

{"id":43862,"date":"2013-10-16T11:56:54","date_gmt":"2013-10-16T14:56:54","guid":{"rendered":"\/?p=43862"},"modified":"2013-10-15T16:58:12","modified_gmt":"2013-10-15T19:58:12","slug":"recordacoes-inesqueciveis-17-por-milton-lodi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/43862\/recordacoes-inesqueciveis-17-por-milton-lodi\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis (17), por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<div align=\"justify\">\u00a0Antes de fundar o seu Haras Ipiranga, o meu pai costumava comprar corredores, machos e f\u00eameas, procedentes da Argentina e do Uruguai, al\u00e9m naturalmente, de nacionais. Os importados lhe eram oferecidos, habitualmente, pelos importadores: At\u00edlio Irulegui \u2013 o melhor de todos e o mais confi\u00e1vel, honesto e entendido-, Oswaldo Gomes Camiza &#8211; sempre de terno branco e fumando charuto &#8211; e At\u00edlio Loss Tedesco.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu n\u00e3o sei de qual deles meu pai comprou o argentino Hechizo, um castanho avermelhado, cal\u00e7ado, cara branca e olhos de vaca. Ganhou muitas corridas na G\u00e1vea, depois j\u00e1 com mais idade foi para o extinto Jockey Club de Minas Gerais, onde ficou invicto, tendo vencido mais de quinze corridas. Mas ele protagonizou um epis\u00f3dio curioso. Fora da cocheira, trabalhando montado na pista, era manso, mas tinha dois detalhes a serem cuidados, quais sejam: no partidor n\u00e3o enfrentava normalmente a fita de largada (\u00e0 \u00e9poca n\u00e3o havia partidores el\u00e9tricos como hoje), tinha que ficar de costas e quando o juiz de partida avisava, Hechizo dava meia volta impetuosamente, e largava violentamente, n\u00e3o seria necess\u00e1rio dizer que ele ficava cerca de dois corpos atr\u00e1s do grupo, pois como largava em movimento tinha que dar vantagem aos outros que estavam se alinhando. Outro detalhe \u00e9 que ele era muito ansioso, andava muito do seu box.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em um domingo, na G\u00e1vea, Hechizo, como grande favorito chegou em \u00faltimo, sem a\u00e7\u00e3o. Como ele andava na cocheira ficou entendido que ele correra \u201cpassado\u201d, j\u00e1 entrara na pista cansado. Foi ent\u00e3o decidida uma tentativa inovadora. Hechizo foi inscrito para correr no domingo seguinte, e ficou dentro do seu box, sem sair, de domingo ap\u00f3s o \u00faltimo e o domingo quando saiu do seu box para correr. O resultado foi espetacular, f\u00e1cil vit\u00f3ria por v\u00e1rios corpos, o que resultou em suspens\u00e3o do treinador por tr\u00eas meses, por enorme diversidade de performances. O caso era simples, se ele trabalhava intensamente dentro do seu box, lev\u00e1-lo para trabalhar na pista seria um exagero, a permanente movimenta\u00e7\u00e3o de Hechizo era suficiente, mais trabalho s\u00f3 iria cans\u00e1-lo. Hechizo nos primeiros tempos, e Manguari mais para frente, foram os dois cavalos que mais o meu pai gostou. S\u00f3 para que se tenha uma ideia, para n\u00e3o vender o Manguari quando ele encerrou a campanha nas pistas, o meu pai implantou o seu Haras.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outro fato inesquec\u00edvel ocorreu na d\u00e9cada de 80, em Porto Alegre. Bravio, de cria\u00e7\u00e3o dos Haras S\u00e3o Jos\u00e9 e Expedictus, um alaz\u00e3o grande, filho de Fel\u00edcio, era um bom corredor, e vendido, foi continuar a campanha no Rio Grande do Sul. Mostrou-se muito bom, e venceu muitas corridas. Em uma semana do G.P. Bento Gon\u00e7alves ele foi inscrito para correr em tr\u00eas provas cl\u00e1ssicas, o p\u00e1reo de velocidade em 1.200 metros, o da milha e mais um em 1.820 metros. Ele foi correr os tr\u00eas, no mesmo dia. O primeiro dos tr\u00eas p\u00e1reos foi o de 1.200 metros, vencido facilmente por Bravio. No meio do programa foi a vez dos 1.600 metros, e mais uma vez Bravio venceu com autoridade. No \u00faltimo p\u00e1reo, o de 1.820 metros, Bravio foi eleito favorito pela terceira vez, tal a confian\u00e7a do p\u00fablico. Bravio dominou a outra corrida no meio da reta, o seu j\u00f3quei precipitou-se, fez correr antes da hora e, ainda, teria facilitado no final, e Bravio foi batido por uma cabe\u00e7a.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os j\u00f3queis, mesmo os melhores, s\u00e3o muitas vezes tra\u00eddos pelo excesso de confian\u00e7a, deixam-se levar por exagerados otimismos. Em lugar de se dedicarem \u00e0 cada corrida em ajudar o cavalo a obter a melhor performance, s\u00e3o v\u00edtimas de excessos dos pr\u00f3prios egos. Isso n\u00e3o acontece s\u00f3 no Brasil, n\u00e3o. H\u00e1 muitos anos uma espetacular \u00e9gua nos Estados Unidos, invicta em dezessete apresenta\u00e7\u00f5es, todas obtidas em atropeladas finais curtas, foi para a sua d\u00e9cima oitava corrida, a da despedida, como grande favorita, montada por um j\u00f3quei norte-americano de grande prest\u00edgio local, de nome Smith. A \u00e9gua foi mantida em \u00faltimo at\u00e9 os \u00faltimos 200 metros, e arrancou tardiamente, perdendo a invencibilidade em sua carreia de despedida, por cabe\u00e7a. Ap\u00f3s o p\u00e1reo, Smith confessou que havia esperado demais, n\u00e3o deixara a \u00e9gua correr e ganhar como de costume, ele havia jogado fora a invencibilidade da \u00e9gua e o dinheiro dos apostadores. Em lugar de correr a \u00e9gua exclusivamente para ganhar, ele se exibira, esperou mais do que era poss\u00edvel, para um final espetacular que n\u00e3o veio \u2013 pois n\u00e3o poderia vir, a sua vaidade e falta de sensibilidade tiraram da maravilhosa \u00e9gua o t\u00edtulo de invicta.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O j\u00f3quei internacional Antonio Bolino s\u00f3 tinha dois problemas, quais sejam, era um fumante e de vez em quando tinha pedras nos rins. O cigarro abreviou a sua vida, e as pedras nos rins chegavam a deix\u00e1-lo de cama por alguns dias. Se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, foi em 1959 que iniciou a sua cl\u00e1ssica campanha, uma das melhores potrancas nascidas no Ipiranga, chamada Faustina, chegou invicta e at\u00e9 ent\u00e3o l\u00edder da ala feminina da sua gera\u00e7\u00e3o. Quando foi inscrita para correr o Criterium de Potrancas (em S\u00e3o Paulo chama-se Sele\u00e7\u00e3o de Potrancas). Foi quando eu fui informado de que o Bolino tinha sido hospitalizado por problemas de pedras nos rins. Fui ao hospital, que ficava no bairro de Laranjeiras, onde encontrei Bolino que me disse que estava bem, e era s\u00f3 expelir as pedras que voltaria a estar em ordem.<\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Diariamente eu ia ao hospital, e na sexta-feira, com cinco dias acamado entendi que havia de ser escolhido um j\u00f3quei substituto para a Faustina, que era uma excelente corredora, mas de g\u00eanio complicado. Pedi ao Bolino para me indicar o j\u00f3quei substituto, e ele sugeriu Jos\u00e9 Portilho, um dos bons j\u00f3queis de freio da \u00e9poca, bom cavaleiro e corajoso. Mas o Bolino fez a ressalva, se ele se livrasse das pedras ele queria montar a potranca, mesmo tendo ficado toda a semana de cama e com dores. O Portilho foi avisado e ficou \u00e0 espera.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No s\u00e1bado \u00e0 tarde, nas corridas, o meu treinador Claudemiro Pereira me informou que naquela manh\u00e3 de s\u00e1bado o Bolino tinha ido para casa, livre do problema. Entrei em contato com ele, e disse que a Faustina era complicada, geniosa, e que era melhor deixar o Portilho montar. O Bolino disse que n\u00e3o, ele estava em perfeitas condi\u00e7\u00f5es, ele conhecia a potranca, que era sempre montada por ele. No domingo, antes do p\u00e1reo, eu pedi a ele para n\u00e3o facilitar, a \u00e9gua era a melhor, tinha sobras e ele, naturalmente, estaria um pouco descontado, n\u00e3o pod\u00edamos arriscar, era correr perto ou mesmo na ponta e deixar a Faustina disparar na reta. Tudo acertado, a Faustina como sempre favorita. Foi dada a largada, e a Faustina em \u00faltimo e em \u00faltimo ficou at\u00e9 os 300 metros finais, com Bolino sempre quieto. De repente, por fora de todas levada desde a entrada da reta, pelo meio da raia Faustina arrancou violentamente, e sempre com o j\u00f3quei, passou de \u00faltimo para primeiro, vencendo ainda por mais de um corpo.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O p\u00fablico aplaudindo, todo mundo sorridente, menos eu, ou o Bolino tinha tido problemas em fun\u00e7\u00e3o do seu estado f\u00edsico ou entendera de fazer outro tipo de percurso, sensacional, arriscado e contra tudo que havia sido combinado. Ap\u00f3s a repesagem fui procurar explica\u00e7\u00f5es, e o j\u00f3quei internacional me disse que desde o pulo de partida a Faustina se negava a correr, ele pediu por ela e n\u00e3o houve resposta, usou do chicote e foi pior, ela n\u00e3o conhecia e n\u00e3o gostou do sabor do chicote, e at\u00e9 diminuiu o ritmo. O jeito foi ficar quieto, parado em cima e esperar. Na entrada da reta, ela foi tirada de tr\u00e1s dos outros e levada para campo livre. N\u00f3s \u00faltimos 300 metros, quando a Faustina arrancou por conta pr\u00f3pria, n\u00e3o havia porque se mexer, a acelera\u00e7\u00e3o da potranca era muito forte, foi s\u00f3 esperar o disco de chegada. Eu n\u00e3o achei nenhuma gra\u00e7a no que acontecera, aguardei as corridas seguintes da Faustina, e ela nunca mais repetiu aquele percurso absurdo do Criterium de Potrancas. Continuou vencendo provas cl\u00e1ssicas, enfrentou de igual para igual as \u00e9guas cl\u00e1ssicas mais velhas, e no Haras entre outros filhos ganhadores, produziu Kalapalo, ganhador cl\u00e1ssico.<\/div>\n<div align=\"justify\"><\/div>\n<div align=\"justify\">\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 At\u00e9 hoje, eu n\u00e3o sei, mas tenho a impress\u00e3o que, naquele Criterium de Potrancas, ent\u00e3o pela primeira vez a cl\u00e1ssica tordilha n\u00e3o foi suficientemente esperta na partida, em lugar de correr sempre na ponta ou junto com as ponteiras, n\u00e3o gostou de ficar atr\u00e1s, e como era de temperamento complicado, n\u00e3o queria passar perto das outras competidoras, e s\u00f3 atropelou na reta, quando se viu longe das outras, afastada pelo meio da raia. A estrat\u00e9gia de levar a potranca para longe das outras deu certo. O Bolino me disse, textualmente, que a Faustina venceu sozinha aquele p\u00e1reo, ele foi um coadjuvante que s\u00f3 teve o trabalho de levar a tordilha para longe das outras. Esses detalhes e interpreta\u00e7\u00f5es s\u00e3o somente produto de racioc\u00ednios, e na pr\u00e1tica, a Faustina mostrou-se uma \u00e9gua de exce\u00e7\u00e3o, e o Bolino um j\u00f3quei inteligente e de extrema sensibilidade.<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0Antes de fundar o seu Haras Ipiranga, o meu pai costumava comprar corredores, machos e f\u00eameas, procedentes da Argentina e do Uruguai, al\u00e9m naturalmente, de nacionais. 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