

{"id":46905,"date":"2013-12-25T12:00:43","date_gmt":"2013-12-25T14:00:43","guid":{"rendered":"\/?p=46905"},"modified":"2013-12-24T20:53:56","modified_gmt":"2013-12-24T22:53:56","slug":"suplica-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/46905\/suplica-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"S\u00faplica, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Por volta de 1950 eu j\u00e1 freq\u00fcentava com assiduidade o Haras Bela Esperan\u00e7a, do criador Jos\u00e9 Paulino Nogueira. A propriedade fica a dez minutos de Campinas (SP), e era l\u00e1 que ele morava, sozinho. Havia uns poucos amigos que l\u00e1 iam gozar de sua hospitalidade, e aprender, ouvir aquele estudioso que conhecia como ningu\u00e9m a arte de criar cavalos. Jos\u00e9 Paulino era um homem bem educado, mas de temperamento complicado. Normalmente sozinho,ocupava o seu tempo estudando cruzas, lendo as melhores revistas internacionais da \u00e9poca, estava sempre ao par do que ocorria na cria\u00e7\u00e3o e nas corridas da Inglaterra e da Fran\u00e7a (aquela \u00e9poca o turfe norte-americano era de baixa qualidade), sabia quais as linhas femininas que estavam funcionando. Era um enorme prazer ouvi-lo. S\u00f3 para que se tenha uma pequena id\u00e9ia do seu saber, ele um dia me contou que havia comprado um filho de Pharis e Astronomie para reprodu\u00e7\u00e3o. Ele disse que conseguiria comprar o Pharas, porque ele era da linha alta Pharos-Pharalis, o que tinha que dar certo ao contr\u00e1rio dos irm\u00e3os anteriores, produtos da linha alta da Djebel-Tourbillon, que era inadequada \u00e0 Astronomie.<\/p>\n<p>Um dia ele soube que meu pai havia comprado um franc\u00eas de nome Djemlah, filho de Djbel e Apsaras por Sardanapale. Ficou uma fera, apesar do pre\u00e7o convidativo o cavalo n\u00e3o deveria ter sido comprado, n\u00e3o ia acrescentar nada, o meu pai que n\u00e3o o usasse e fizesse algum neg\u00f3cio. O meu pai mandou-o para um haras paranaense, de um criador que ficara entusiasmado com o tal Djemlah, que produziu ganhadores sem maiores destaques. Jos\u00e9 Paulino Nogueira, no mundo dos cavalos de corrida, era um g\u00eanio.<\/p>\n<p>Uma das coisas que mais o incomodava era o massacre, como chamava a que eram submetidos os potros quando, saindo das m\u00e3os dos criadores para as dos propriet\u00e1rios, iam para as m\u00e3os dos treinadores. N\u00e3o se pode evidentemente generalizar, mas treinadores recebiam os potros, iniciavam o amassamento nem sempre racional, e logo que poss\u00edvel levam os potros para a raia. Depois de uns dois meses de galopes, come\u00e7avam os trabalhos visando a estr\u00e9ia. N\u00e3o importa a muitos se o visual bom tempo mostrado pelo cron\u00f4metro \u00e9 resultado da caracter\u00edstica de natural velocidade ou \u00e9 na verdade uma demonstra\u00e7\u00e3o de qualidade, se o tempo \u00e9 bom, seguir aumentando as dist\u00e2ncias das partidas e dos trabalhos, cada vez \u201capertando\u201d mais, insistindo, at\u00e9 estrear.Pelo caminho v\u00eam as dores de canela, as distens\u00f5es, e muitas vezes a decep\u00e7\u00e3o na primeira corrida.Os treinadores, isso sem generalizar, nada ou pouco entendem de pedigrees, n\u00e3o sabem avaliar as prov\u00e1veis tend\u00eancias da campanha nas pistas, n\u00e3o t\u00eam id\u00e9ia da boa dist\u00e2ncia, da adequada para correr aquele potro. Os treinadores querem faturar logo, os propriet\u00e1rios tamb\u00e9m querem amortizar os seus investimentos com a maior brevidade poss\u00edvel, e assim muitos potros, de futuro promissor em corridas mais tardias e em dist\u00e2ncias n\u00e3o curtas, se lesionam, se gastam, se quebram, prejudicam-se em definitivo pelo resto de suas campanhas. Em poucas palavras e de um modo geral \u00e9 o massacre apontado por Jos\u00e9 Paulino. Treinadores conscientes,que procuram sem pressa esperar pela evolu\u00e7\u00e3o de seus potros, que procuram saber com quem sabe das caracter\u00edsticas dos pais e dos av\u00f4s que procuram \u201cajudar\u201d os potros a evoluir em seq\u00fc\u00eancia suport\u00e1vel sem exig\u00eancias que podem comprometer o futuro, esses treinadores n\u00e3o s\u00e3o a maioria.<\/p>\n<p>E a \u201cprecocidade\u201d \u00e9 perseguida \u201ca pau\u201d. \u00c9 o massacre h\u00e1 mais de cinq\u00fcenta anos dito por Jos\u00e9 Paulino. Pr\u00f3pria cria\u00e7\u00e3o h\u00e1 reflexos. H\u00e1 criadores que fecham os seus potros muito antes do que seria normal, e procuram os seus pesos f\u00edsicos. Hoje \u00e9 comum nos leil\u00f5es apresentarem-se potros com menos de 2 anos pesando mais de 500 quilos, e em conseq\u00fc\u00eancia da clausura antecipada e do peso excesso, apresentam desvios de aprumos que s\u00f3 podem eventualmente serem melhorados ou corrigidos com atitude oposta, isto \u00e9, deixar soltos em espa\u00e7osos piquetes e apenas com um m\u00ednimo necess\u00e1rio de ra\u00e7\u00e3o nos cochos.<\/p>\n<p>Eu fico contrariado quando lembro dos bons elementos que se destacam nas pistas aos 2 anos e aos 3 anos, e que v\u00e3o para serem \u201ctriturados\u201dpela pr\u00e1tica absurda corrente no turfe norte-americano. Basicamente, n\u00e3o h\u00e1 respeito \u00e0 individualidade dos animais. Eu sempre me lembro do potro Storm, que venceu brilhantemente aos 3 anos na G\u00e1vea uma prova de grupo em 2.000m, grama, e que, vendido para os Estados Unidos, acabou aparecendo no Texas correndo, natural e insistentemente, em p\u00e1reos de 6 furlongs (1.200m) na areia.<\/p>\n<p>Massacre, j\u00e1 dizia Jos\u00e9 Paulino Nogueira h\u00e1 mais de cinq\u00fcenta anos.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos e muitos anos, foi por mim lida uma publica\u00e7\u00e3o com o t\u00edtulo \u201cS\u00faplica do Cavalo\u201d. Vou transcrev\u00ea-la:<\/p>\n<p>\u201cA ti meu dono,dirijo esta s\u00faplica- d\u00e1-me de comer e mate-me a sede- e terminado o trabalho,guarda-me num lugar asseado,seco ao abrigo das intemp\u00e9ries. Fala-me porque a tua voz \u00e9 mais eficaz que as r\u00e9deas. Acaricia-me freq\u00fcentemente para me ensinar a trabalhar de bom grado.Poupa-me do chicote e nas descidas n\u00e3o me puxe as r\u00e9deas. Quando parecer que n\u00e3o te compreendo, n\u00e3o me batas sem mais nem menos. Examina antes os meus arreios, v\u00ea se tudo est\u00e1 em ordem e as ferraduras que me podem estar magoando as patas. Se eu rejeitar comida, examina a minha boca, os meus dentes, talvez dor ou ferida n\u00e3o me deixem mastigar. N\u00e3o me cortes a cauda pois assim me privas do \u00fanico meio de defesa, contra as moscas atormentadoras. Finalmente, meu bondoso senhor, quando a velhice me tornar in\u00fatil, n\u00e3o me condenes a morrer de fome e de dores,sob o chicote de algum carroceiro cruel. Mata-me por tuas m\u00e3os sem me fazer sofrer. Deus te levar\u00e1 em conta esta obra de caridade. E perdoa-me ter te dirigido esta suplica. Eu te pe\u00e7o em nome daquele que nasceu numa estrebaria\u201d.<\/p>\n<p>O cavalo de corridas n\u00e3o pode ser tratado como um bicho. Ele \u00e9 um ser vivo, que sente calor e frio, dor e prazer, fome e sede, e para que ele possa render ao m\u00e1ximo no trabalho ao qual est\u00e1 destinado necessita de ajuda, de compreens\u00e3o, de carinho, de bons tratos. Os cavalos tem que ser respeitados. A primeira coisa que um treinador faz ao receber um novo pensionista, \u00e9 diminuir os cabelos da cauda, diminuir o volume, e o pior, pelar a nuca dos animais, uma atitude de ofensa, de agress\u00e3o, \u00e0 beleza e aos brios daquele que nas pistas vai defender os nossos interesses. O desrespeito \u00e0 dignidade dos cavalos \u00e9 rotineira, qualquer empregado de cocheira nem pede autoriza\u00e7\u00e3o ao segundo-gerente ou ao treinador para pelar a nuca dos animais. A explica\u00e7\u00e3o \u00e9 sempre em nome de higiene, de facilidade, mas na verdade n\u00e3o passa de uma atitude grosseira, torpe, injusti\u00e7ada, contra a dignidade. A pr\u00e1tica \u00e9 cruel, sem sentido, geral, e os propriet\u00e1rios assistem calados, e se alguem pergunta o por que, acaba aceitando o inaceit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Certa vez, dois rapazes de fam\u00edlias nobres dos Emirados \u00c1rabes, criados nos melhores col\u00e9gios da Inglaterra, resolveram dar uma volta pelo mundo dos cavalos, na Europa, na Am\u00e9rica do Sul e na Am\u00e9rica do Norte. Estiveram no Rio de Janeiro, fizeram visitas, e passaram um domingo nas corridas da G\u00e1vea. Na hora das despedidas, Jos\u00e9 Carlos Fragoso Pires J\u00fanior a eles perguntou o que tinham achado. Disseram ter gostado, mas n\u00e3o haviam entendido porque todos os cavalos tinham as nucas peladas. A explica\u00e7\u00e3o foi recebida com surpresa, nos centros promotores de corrida do mundo inteiro, nos mais adiantados, aquela pr\u00e1tica n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o existia, como sequer seria cogit\u00e1vel.<\/p>\n<p>Pelar as nucas dos cavalos \u00e9 sinal de um turfe de quinta categoria, de falta de respeito, de agress\u00e3o \u00e0 dignidade de um animal de ra\u00e7a nobre, a mais nobre de todas as ra\u00e7as eq\u00fcinas, e melhorador.<\/p>\n<p>Se pelar a nuca \u00e9 em fun\u00e7\u00e3o de higiene, ent\u00e3o por que n\u00e3o pelar toda a crina, o topete e o rabo, para uma higiene completa. Ora, fa\u00e7a-me o favor.<\/p>\n<p>O poema \u201cS\u00faplica\u201d \u00e9 de autoria de R.Kipling.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por volta de 1950 eu j\u00e1 freq\u00fcentava com assiduidade o Haras Bela Esperan\u00e7a, do criador Jos\u00e9 Paulino Nogueira. A propriedade fica a dez minutos de Campinas (SP), e era l\u00e1 que ele morava, sozinho. 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