sua tocada. Todas as lendas desse dif\u00edcil esporte, conseguem perceber mais rapidamente que seus colegas de of\u00edcio quando \u00e9 para estar na frente, e quando \u00e9 para ficar, baixar as m\u00e3os, deixar galopar, e esperar.<\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, desenvolveram a capacidade de conjugar essa virtude com a forma como abordam as variadas dist\u00e2ncias da programa\u00e7\u00e3o e os segredos das pistas onde atuam. Por isso mesmo, \u00e9 que se trata de lendas do esporte e n\u00e3o simplesmente de profissionais das r\u00e9deas.<\/p>\n<p>J\u00f3queis assim, t\u00eam sempre presente os tr\u00eas atributos fundamentais de sua profiss\u00e3o, mencionados por Tesio (sempre ele):<\/p>\n<p><a href=\"\/?attachment_id=53301\" rel=\"attachment wp-att-53301\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-53301\" alt=\"Plenty Of Kickspost29\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2014\/05\/Plenty-Of-Kickspost29.jpg\" width=\"480\" height=\"451\" \/><\/a>\u201c<i>Um grande j\u00f3quei \u00e9 sempre um artista. N\u00e3o se inventa um grande j\u00f3quei, <b>nasce-se grande j\u00f3quei<\/b>. Da mesma forma que n\u00e3o se inventa um poeta, nasce-se poeta. <b>\u00c9 um dom<\/b>, n\u00e3o um aprendizado. E esse dom, significa ter vindo a este mundo dotado de: (1) grande equil\u00edbrio; (2) grande capacidade de julgamento sobre \u2018l\u2019andatura\u2019; e (3) grande rapidez de racioc\u00ednio.\u201d<\/i><\/p>\n<p>Isso tudo nos remete a uma melhor defini\u00e7\u00e3o do que seja para um puro sangue e seu j\u00f3quei ter que atuar sobre percursos que podem variar dos 1.000 aos 4.000 metros em diversos hip\u00f3dromos e pistas, onde os \u00e2ngulos de tomada das curvas n\u00e3o s\u00e3o necessariamente iguais, as retas variam de comprimento, e a textura do solo \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Talvez a melhor e mais completa classifica\u00e7\u00e3o dos percursos dispon\u00edveis no turfe moderno \u2013 que vincula diretamente a capacidade dos animais para percorr\u00ea-los e serve, inclusive, para distinguir os chamados \u201cperfis funcionais\u201d do moderno cavalo de corrida \u2013 seja o da sigla \u201c<b>SMILE<\/b>\u201d, formada pelas iniciais das palavras inglesas <b>S<\/b>print \u2013 <b>M<\/b>ile \u2013 <b>I<\/b>ntermediate \u2013 <b>L<\/b>ong \u2013 <b>E<\/b>xtended, referidas, respectivamente, \u00e0s dist\u00e2ncias de velocidade pura; \u00e0 milha; aos percursos intermedi\u00e1rios; aos longos; e estendidos.<\/p>\n<p>Parece interessante percorrer os conceitos da mencionada classifica\u00e7\u00e3o e aproveitar a ocasi\u00e3o para introduzir alguns coment\u00e1rios a respeito de ritmo e capacidade de julgamento. Como se segue.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>A classifica\u00e7\u00e3o \u201cSMILE\u201d<br \/>\n<\/b><\/p>\n<p><b>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/b>De forma bastante resumida, as dist\u00e2ncias referidas na classifica\u00e7\u00e3o em exame \u2013 bem assim, os tipos de competidores que as integram s\u00e3o os seguintes:<\/p>\n<p>\u201c<b>Sprint<\/b>\u201d \u2013 Significam os percursos de <b>1.000 a<\/b><b> 1.400 metros. Para corr\u00ea-los com sucesso, os animais t\u00eam, antes de tudo, que possuir um percentual significativo de fibras musculares de contra\u00e7\u00e3o r\u00e1pida. N\u00e3o \u00e9 muito dif\u00edcil distinguir um cavalo desse tipo: basta aproximar-se da cerca do paddock em um p\u00e1reo de 1.000 metros e observar a inconfund\u00edvel adequa\u00e7\u00e3o entre modelo f\u00edsico e fun\u00e7\u00e3o. Ademais, existem linhas masculinas no <i>thoroughbred<\/i> que se notabilizam, claramente, pela transmiss\u00e3o de velocidade pura. Conhec\u00ea-las \u00e9 importante.<\/b><\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/qCCCMO94Bk8\" height=\"350\" width=\"425\" frameborder=\"0\" align=\"right\"><\/iframe>\u00a0\u00a0\u00a0 A melhor observa\u00e7\u00e3o que se pode fazer sobre tais provas, \u00e9 que, tamb\u00e9m nelas, ao contr\u00e1rio do que possa parecer, \u00e9 poss\u00edvel correr <b>sem desespero<\/b>, querendo a ponta a qualquer pre\u00e7o, como se disso dependesse vida e morte. Quem teve o privil\u00e9gio de ver Juvenal Machado da Silva no dorso de Mensageiro Alado e Lester Piggot pilotando Moorestyle (melhor sprinter de seu tempo e \u201cCavalo do Ano\u201d na Europa), sabe que n\u00e3o precisa ser assim.<\/p>\n<p>Usar a explosiva velocidade natural de um sprinter para acompanhar e esperar o momento certo de \u201cfazer correr\u201d, ainda parece a forma mais racional e equilibrada de abordar dist\u00e2ncias curtas. Somente assim \u00e9 que se consegue manter est\u00e1vel o equil\u00edbrio do animal e, o mais importante, n\u00e3o perturbar o ritmo <b>necessariamente vertiginoso<\/b> de suas diagonais.<\/p>\n<p><b>\u201cMilha\u201d<\/b> \u2013 Correr bem a milha, exige absoluta uniformidade de ritmo e capacidade de manter velocidades m\u00e9dias em torno dos 18 metros por segundo (na grama). O castanho Phalaris, cria\u00e7\u00e3o de Lord Derby, considerado o grande divisor de \u00e1guas entre o cavalo do passado e o do s\u00e9culo XX \u2013 e que est\u00e1 na origem de mais de <b>60%<\/b> dos ganhadores de Grupo de nossos dias \u2013 era um \u00f3timo milheiro.<\/p>\n<p>Para os europeus, correr a milha significa correr duas vezes 800 metros. Nada mais que isso. <b>Na verdade, este \u00e9 o <i>\u00fanico<\/i> percurso que pode ser dividido mentalmente pelo j\u00f3quei em dois segmentos iguais<\/b>. Se ao longo dos primeiros 800 metros for permitido ao animal encontrar seu ritmo e respirar, suas chances de chegar correndo aumentam consideravelmente. Se lhe exigem, entretanto, largar e liderar a qualquer pre\u00e7o, a milha tender\u00e1 sempre a exauri-lo antes do tempo. Nesse caso, n\u00e3o h\u00e1 treinador ou estoque de glicog\u00eanio que d\u00ea jeito.<\/p>\n<p>J\u00f3quei que incentiva seu conduzido a percorrer a primeira metade de uma milha em menos de 46\u201d, se obriga, de sa\u00edda, a igualar ou bater recorde no disco. Mas h\u00e1 sempre quem tente isso&#8230;<\/p>\n<p>Sob qualquer aspecto que se examine, os 1.600 metros constituem um dos mais <b>severos testes<\/b> da qualidade de um cavalo de corrida, porque exigem, n\u00e3o s\u00f3 velocidade, mas a capacidade de <b>prolong\u00e1-la no tempo<\/b>. Ao longo da hist\u00f3ria da ra\u00e7a, os exemplos de bons milheiros que se tornaram grandes reprodutores contam-se \u00e0s dezenas.<\/p>\n<p><b>\u201cIntermedi\u00e1rias\u201d <\/b>\u2013 S\u00e3o aquelas dist\u00e2ncias que v\u00e3o <b>da milha aos 2.400 metros.<\/b> A rigor, atendem basicamente \u00e0 necessidade de se avaliar os ganhadores das duas primeiras provas da tr\u00edplice-coroa americana, o Kentucky Derby, em 2.000 metros, e o Preakness Stakes, em 1.900.<\/p>\n<p>Deve ser mencionado, entretanto, que os 400 metros adicionais que separam a milha dos 2.000 metros do Kentucky Derby, ou os 500 metros que a distanciam do novo percurso do Prix du Jockey Club, o Derby da Fran\u00e7a (hoje em 2.100 metros), representam uma significativa diferen\u00e7a. N\u00e3o \u00e9 uma verdade absoluta, pois, que milheiros por excel\u00eancia corram os 2.000 ou 2.100 metros \u2013 com a mesma efici\u00eancia, a mesma desenvoltura, e o mesmo brilho \u2013 com que abordam sua dist\u00e2ncia original.<\/p>\n<p>O ritmo invariavelmente infernal de um milheiro de elite, impede que suas aptid\u00f5es, seu perfil funcional e suas caracter\u00edsticas individuais sejam confundidos com os dos cavalos de dist\u00e2ncias intermedi\u00e1rias, embora alguns chamem a estes \u00faltimos de \u201cmilheiros alongados.\u201d Nada contra a denomina\u00e7\u00e3o. <b>Mas milheiro \u00e9 milheiro, intermedi\u00e1rio \u00e9 intermedi\u00e1rio.<\/b><\/p>\n<p><b><a href=\"\/?attachment_id=53298\" rel=\"attachment wp-att-53298\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignleft size-full wp-image-53298\" alt=\"Affirmedpost\" src=\"http:\/\/www.jcb.com.br\/imagens\/2014\/05\/Affirmedpost.jpg\" width=\"480\" height=\"360\" \/><\/a>\u201cLonga\u201d<\/b> \u2013 Corresponde \u00e0 dist\u00e2ncia cl\u00e1ssica dos 2.400 metros. E \u201ccl\u00e1ssica\u201d, no sentido da excel\u00eancia, porque \u00e9 ela que consagra a elite da ra\u00e7a.<\/p>\n<p>Correr a milha e meia de um Grupo I, exige <b>tudo<\/b> de um vencedor desse tipo de prova: tend\u00f5es de a\u00e7o para anular a for\u00e7a centr\u00edfuga das quatro curvas do percurso e se manter o mais pr\u00f3ximo poss\u00edvel da cerca; uma trama perfeita de poros e vasos capilares que libere o calor gerado pela progress\u00e3o do esfor\u00e7o; excepcional qualidade dos aparelhos card\u00edaco e respirat\u00f3rio; e a capacidade de recorrer a reservas anaer\u00f3bicas quando a quantidade de oxig\u00eanio \u00e9 insuficiente.<\/p>\n<p>Sem uma heran\u00e7a gen\u00e9tica apropriada, leia-se, sem \u201cter a dist\u00e2ncia\u201d, raramente um cavalo ganha uma prova de Grupo em 2.400 metros. E o que \u00e9 pior, \u00e9 nelas que o animal tende mais a quebrar \u2013 n\u00e3o s\u00f3 fisicamente, mas de esp\u00edrito \u2013, caso n\u00e3o esteja bem treinado para esse tipo de desafio. Simplesmente porque, morfol\u00f3gica e funcionalmente, os eq\u00fcinos <b>n\u00e3o foram feitos<\/b> para manter esfor\u00e7o de tal ordem, durante tanto tempo.<\/p>\n<p>Quanto aos j\u00f3queis, tamb\u00e9m eles s\u00e3o testados em todas suas habilidades nos confrontos da milha e meia. E quando s\u00e3o aprovados com regularidade, nesta que \u00e9 uma esp\u00e9cie de avalia\u00e7\u00e3o definitiva de suas virtudes profissionais, sobem imediatamente de patamar no conceito do p\u00fablico e da cr\u00f4nica.<\/p>\n<p>Na verdade, a escolha do j\u00f3quei certo para disputar uma prova de Grupo na chamada \u201cdist\u00e2ncia cl\u00e1ssica\u201d significa meio caminho andado para o sucesso. <b>O animal pode at\u00e9 n\u00e3o ser especialmente brilhante, mas seu j\u00f3quei tem obriga\u00e7\u00e3o de ser.<\/b> E se n\u00e3o for, dificilmente ganha.<\/p>\n<p>\u201c<b>Estendida\u201d <\/b>\u2013 Este \u00e9 o terreno dos grandes \u201cgalopadores profissionais\u201d (no dizer de Francesco Varola), capazes de carregar peso em percursos acima dos 2.400 metros, dotados de cora\u00e7\u00e3o e pulm\u00f5es perfeitos.<\/p>\n<p>O modelo f\u00edsico padr\u00e3o do cavalo das dist\u00e2ncias \u201cestendidas\u201d (que podem chegar aos 4.000 metros, como a Ascot Gold Cup \u2013 e de que os magn\u00edficos Yeats e Sagaro s\u00e3o paradigmas), geralmente tem o ventre longe do ch\u00e3o, dorsos mais curtos, um \u00f3timo conjunto de m\u00fasculos da cernelha (capaz de sustentar o peso e os movimentos do pesco\u00e7o), quartelas mais longas (que permitem suavidade e fluidez na a\u00e7\u00e3o) e paletas mais desenvolvidas que a anca.<\/p>\n<p>Na amplid\u00e3o desses percursos, \u00e9 essencial ao j\u00f3quei dispor de um bom <b>preparo f\u00edsico<\/b> para sustentar-se sobre o dorso do animal sem ceder \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de apoiar-se nas r\u00e9deas, al\u00e9m de ser dotado de um excelente julgamento de ritmo. Em uma prova cl\u00e1ssica de 3.000 metros, por exemplo, \u00e9 certo que os j\u00f3queis chegar\u00e3o ao seu final <b>quase t\u00e3o exaustos<\/b> quanto os animais que conduzem.<\/p>\n<p>Eis a\u00ed, em resumo, as dist\u00e2ncias da classifica\u00e7\u00e3o \u201cSMILE\u201d, e as caracter\u00edsticas exigidas dos j\u00f3queis e animais que as disputam.<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><b>Alguns v\u00edcios e equ\u00edvocos<\/b><\/p>\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Observar o que vem ocorrendo em nossas pistas em mat\u00e9ria de equita\u00e7\u00e3o, parece interessante. At\u00e9 mesmo para destacar alguns v\u00edcios e equ\u00edvocos de dire\u00e7\u00e3o que est\u00e3o na base da maioria das derrotas (e que, a rigor, poderiam perfeitamente ser evitados). Principalmente, no que se refere \u00e0 conduta em corrida dos aprendizes, bem assim, de alguns j\u00f3queis j\u00e1 \u201cbrevetados\u201d, embora ainda jovens demais e, portanto, carentes de experi\u00eancia sobre a extrema complexidade de seu of\u00edcio.<\/p>\n<p>Pelo menos, tr\u00eas erros b\u00e1sicos podem ser percebidos em alguns dos nossos j\u00f3queis: <b>(a)<\/b> a confian\u00e7a excessiva no uso do chicote; <b>(b)<\/b> o imaginar que corridas s\u00e3o sempre ganhas por quem larga na frente; e <b>(c)<\/b> a nova moda \u2013 que n\u00e3o se sabe exatamente de onde prov\u00e9m \u2013, de abrir e balan\u00e7ar as r\u00e9deas, supondo que isso colabore para melhorar a performance do animal.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/Gj_lrQsnfvk\" height=\"350\" width=\"425\" frameborder=\"0\" align=\"right\"><\/iframe>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <b>.<\/b> No primeiro caso, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 definitiva: <b>chicote n\u00e3o ganha corrida<\/b>. Ao contr\u00e1rio, pode fazer perd\u00ea-la, na maioria dos casos. Cavalos espancados tendem instintivamente a se defender e diminuir a passada, ao inv\u00e9s de along\u00e1-la. Al\u00e9m do que, j\u00f3quei que bate muito, invariavelmente se <b>desequilibra<\/b> ao bater; bate fora do ritmo da passada do cavalo; ou bate invariavelmente nos locais errados como a barriga e o \u201cvazio.\u201d <b>Um desastre.<\/b><\/p>\n<p>Para estes profissionais, n\u00e3o restaria outra solu\u00e7\u00e3o, sen\u00e3o voltar \u00e0 escola de aprendizes e serem reciclados sobre os equ\u00edvocos que cometem, principalmente em finais mais disputados, onde a <b>manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio<\/b> \u2013 deles e do animal \u2013 \u00e9 condi\u00e7\u00e3o essencial \u00e0 vit\u00f3ria.<\/p>\n<p>Nos turfes desenvolvidos, o uso do chicote, bem assim, a padroniza\u00e7\u00e3o desse equipamento, \u00e9 assunto j\u00e1 resolvido, h\u00e1 anos, pelas Comiss\u00f5es de Corrida locais. Nesses turfes, como o da Inglaterra, por exemplo, j\u00f3queis que notoriamente espancam seus cavalos montam menos: ou porque est\u00e3o seguidamente suspensos, ou porque a confian\u00e7a de treinadores e propriet\u00e1rios em seus servi\u00e7os \u00e9 duvidosa. Quest\u00e3o de conceito \u2013 e de respeito pelo animal, pelo esporte e o dinheiro dos apostadores.<\/p>\n<p>Talvez a melhor explica\u00e7\u00e3o sobre o tema venha de Hislop:<\/p>\n<p>\u201c<i>A raz\u00e3o<\/i> <i>pela qual determinados j\u00f3queis n\u00e3o conseguem dirigir um cavalo sem deixar de bater nele, nada tem a ver com o animal e as circunst\u00e2ncias da corrida, e sim porque lhes <b>falta condi\u00e7\u00e3o<\/b> <b>f\u00edsica e vigor necess\u00e1rios<\/b> para tocar e empurrar durante os 400 metros finais \u2013 ou, \u00e0 vezes, mais que isso. Ent\u00e3o, eles param de tocar e \u2018descansam\u2019 espancando o animal.\u201d<\/i> Uma bela an\u00e1lise.<\/p>\n<p><b>.<\/b> No segundo caso, qualquer profissional do turfe sabe (ou devia saber) que a melhor forma de galopar um cavalo \u2013 com o menor disp\u00eandio poss\u00edvel de energia \u2013, \u00e9 permitir que ele encontre seu pr\u00f3prio ritmo depois que as portas do partidor s\u00e3o abertas. E quanto mais cedo, melhor. S\u00f3 assim, \u00e9 poss\u00edvel faz\u00ea-lo chegar \u00e0 a\u00e7\u00e3o is\u00f3crona (do grego, <i>tempos iguais<\/i>) que suaviza o deslocamento e cadencia a respira\u00e7\u00e3o. Afinal, n\u00e3o \u00e9 de outra coisa que as corridas de cavalo tratam, desde que o turfe foi inventando: fazer com que todos os competidores estejam no ritmo certo e respirando corretamente.<\/p>\n<p>Entretanto, nada disso \u00e9 poss\u00edvel diante do caos imposto a certas largadas em nossos hip\u00f3dromos, principalmente aquelas situadas entre os 1.000 metros e a milha, onde o que se v\u00ea n\u00e3o \u00e9 exatamente uma corrida, mas um <b>exerc\u00edcio de ansiedade<\/b> em sua forma mais disparatada.<\/p>\n<p>Da\u00ed, as abruptas trocas de linha, j\u00f3queis \u201cdando inten\u00e7\u00e3o\u201d e batendo nos animais para apress\u00e1-los, cortando a trajet\u00f3ria daqueles que correm ao lado, provocando esbarros de toda a sorte, como se o p\u00e1reo fosse decidido nos pr\u00f3ximos metros. Onde aprenderam isso, n\u00e3o se sabe.<\/p>\n<p>O que se sabe, \u00e9 que nem nas \u201cvaquejadas\u201d do nordeste, onde os dois cavaleiros s\u00e3o obrigados a conservar sua linha, acontece algo minimamente parecido. A prop\u00f3sito, s\u00f3 quem pode mudar de linha numa \u201cvaquejada\u201d \u00e9 o bezerro, n\u00e3o os vaqueiros&#8230;<\/p>\n<p>Assim, esperar que cavalos dirigidos desta forma alucinada (e especialmente perigosa quando se trata de potros inexperientes), consigam se equilibrar, encontrar o ritmo de suas diagonais, respirar corretamente, e chegar correndo, \u00e9 de um otimismo delirante.<\/p>\n<p>Mas \u00e9 esta a realidade que temos. Talvez seja o caso de, independente da dist\u00e2ncia, se proibir mudan\u00e7as de linha nos metros iniciais da disputa. Como ocorria no quadri\u00eanio 1992-1996, certamente uma \u00e9poca de ouro do turfe do Rio de Janeiro. Ou \u00e9 isso, ou vamos continuar assistindo a pr\u00e1ticas que nada t\u00eam a ver com um turfe desenvolvido e organizado. E principalmente, civilizado.<\/p>\n<p><b>.<\/b><b> <\/b>O terceiro caso \u00e9 emblem\u00e1tico dos desvios conceituais em mat\u00e9ria de condu\u00e7\u00e3o de cavalos de corrida: algu\u00e9m inventou da noite para o dia uma forma <i>sui generis<\/i> de dirigir os animais na reta de chegada, abrindo e balan\u00e7ando as r\u00e9deas ao lado de sua cabe\u00e7a. Para surpresa geral, encontrou seguidores do m\u00e9todo. N\u00e3o deixa de ser divertido ver alguns j\u00f3queis pretendendo incentivar seus conduzidos a partir da nova e revolucion\u00e1ria t\u00e9cnica. O resultado disso, entretanto, \u00e9 um s\u00f3: contrariar tudo que se conhece, ou j\u00e1 foi escrito, sobre equita\u00e7\u00e3o em alta velocidade.<\/p>\n<p>Voltamos a Hislop:<\/p>\n<p>\u201c<i>\u00c9 fundamental manter sempre o <b>contato com a boca do animal<\/b>, principalmente em finais mais dif\u00edceis. S\u00f3 se consegue isso, <b>ajustando as r\u00e9deas<\/b> e <b>levantando os punhos<\/b> ao acompanhar os movimentos do pesco\u00e7o do cavalo. Esta tamb\u00e9m \u00e9 a <b>\u00fanica forma<\/b> de corrigir repentinas mudan\u00e7as de linha do conduzido, que poderiam resultar em derrota ou eventual desclassifica\u00e7\u00e3o.<\/i>\u201d<\/p>\n<p>Na \u201cnova t\u00e9cnica\u201d, \u00e9 for\u00e7oso reconhecer que a possibilidade de contato \u00e9 zero! Como zero, \u00e9 a sincronia com o ritmo da passada do cavalo. E menor que zero, a chance de corrigir a tempo eventuais movimentos do animal. Na realidade, nenhum adepto dessa novidade ter ca\u00eddo, j\u00e1 parece um milagre&#8230;<\/p>\n<p>Quem mais sofre as consequ\u00eancias disso s\u00e3o os apostadores, o p\u00fablico e o esporte em geral. Os primeiros perdem dinheiro; os segundos perdem a beleza de ver um cavalo de corrida superar suas pr\u00f3prias limita\u00e7\u00f5es, quando e se conduzido com acerto por um mestre de sua profiss\u00e3o.<\/p>\n<p><b>Nota da reda\u00e7\u00e3o:<\/b> <b>o artigo acima foi escrito\u00a0por Sergio Barcellos h\u00e1 4 anos, mas continua\u00a0verdadeiro. Principalmente agora, quando se aproxima a semana do Festival do GP Brasil 2014, com v\u00e1rias e importantes provas cl\u00e1ssicas na dist\u00e2ncia.<br \/>\n<\/b><\/p>\n<p><b>04\/07\/2010<\/b><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>SOBRE J\u00d3QUEIS, PERCURSOS E FADIGA AGUDA Sergio Barcellos\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um cavalo de corrida bem treinado consegue alcan\u00e7ar velocidades em torno de 18 metros por segundo e usa suas reservas naturais de energia para percorrer os primeiros 400 metros de qualquer percurso. At\u00e9 a\u00ed, nada de novo. 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