

{"id":38375,"date":"2013-07-17T09:27:41","date_gmt":"2013-07-17T12:27:41","guid":{"rendered":"http:\/\/jcb.com.br\/?p=38375"},"modified":"2013-07-16T22:30:22","modified_gmt":"2013-07-17T01:30:22","slug":"ecordacoes-inesqueciveis-10-por-ilton-odi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/38375\/ecordacoes-inesqueciveis-10-por-ilton-odi\/","title":{"rendered":"Recorda\u00e7\u00f5es inesquec\u00edveis (10), por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p>Na minha primeira letra F, eu tive tr\u00eas potros, a um deles dei o nome de Ferrari. Era um potro grande, castanho tapado, n\u00e3o era pesado demais, tinha pesco\u00e7o longo e cabe\u00e7a pesada. Tinha por pai Four Hills, filho do italiano Moroni na irlandesa Four Bells, por Tetratema. A \u00e9gua correra na Irlanda e fora para a reprodu\u00e7\u00e3o na It\u00e1lia. Four Hills foi um bom ganhador cl\u00e1ssico, milheiro por excel\u00eancia, ganhou muitas corridas na G\u00e1vea para o meu pai, e terminou no Ipiranga. A m\u00e3e de Ferrari era a francesa Cassia, oriunda da cria\u00e7\u00e3o de Marcel Boussac. O pai dela era Caracalla, um filho de Tourbillon, que foi invicto em suas sete corridas na Fran\u00e7a, sempre em p\u00e1reos de fundo. A linha materna de Cassia era das mais nobres do Haras Fresnay-Le-Buffard, na Normandia, Haras de Boussac.<\/p>\n<p>Com dois anos de idade Ferrari foi levado para o Rio de Janeiro, para a cocheira do treinador Claudemiro Pereira. A ele coube o primeiro box \u00e0 direita do grande grupo de cocheiras. Quaisquer barulhos diferentes, Ferrari colocava o pesco\u00e7o pela janela do box para ver o movimento. Era tranquilo, d\u00f3cil, curioso. \u00c0quela \u00e9poca eu vendia aproximadamente metade da produ\u00e7\u00e3o do Ipiranga, e apareceu um turfista novato que quis comprar o Ferrari, n\u00e3o sei se por indica\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m ou por simples palpite. O que importa \u00e9 que o interessado, um cigano sempre bem vestido e que tinha uma cor meio cinza e grandes olheiras pretas, acabou me comprando o potro e deixou que ele ficasse com o treinador Claudemiro Pereira.<\/p>\n<p>Com o nome trocado para Tuchaua, o potro mostrou-se muito bom, ganhou logo dois ou tr\u00eas p\u00e1reos, e foi levado para Cidade Jardim. O tempo passou, at\u00e9 que um dia, o saudoso handicapeur do Jockey Club de S\u00e3o Paulo, o \u201cSeu\u201d Thomazinho, me telefonou para o Rio perguntando quando eu estaria em S\u00e3o Paulo. Coincidentemente, eu iria \u00e0 semana seguinte, e combinamos um encontro na sala dele, logo ap\u00f3s o almo\u00e7o. Quando eu l\u00e1 cheguei, ele me disse que havia sido instaurada uma sindic\u00e2ncia, sob a suspeita de que teria havido a troca de um cavalo chamado Barbante, um matungo, que surpreendentemente havia vencido com facilidade e por v\u00e1rios corpos.<\/p>\n<p>Naquela \u00e9poca n\u00e3o havia os recursos e os controles de hoje, mas havia um grande zumzum indicando que o tal Barbante havia sido substitu\u00eddo por um castanho tapado de nome Tuchaua, ex-Ferrari. Explicado o problema, o \u201cSeu\u201d Thomazinho me perguntou se eu era capaz, com toda a certeza, de identificar o tal cavalo. Eu respondi que eu frequentava quase que diariamente, pela manh\u00e3, as cocheiras do treinador Claudemiro Pereira, que sa\u00eddo do Ipiranga, o cavalo Ferrari ficava no mesmo grupo dos meus, e que o Ferrari, ent\u00e3o Tuchaua, era facilmente reconhec\u00edvel, pelo seu longo pesco\u00e7o e a cabe\u00e7a pesada, e pela mansid\u00e3o, sempre esperando um carinho no cabe\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Fomos de carro at\u00e9 a Ch\u00e1cara do Ferreira, \u00e0 \u00e9poca, um centro de treinamento do Jockey Club de S\u00e3o Paulo, distante quinze minutos de carro de Cidade Jardim. Era a hora do passeio da tarde, e um grande n\u00famero de animais passeava levados por seus cavalari\u00e7os. O \u201cSeu\u201d Thomazinho havia determinado que o Tuchaua caminhasse passando em grupo pelo local onde eu estava. O cavalo ainda vinha longe, mas destacava-se dos outros pelo pesco\u00e7o e pela cabe\u00e7a. Apontei logo para o \u201cSeu\u201d Thomazinho quem era o Tuchaua, o ex-Ferrari. Esperamos ele se aproximar, pedi ao cavalari\u00e7o para parar um pouco. O carinho que fiz na fronte do Ferrari era o que o cavalo mais queria. Essa comprova\u00e7\u00e3o foi o \u00faltimo detalhe que faltava para o processo criminal impetrado pelo Jockey Club de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Eu fui convocado pelos advogados dos criminosos para pessoal e diretamente dizer como eu teria feito a indica\u00e7\u00e3o, se eu tinha certeza de que o Tuchaua havia substitu\u00eddo o tal Barbante. A minha resposta foi simples, eu n\u00e3o sabia de eventual troca de cavalos, o que eu tinha certeza era que o cavalo que eu vira com o \u201cSeu\u201d Thomazinho era o Tuchaua, ex-Ferrari. E se ainda houvesse necessidade de mais confirma\u00e7\u00f5es, bastava convocar no Rio o treinador e o cavalari\u00e7o que cuidaram dele na G\u00e1vea. A justi\u00e7a resolveu o caso, houve pris\u00f5es. Esse caso ocorreu se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, em 1961.<\/p>\n<p>De l\u00e1 para c\u00e1, esporadicamente, houve suspeitas de trocas, mas se \u00e9 que as houve, foram muit\u00edssimo poucas. Uma que tudo indicou fraude, mas n\u00e3o foi comprovada ocorreu muitos anos depois, no Jockey Club de S\u00e3o Paulo. Um cavalo, domiciliado em Curitiba, PR, foi inscrito para correr em Cidade Jardim. Ele chegou \u00e0 v\u00e9spera da corrida, ao escurecer, ficou no box at\u00e9 a hora de ir para o prado. Ganhou com enorme facilidade, contrariando as normais e gerais expectativas. E da corrida foi direto para um caminh\u00e3o transporte que j\u00e1 o aguardava. Houve muita suspeita, muita conversa.<\/p>\n<p>O Stud Book Brasileiro foi informado, e na manh\u00e3 seguinte, dois veterin\u00e1rios fiscais foram para o Jockey Club do Paran\u00e1. L\u00e1 constataram que o tal cavalo havia sido desembarcado pouco depois da meia noite, e j\u00e1 havia outro caminh\u00e3o aguardando. O cavalo entrou no caminh\u00e3o n\u00e3o identificado e saiu pela noite \u00e0 dentro. Os veterin\u00e1rios fiscais ficaram por dois dias no Paran\u00e1, procurando ind\u00edcios, mas nada foi encontrado de positivo. Mais de um ano depois, surgiu a not\u00edcia de que naqueles dias de procuras, um cavalo rec\u00e9m chegado de caminh\u00e3o em uma propriedade rural havia sido enterrado. Mas o assunto j\u00e1 havia sido dado como encerrado.<\/p>\n<p>Hoje em dia, com as fiscaliza\u00e7\u00f5es com carteiras de identidade, certificados de sinais e perfomances, e o tal chip inserido no pesco\u00e7o do cavalo sob a crina \u00e9 quase imposs\u00edvel uma irregularidade desse tipo. H\u00e1 casos at\u00e9 curiosos, mas que s\u00e3o detectados a bom tempo. Como simples e mero exemplo, posso lembrar o caso da compra de duas \u00e9guas com produtos ao p\u00e9, que foram adquiridas pelos s\u00f3cios Haras LLC e Carlos dos Santos, quando de vendas em leil\u00e3o de animais dos Haras S\u00e3o Jos\u00e9 e Expedictus. As duas \u00e9guas, cada uma com um macho castanho ao p\u00e9, foram separadas, cada uma para um dos dois Haras compradores em sociedade.<\/p>\n<p>Quando os produtos estavam na entrada de dois anos, foram juntos dos Haras no Paran\u00e1 para um centro de treinamento em Teres\u00f3polis, Estado do Rio de Janeiro. Quando o primeiro foi \u00e0 G\u00e1vea para correr, a sua carteira de identidade n\u00e3o era compat\u00edvel. Foi naturalmente instaurado um inqu\u00e9rito, uma pesquisa, e foi constatado que, quando ao p\u00e9 ainda no Haras S\u00e3o Jos\u00e9 e Expedictus, os potros trocaram de m\u00e3es. N\u00e3o houve maiores problemas, pois as duas compras, de duas \u00e9guas com produtos ao p\u00e9, tinham sido arrematadas em leil\u00e3o por dois compradores em sociedade. O caso foi bem resolvido, com o acerto dos documentos. A prop\u00f3sito, o potro que veio a ser criado pelo LLC era Ivoire, ganhador do Derby carioca.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos anos, entre outros eu tinha dois potros muito parecidos, quase iguais, que vendi para propriet\u00e1rios diferentes. Na entrega dos dois potros, que foi ao mesmo tempo, um empregado idiota trocou os cabrestos, os bu\u00e7ais. S\u00f3 dois meses depois eu tomei ci\u00eancia da troca. Propus aos dois compradores quaisquer solu\u00e7\u00f5es, at\u00e9 mesmo a devolu\u00e7\u00e3o dos animais e dos dinheiros, mas eles j\u00e1 tinham se afei\u00e7oado aos potros. Mantiveram os animais e simplesmente trocaram as carteiras de identidade e os certificados. \u00c9 comum a m\u00e1 pr\u00e1tica, por veterin\u00e1rios e treinadores, da n\u00e3o confer\u00eancia dos documentos dos animais, o n\u00e3o confronto com os documentos. Na G\u00e1vea j\u00e1 houve at\u00e9 o caso do Starter, por n\u00e3o conferir os potros novos com as respectivas carteiras, dar aprova\u00e7\u00e3o indevida.<\/p>\n<p>Casos de eventuais tentativas de trocas de animais v\u00eam de longe. Um dos mais conhecidos internacionalmente refere-se ao dos cavalos Cinzano e Lebom. Cinzano era o melhor cavalo uruguaio da \u00e9poca, na verdade, um \u00f3timo corredor, e foi exportado para os Estados Unidos. Um dia, um turfista uruguaio foi passear nos Estados Unidos e resolveu passar \u00e0 tarde em um Hip\u00f3dromo, e l\u00e1 viu o Cinzano, mas que iria correr com o nome de Lebom. O bom corredor n\u00e3o havia trocado de nome, era um t\u00edpico e aparente caso de troca, de substitui\u00e7\u00e3o de animais. O turfista uruguaio n\u00e3o tinha d\u00favidas, conhecia bem o Cinzano, j\u00e1 que o vira correr e ganhar v\u00e1rias vezes. Conseguiu comunicar-se com a Comiss\u00e3o de Corridas, que de imediato tomou provid\u00eancias, mas n\u00e3o a tempo de impedir que Cinzano corresse e ganhasse facilmente. A Pol\u00edcia foi chamada e os respons\u00e1veis sumiram ou foram presos, e Cinzano foi pelo Stud Book castrado e desqualificado como puro sangue de corridas. Sem mais poder correr, Cinzano foi levado para um Clube H\u00edpico, e l\u00e1 se mostrou um \u00f3timo saltador. Cinzano era bom mesmo.<\/p>\n<p>Mas isso \u00e9 coisa do passado, para evitar e impedir problemas dessa ordem basta que os treinadores, os veterin\u00e1rios e os funcion\u00e1rios encarregados da devida fiscaliza\u00e7\u00e3o, confiram os sinais do cavalo com a respectiva carteira de identidade e com o certificado de perfomances.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na minha primeira letra F, eu tive tr\u00eas potros, a um deles dei o nome de Ferrari. Era um potro grande, castanho tapado, n\u00e3o era pesado demais, tinha pesco\u00e7o longo e cabe\u00e7a pesada. Tinha por pai Four Hills, filho do italiano Moroni na irlandesa Four Bells, por Tetratema. 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