

{"id":46645,"date":"2013-12-18T10:01:38","date_gmt":"2013-12-18T12:01:38","guid":{"rendered":"\/?p=46645"},"modified":"2013-12-18T00:52:45","modified_gmt":"2013-12-18T02:52:45","slug":"recordacoes-inesqueciveis-20-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/46645\/recordacoes-inesqueciveis-20-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis (20), por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Desde antes de 1960 e durante muitos anos, mantive no Hip\u00f3dromo dos Canaviais, em Campos, RJ um lote de animais. Como os pr\u00eamios l\u00e1 levantados n\u00e3o eram contados nos Hip\u00f3dromos principais, para l\u00e1 iam os animais menos pretensiosos, aqueles que, em princ\u00edpio, demorariam mais a ganhar no Jockey Club Brasileiro e no Jockey Club de S\u00e3o Paulo. O treinador era Francisco Pereira, pai do ex-joquei e hoje treinador Francisco Pereira Filho, sempre radicado na G\u00e1vea. Os j\u00f3queis preferenciais eram o ent\u00e3o l\u00edder Evil\u00e1zio Paula e o ent\u00e3o aprendiz Jos\u00e9 Correa, o Joquinha Correa. Eu tinha um acerto com o Presidente do Jockey Club de Campos.<\/p>\n<p>Como eu estava com um j\u00f3quei preferencial que se iniciava comigo vindo do Paran\u00e1, Antonio Bolino, eu poderia levar de quando em quando o j\u00f3quei do Rio para ir l\u00e1 montar sem avisar antes, chegar\u00edamos no dia da corrida e o Bolino substitu\u00eda os j\u00f3queis anteriormente contratados. Isso acontecia mais ou menos uma vez por m\u00eas, e n\u00e3o havia problemas. Era uma forma de me manter a par das condi\u00e7\u00f5es de preparo e das possibilidades de eventuais idas para o Jockey Club Brasileiro.<\/p>\n<p>Um dia, como sempre chegando antes na hora do almo\u00e7o, telefonei para o Presidente avisando que hav\u00edamos chegado, para que ele providenciasse as trocas dos j\u00f3queis. Havia naquela tarde uma parelha, Diplomata e Did\u00e1tica, que, como de h\u00e1bito, era a favorita. Diplomata, a grande barbada, iria com E. Paula, e Did\u00e1tica com J. Correa. Na hora, Bolino montou o Diplomata e a \u00e9gua foi com o E. Paula. Diplomata era um cavalo de padr\u00e3o cl\u00e1ssico, com um r\u00e9gio pedigree (Fairy King, um Vateller em \u00e9gua por Pharis e Cassia, filha do invicto Caracalla, um Tourbillion, em Alcine, por Abjer). Ele era um lindo cavalo, com dois inconvenientes, quais sejam: na largada ele cravava no segundo gal\u00e3o, e s\u00f3 depois a muito custo, come\u00e7ava a correr, o que n\u00e3o o impedia de ganhar tal a sua superioridade, e o fato de ser um fundista, era cavalo de 2.400 metros para mais, inconvenientemente, para o turfe brasileiro da \u00e9poca, viciado em p\u00e1reos curtos, os de dist\u00e2ncias maiores n\u00e3o eram programados. O p\u00e1reo em si n\u00e3o apresentava problemas, logo que Diplomata come\u00e7asse a realmente correr, tomaria a frente e ganharia f\u00e1cil, e Did\u00e1tica seria uma prov\u00e1vel segunda colocada. Dada a partida, Did\u00e1tica foi resolutamente para a ponta, e l\u00e1 ficou at\u00e9 que surgiu Diplomata com grande autoridade. Mas n\u00e3o passou, porque E. Paula passou ostensivamente a cercar, a impedir a passagem de Diplomata, correndo para dentro e para fora, com o chicote em riste. Deu trabalho, mas as grandes superioridades do Diplomata sobre a Did\u00e1tica e a do Bolino sobre o E. Paula resolveu o problema. Ap\u00f3s o p\u00e1reo, quando da repesagem, E. Paula avan\u00e7ou de chicote para o Bolino, houve um princ\u00edpio de tumulto, um agarra-agarra com interven\u00e7\u00e3o de outros j\u00f3queis e de funcion\u00e1rios. Naturalmente E. Paula foi suspenso por indisciplina, e avisado que um pr\u00f3ximo delito acarretaria na perda da matr\u00edcula, n\u00e3o mais repetiu a insensatez. Mas foi barrado em definitivo dos meus cavalos, e embora n\u00e3o tivesse provocado mais problemas disciplinares, era vis\u00edvel a sua insatisfa\u00e7\u00e3o com as consequ\u00eancias de seu mau comportamento. Muitos e muitos anos se passaram, Bolino faleceu em 14 de agosto de 2013, coberto de gl\u00f3rias pelas suas expressivas vit\u00f3rias no Brasil e no exterior. Quanto ao tal E. Paulo, a \u00faltima vez que ouvi falar dele, era um ajudante de pedreiro, em Campos.<\/p>\n<p>Fato quase inacredit\u00e1vel aconteceu com o meu cavalo Exchange, que era treinado por Claudemiro Pereira, na G\u00e1vea. Um s\u00e1bado de manh\u00e3 fui acordado por um telefonema do Claudemiro. O Exchange teria quebrado uma perna, e teria que ser sacrificado, a n\u00e3o ser que eu concordasse com a tentativa de uma imediata opera\u00e7\u00e3o, a ser feita pelo m\u00e9dico veterin\u00e1rio Prot\u00e1sio Pereira, e que era prestigiado pelo Dr. Adhemar de Faria, um dos grandes benem\u00e9ritos do Jockey Club Brasileiro e, que havia sido grande amigo do meu pai. Eles aguardavam apenas a minha concord\u00e2ncia para o in\u00edcio de uma imediata opera\u00e7\u00e3o. Eu disse ao Claudemiro que ningu\u00e9m poderia tocar no cavalo, que deveria ficar dentro do box com o seu cavalari\u00e7o, e que fosse chamado o Professor Oct\u00e1vio Dupont, um veterin\u00e1rio verdadeiramente genial, com larga experi\u00eancia de quando veterin\u00e1rio da cavalaria durante a Guerra na Europa, e veterin\u00e1rio chefe do Jockey Club Brasileiro.<\/p>\n<p>Fui para a cocheira com a grande rapidez, e l\u00e1 j\u00e1 encontrei com o Dr. Dupont. Estavam presentes, al\u00e9m do treinador e de seus empregados, o Dr. Adhemar, o Dr. Prot\u00e1sio, o Dr. Dupont e o Bolino, que ap\u00f3s os trabalhos matinais tinha ido para l\u00e1. O Dr. Dupont, do alto da sua sabedoria e experi\u00eancia, fez um r\u00e1pido exame num jarrete (curvilh\u00e3o) do Exchange. Mandou que o Claudemiro chamasse um empregado forte, e os dois, o Dr. Dupont e o empregado, colocaram a perna que estava dependurada em determinada posi\u00e7\u00e3o, e for\u00e7aram a parte superior da perna no jarrete. Pois a perna se encaixou, como que por milagre. O Dr. Dupont explicou que, nos movimentos normais dos cavalos, n\u00e3o havia a possibilidade de eventuais desencaixes, mas em certos casos, quando um cavalo n\u00e3o anda para dar uma volta, se ele apenas movimenta os anteriores mantendo os posteriores fixos no ch\u00e3o, a evidente entorse pode ocasionalmente tirar da posi\u00e7\u00e3o normal o encaixe, pelo movimento inadequado para o lado e n\u00e3o para frente. E enquanto o Exchange andava pelo p\u00e1teo da cocheira puxado por seu cavalari\u00e7o, o Dr. Dupont disse que aquele incidente ocorrera pelo habitual confinamento dos cavalos em seus boxes, e cavalos pregui\u00e7osos como Exchange eram os mais sujeitos ao problema. Ap\u00f3s a magistral demonstra\u00e7\u00e3o de conhecimentos, o Dr. Oct\u00e1vio Dupont cumprimentou a todos e se foi.<\/p>\n<p>Talvez eu n\u00e3o tenha me expressado bem na descri\u00e7\u00e3o do caso, n\u00e3o sou veterin\u00e1rio, mas como simples expectador foi o que vi e entendi. O fato inusitado n\u00e3o ficou por ali. Posteriormente, o Bolino estava com o Exchange perto do partidor aguardando ordem para entrar no seu box, quando saltou do cavalo, avisou ao starter e chamou o veterin\u00e1rio. A perna do Exchange sa\u00edra outra vez do lugar. O fato extraordin\u00e1rio j\u00e1 era do conhecimento de todos os veterin\u00e1rios da G\u00e1vea que procuravam informa\u00e7\u00f5es com o Dr. Dupont e iam \u00e0 cocheira do Exchange para v\u00ea-lo. Na hora, o veterin\u00e1rio chamou um dos seguradores e colocaram a perna do Exchange no lugar. O Bolino montou o cavalo andou e trotou normalmente e correu, s\u00f3 n\u00e3o lembro se ele ganhou. Depois do p\u00e1reo, perguntei ao Bolino se ele n\u00e3o ficara pelo menos preocupado com aquele problema, e ele me disse que n\u00e3o, nos movimentos normais nada poderia acontecer, o problema era no sentido de uma tor\u00e7\u00e3o, um forte movimento lateral, e n\u00e3o era normalmente o caso.<\/p>\n<p>Um dos casos mais diferentes e surpreendentes aconteceu se n\u00e3o me engano, na d\u00e9cada de 80. \u00c9 poss\u00edvel que eu j\u00e1 tenha abordado o caso, mas ele \u00e9 t\u00e3o absurdo que merece ser contado, quem sabe, de novo. Entre 1950 e 1960, um s\u00f3cio do Jockey Club Brasileiro comprou, pela primeira vez, um cavalo de corridas. Foi um potro, que foi entregue ao competente treinador Jos\u00e9 Luiz Pedrosa, o pai, que come\u00e7ou no turfe como cavalari\u00e7o, passou a segundo gerente por m\u00e9ritos, e ficou ent\u00e3o conhecido como Z\u00e9 Veterin\u00e1rio. E, posteriormente, como treinador foi um dos expoentes do seu tempo, tendo sido Presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Profissionais, com grande sucesso por muitos anos. O novo propriet\u00e1rio, que nascera em um dia 7 de setembro, data da Independ\u00eancia do Brasil, pretendeu e conseguiu o registro do Stud 7 de Setembro com a farda ouro, mangas e bon\u00e9 verdes, cores b\u00e1sicas da Bandeira Nacional. E por mais de 40 anos o Stud 7 de Setembro manteve um ou dois cavalos de corrida.<\/p>\n<p>Na d\u00e9cada de 80, estava o propriet\u00e1rio na arquibancada assistindo as corridas, quando viu entrar na raia um cavalo, que n\u00e3o era seu, com a sua farda. Inconformado, solicitou permiss\u00e3o e foi atendido por um ent\u00e3o, Diretor da Comiss\u00e3o de Corridas. Ap\u00f3s a explica\u00e7\u00e3o, o Diretor disse que as fardas n\u00e3o eram iguais, a do novo propriet\u00e1rio teria, no alto do peito perto do ombro esquerdo, tr\u00eas pequenas estrelas verdes. O propriet\u00e1rio n\u00e3o aceitou a explica\u00e7\u00e3o, as tais estrelas n\u00e3o eram vis\u00edveis, e as fardas deveriam ser diferentes para o necess\u00e1rio entendimento e compreens\u00e3o dos turfistas, na pr\u00e1tica as duas fardas eram iguais.<\/p>\n<p>Iniciou-se ai uma discuss\u00e3o, que aos poucos foi se tornando \u00e1spera. L\u00e1 pelas tantas, o Diretor, em lugar de ceder e solicitar ao novo propriet\u00e1rio que escolhesse outra farda, e j\u00e1 sem argumentos, declarou que a nova farda n\u00e3o era ouro e sim amarela, e que ouro e amarelo eram diferentes. O propriet\u00e1rio percebeu que tinha vencido a discuss\u00e3o, e disse que era p\u00fablico e not\u00f3rio que no linguajar turf\u00edstico \u201camarelo\u201d era \u201couro\u201d, assim como vermelho era \u201cencarnado\u201d, isso para facilitar a enuncia\u00e7\u00e3o das fardas nos programas de corridas. A palavra \u201couro\u201d \u00e9 mais curta que \u201camarelo\u201d e as letras \u201cver\u201d referem-se a \u201cverde\u201d, ficando do \u201cver\u201d de \u201cvermelho\u201d substitu\u00eddo por \u201cenc\u201d de \u201cencarnado\u201d. O Diretor insistiu amarelo era diferente de ouro. O propriet\u00e1rio ent\u00e3o disparou se amarelo era diferente de ouro, ele queria trocar a farda dele, \u201couro com mangas e bon\u00e9 verdes\u201d, por \u201camarelo, costuras azuis e bon\u00e9 amarelo\u201d. Ai foi o Diretor que saltou, aquela n\u00e3o podia, era a mais tradicional farda do turfe brasileiro, e protegida para a fam\u00edlia. Mas o propriet\u00e1rio voltou se amarelo era diferente de ouro, porque ele n\u00e3o podia registrar \u201camarelo, costuras azuis e bon\u00e9 ouro\u201d, se a protegida era \u201couro, costuras azuis e bon\u00e9 ouro\u201d?<\/p>\n<p>A discuss\u00e3o terminou ai, o propriet\u00e1rio ficou inconformado, vendeu o seu corredor, vendeu tamb\u00e9m o seu t\u00edtulo de s\u00f3cio e abandonou o turfe.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desde antes de 1960 e durante muitos anos, mantive no Hip\u00f3dromo dos Canaviais, em Campos, RJ um lote de animais. 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