

{"id":35633,"date":"2013-06-05T10:39:33","date_gmt":"2013-06-05T13:39:33","guid":{"rendered":"http:\/\/jcb.com.br\/?p=35633"},"modified":"2013-06-06T14:22:36","modified_gmt":"2013-06-06T17:22:36","slug":"nstrucoes-por-ilton-odi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/jcb.com.br\/home\/noticias\/35633\/nstrucoes-por-ilton-odi\/","title":{"rendered":"Instru\u00e7\u00f5es, por Milton Lodi"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: 'Verdana','sans-serif';\"><span>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/span><\/span>\u00c9 comum um j\u00f3quei correr mal e depois atribuir seu mau desempenho \u00e0s instru\u00e7\u00f5es recebidas antes do p\u00e1reo pelo propriet\u00e1rio ou treinador. A habitual conversa pr\u00e9via com o j\u00f3quei faz parte da rotina e, muitas vezes, \u00e9 rid\u00edcula e desastrosa. A n\u00e3o ser em casos especiais, de animais que s\u00f3 correm bem na ponta ou no inverso s\u00f3 no fundo do lote. A maioria dos j\u00f3queis recebe as mesmas ou semelhantes instru\u00e7\u00f5es, isto \u00e9 correr colocado, aproximadamente no meio, e fazer correr na reta final; como n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o f\u00edsico quase todos correrem nas quase mesmas posi\u00e7\u00f5es. \u00c9 evidente que, pelo menos, boa parte dos cavalos correm com posicionamento diverso do pretendido.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 que levar em considera\u00e7\u00e3o, desde logo, quatro fatores importantes: a caracter\u00edstica normal do cavalo, o modo pelo qual ele costuma apresentar melhor performance; a qualidade dos competidores, se a eles deve ser imposto um ritmo mais forte (caso de turma considerada comparativamente fraca) ou tentar n\u00e3o desgastar o cavalo antes do momento mais importante (caso de turma de iguais ou mais forte recursos); a classe o j\u00f3quei (a um A. Bolino, J.M. Amorim, E. Le Mener, I. Quintana, A. Barroso, L.C. Silva, J. Garcia e mais um ou outro , basta explicar quais os detalhes caracter\u00edsticos de cada cavalo (se j\u00e1 o correu, se pelo menos j\u00e1 o trabalhou algumas vezes).<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O antigo treinador paranaense El\u00eddio Pierre Gusso (pai dos treinadores El\u00eddio Pereira Gusso e Carlos Pereira Gusso, e sogro do tamb\u00e9m treinador Gerv\u00e1sio Fagundes) costuma dizer que ao curso de sua longa trajet\u00f3ria na lida com os j\u00f3queis, conheceu dois, que coincidentemente come\u00e7aram em suas m\u00e3os, cuja sensibilidade destoa de quase totalidade: Luiz Rigoni, que ap\u00f3s cada corrida \u201cradiografava\u201d o desempenho de todos os animais que haviam participado do p\u00e1reo, chegando a prognosticar com grande margem de acerto as performances seguintes de cada um deles, e Antonio Bolino, que a partir da segunda vez que monta um cavalo \u00e9 inigual\u00e1vel na arte de dele tirar o m\u00e1ximo do rendimento e, \u00e0s vezes at\u00e9 apenas de um trabalho forte, para ter completa sensibilidade das caracter\u00edsticas e poderio locomotor.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 H\u00e1 muitos anos, na Fran\u00e7a, o Pr\u00edncipe Ali Khan contratou o melhor j\u00f3quei da \u00e9poca, Roger Poincelet; um propriet\u00e1rio conhecedor de corridas, inteligente e sens\u00edvel, com bons animais e tendo o l\u00edder como contratado, tudo indicava uma formid\u00e1vel alian\u00e7a. Mas n\u00e3o deu certo, pois Ali Khan instru\u00eda demasiadamente, analisava com profundidade o p\u00e1reo a ser corrido e procurava incutir em Poincelet seus pontos de vista, mas o j\u00f3quei confessou que o contrato tivera que ser aberto porque ele se inibia com instru\u00e7\u00f5es r\u00edgidas, rendia mais quando corria por instinto, por intui\u00e7\u00e3o tomando decis\u00f5es pr\u00f3prias no decorrer do p\u00e1reo e, embora, a planifica\u00e7\u00e3o fosse basicamente correta ele tinha muitas vezes que improvisar e as ordens tiravam dele o poder de decis\u00f5es acertadas.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Caso curioso ocorreu com outro famoso j\u00f3quei, Ray Johnstone, e o mesmo propriet\u00e1rio, Ali Khan. O cavalo HADJI ganhou tr\u00eas p\u00e1reos consecutivos, todos por uma cabe\u00e7a; na primeira vit\u00f3ria, Johnstone pediu desculpas ao treinador por quase ter perdido a corrida, alegando desconhecer as caracter\u00edsticas do cavalo; na segunda, disse que a vit\u00f3ria havia sido sem susto, pois o cavalo ainda tinha reservas; na terceira, sugeriu ao treinador vender o cavalo, que havia ganho com tudo e iria custar a ganhar outra vez. Repito as tr\u00eas vit\u00f3rias foram consecutivas, e todas por cabe\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jean Deforge, grande j\u00f3quei Frances do passado, dizia que a qualidade do cavalo \u00e9 o principal fator do sucesso, e que ao bom j\u00f3quei s\u00f3 resta aplicar com simplicidade a melhor t\u00e1tica que conv\u00e9m ao cavalo e as circunst\u00e2ncias do p\u00e1reo.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas nem todos os treinadores pensam que deve o j\u00f3quei ter liberdade; Fran\u00e7ois Mathet, um dos treinadores de maior sucesso na Europa, j\u00e1 repreendeu um j\u00f3quei que acabara de ganhar facilmente com um seu cavalo, por n\u00e3o ter vencido com a t\u00e1tica que lhe havia determinado; e quando em outra oportunidade seu cavalo fez a partida final antes dos \u00faltimos duzentos metros como ele havia determinado, reclamou do j\u00f3quei sem se importar com as explica\u00e7\u00f5es que lhe estavam sendo dadas. Para Fran\u00e7ois Mathet, instru\u00e7\u00f5es s\u00e3o ordens a serem cumpridas \u00e0 risca.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No \u00e2mbito paulista, h\u00e1 j\u00f3queis, naturalmente os melhores, que correm de acordo com o ritmo da corrida e as caracter\u00edsticas de seus conduzidos, como fazem todos os grandes azes do mundo inteiro, h\u00e1 outros, no entanto, que por correrem quase todos os p\u00e1reos de modo igual d\u00e3o aos competidores um ponto de refer\u00eancia; por exemplo: R. Penachio (ponta), A. Soares (afastado da cerca interna mesmo nas curvas), L. Yanez (entre os primeiros, \u201cabrindo\u201d na entrada da reta e voltando rapidamente para dentro no \u201cdireito\u201d), etc.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Caso fant\u00e1stico de instru\u00e7\u00f5es inteligentes aconteceu na G\u00e1vea, quando da primeira prova da tr\u00edplice coroa carioca, em 1958. O favorito era RED CAP, do Haras Guanabara, com campanha em Cidade Jardim e que ia com o j\u00f3quei titular da coudelaria, o sensacional Francisco Irigoyen; como \u201cfaixa\u201d ia a potranca BUCAREST, ligeira, e que seria pilotada por Ubirajara Cunha. Pessoalmente, Roberto Seabra conversou \u00e0 s\u00f3s \u00e0 hora da ida para o partidor com os dois j\u00f3queis. Naturalmente BUCAREST iria para a ponta, preparando terreno para a reta final de RED CAP. Mas o que se viu foi diferente, RED CAP foi lan\u00e7ado por Irigoyen para a frente, e BUCAREST acomodou-se por volta da sexta coloca\u00e7\u00e3o. Era um p\u00e1reo cheio, e logo os principais candidatos ao p\u00e1reo aceleraram e foram cuidar de RED CAP, o que resultou em um p\u00e1reo de ritmo forte, as for\u00e7as desde logo participando ativamente. Os primeiros iniciaram acelerados at\u00e9 o in\u00edcio da reta, e foi a\u00ed que BUCAREST, guardada para o final, arrematou brilhantemente para vencer os melhores machos da gera\u00e7\u00e3o de forma espetacular. RED CAP e os outros ficaram para tr\u00e1s, exaustos. Depois do p\u00e1reo correu a not\u00edcia de que RED CAP n\u00e3o estava bem, tinha ido de Cidade Jardim para a G\u00e1vea s\u00f3 para participar de um espetacular plano de corrida com RED CAP montado por Irigoyen, ningu\u00e9m poderia imaginar que ele \u00e9 que seria o \u201cfaixa\u201d. Mas a arte e o engenho desse criador, profundo conhecedor, contrariaram os pr\u00f3prios fatos. Vale lembrar a surpresa de Ubirajara Cunha ao tomar conhecimento \u00e0 hora de montar do sensacional plano, e a categoria do mestre Irigoyen no percurso.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu pessoalmente, j\u00e1 estou acostumado com as iniciativas tomadas pelos j\u00f3queis que habitualmente montam para mim, contrariando n\u00e3o instru\u00e7\u00f5es, j\u00e1 que procuro apenas lembrar as caracter\u00edsticas do cavalo, e um ou outro detalhe, mas o modo que normalmente iria se processar o p\u00e1reo. Ultimamente, Edson Amorim ganhou de ponta a ponta com GOURMET em 1800 metros \u00e0 noite, quando tudo fazia crer que ele correria no bolo, em fun\u00e7\u00e3o de correr pela primeira vez \u00e0 noite, de vir de parado (cerca de seis meses) e de ter ganho na corrida anterior, correndo colocado para acelerar na reta; Edson entendeu que o ritmo ia ser devagar, e resolver ir para a frente. Com o Bolino, ent\u00e3o, nem se fala; como monta habitualmente para mim h\u00e1 vinte e tr\u00eas anos, conhece os cavalos, seus pais e m\u00e3es e, em muitos casos, at\u00e9 os av\u00f3s, tendo montado todos, um dos seus grandes segredos \u00e9 aliar essa familiaridade ao seu instinto e sensibilidade.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Instru\u00e7\u00f5es-ordens s\u00e3o muito perigosas, pois al\u00e9m de dependerem muito do entendimento e da capacidade de quem as da e de quem as recebe, s\u00e3o sempre dadas sobre um imponder\u00e1vel, pois mesmo na eventual previsibilidade de uma corrida, paira sempre a incerteza.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Instru\u00e7\u00f5es-esclarecimentos cabem sempre, s\u00e3o necess\u00e1rios, pois pelo menos atualizam ou relembram os detalhes mais importantes, al\u00e9m dos mais, mesmo os melhores profissionais, \u00e0s vezes, se rotinizam, montam como profiss\u00e3o, executam seu trabalho de forma mon\u00f3tona, o que em corridas de cavalos significa montar de modo autom\u00e1tico, f\u00edsico, quase impessoal, cumprindo uma obriga\u00e7\u00e3o e sem inventiva. As instru\u00e7\u00f5es-esclarecimentos ajudam a afastar esse perigo, provocando o racioc\u00ednio, despertando o lado da sensibilidade, da perspic\u00e1cia daquele que, naquele momento, passa a ter toda a responsabilidade, pois \u00e9 quem vai, al\u00e9m de passar por um risco f\u00edsico calculado, defender um mundo de interesses e ainda o nome do seu conduzido.<\/p>\n<p class=\"MsoNormal\">\n<p>(Artigo escrito em Junho de 1982).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 comum um j\u00f3quei correr mal e depois atribuir seu mau desempenho \u00e0s instru\u00e7\u00f5es recebidas antes do p\u00e1reo pelo propriet\u00e1rio ou treinador. A habitual conversa pr\u00e9via com o j\u00f3quei faz parte da rotina e, muitas vezes, \u00e9 rid\u00edcula e desastrosa. 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