POR ONDE CAMINHA A EUROPA, por Sergio Barcellos » Jockey Club Brasileiro - Turfe

POR ONDE CAMINHA A EUROPA, por Sergio Barcellos

POR ONDE CAMINHA A EUROPA

por Sergio Barcellos

 

O primeiro semestre do ano é sempre um período de festa para o turfe europeu.

Nele, são realizadas as duas principais tríplices-coroas do continente, a inglesa e a francesa, além do espetacular “Meeting de Ascot” – uma semana inteira de corridas – entre casacas, cartolas e a maciça presença feminina das mulheres de pernas longas e lábios rosados no “Ladies Day”, que cavalos puro sangue e mulher bonita sempre andaram juntos na tricentenária história do thoroughbred.

Depois do Derby de Epsom, do Oaks, das duas milhas dos Guinéus de Newmarket, do Derby da França, do Prix de Diane, dos Grupos I de Ascot – alguns dos quais estão hoje entre os de maior “rating” do mundo –, dá para se ter uma boa idéia de onde caminha a Europa, berço e princípio do cavalo de corrida.

Terminado o mês de junho, parece razoável tecer algumas considerações a respeito. Como se segue:

(i)              Somente três da lista dos maiores 40 reprodutores por somas ganhas, Galileo (foto) e Sea The Stars (os dois primeiros) e High Chaparral (vigésimo oitavo), venceram em 2.400 metros quando em campanha. Dos demais, 21 são sprinters (53%) e 14 (35%) são milheiros. Não há nenhum stayer entre os primeiros 40 maiores reprodutores da Europa.

(ii)              Apenas cinco dos 40, a saber: Galileo, Sea The Stars, Teófilo, Mastercraftsman e American Post, conseguiram gerar produtos com uma distância média igual ou superior aos 2.000 metros. Esta constatação, resulta, de um lado, da progressiva diminuição das distâncias do calendário do velho continente, principalmente no turfe inglês. De outro, da incapacidade de vários reprodutores chamados “de velocidade” conseguirem produzir animais acima de seu registro funcional.

(iii)              A linha masculina de Danzig domina francamente o panorama do turfe europeu, com nada menos que 18 reprodutores entre os 40 primeiros: 9 deles através de Danehill e outros 9 através de Green Desert. Depois de Danzig, vem a linhagem Mr Prospector (7 reprodutores, dos quais 4 via Gone West). Seguem-se: Polar Falcon (4), Giant’s Causeway e Sadler’s Wells (3 cada um).

(iv)              Trinta reprodutores descendem em linha masculina de Northern Dancer e todos os 40 da lista veem de Phalaris  (leia-se, o divisor de águas entre o cavalo de corrida do passado e o do presente, a maravilha genética criada por Lord Derby).

(v)              Para não ficar atrás, uma égua, Urban Sea (Miswaki e Allegretta, por Lombard), ganhadora do GP Arco do Triunfo (Gr.I), família 9h do Stud Book Internacional – cuja  linhagem materna é tipicamente alemã – é a mãe de Galileo e Sea The Stars, os dois irmãos uterinos que governam as estatísticas do continente.

[NOTA – A busca permanente por animais inteiramente sãos e com algumas características peculiares, entre elas, a de jamais terem sido medicados quando em corrida, é um fator, dir-se-ia cultural, da criação alemã. Além disso, eles não temem cruzar tipo sobre tipo e dão preferência ao primado da distância e da durabilidade. Por outras palavras, criam cavalos de corrida da mesma forma que constroem Mercedes, BMW’s e Porches, ou seja, feitos para durar.

A consequência prática deste longo – e praticamente imutável – processo de seleção, foi o de transformar as matrizes alemães em excelentes “outcrossings” para as linhagens paternas, principalmente as de Northern Dancer e Mr Prospector, prevalentes no turfe moderno.

Não por outra razão, hoje é possível ver nos leilões de Baden-Baden a presença de grandes criadores em busca de algo, senão novo, mas certamente diferente, que ofereça uma alternativa à já excessiva consangüinidade dos pedigrees.

Ao longo dos anos, cavalos criados sob a ótica dos rigores e pontualidades germânicos, estão nos pedigrees de excelentes corredores e reprodutores, desde  Bella Paola (Oaks), Pia (Oaks), Slip Anchor (Derby Stakes), Kazzia (Oaks), Sagace (Arco do Triunfo), Hold On (Derby da Irlanda), até, mais recentemente, de Blue Canary (Derby francês), Hurricane Run (Arco do Triunfo), Le Havre (Derby francês), Manduro (Jacques Le Marois), Stacelita (Prix de Diane) – e,  claro, Galileo e Sea The Stars.

E nomes como os históricos Ticino e Neckar, foram seguidos por cavalos chamados de Konigssthul, Dschingis Khan, Surumu, Acatenango, Lombard (pai de Allegretta), o extraordinário Monsum, etc, sem que isso continuasse a provocar curiosidade nos anais do turfe mundial. Um prêmio à coerência nesta vida.]

(vi)              Na classificação por somas ganhas totais, os 10 primeiros pais são: GalileoSea The Stars (que o Aga Khan fez questão de estacionar em seu haras após sua brilhante campanha nas pistas, embora não tivesse diretamente nada a ver com o animal) – DubawiShamardalInvincible SpiritLe HavreLope de VegaKyllachyDark Angel e Kodiac.

(vii)              Por número de vitórias de seus produtos, a estatística muda um pouco. Os cinco primeiros são: Galileo (69) – Shamardal  e Kodiak (65) – Kyllachy (62) – Kheleif, Footstepinthesand e Acclamation (60). E pela percentagem de ganhadores de provas de Grupo, novamente Galileo lidera com 11,67%, seguido de Sea The Stars com 7,78%, Dubawi com 6.62%, Wooton Basset com 5,58% e Fastnet Rock com 4,55%.

(viii)             No que respeita ao primado da velocidade pura, aqui entendida como os percursos dos 1.000 e 1.400m metros, as distâncias médias dos produtos dos principais reprodutores europeus nesta primeira metade do ano são as seguintes: Kodiac (três quartos irmão de Invincible Spirit, 1.288 m) – Zebedee (1.334 m) – Exceed and Excel (1.350m) – Showcasing (1.378 m) – Acclamation (1.394 m) – Kheleyf (1.408 m). Não há nenhum cavalo francês entre os sprinters acima.

[NOTA II – Ao contrário do que se possa imaginar, o turfe inglês está entre aqueles que mais cultua e valoriza a velocidade no cavalo de corridas.

E isso desde os lendários The Tetrarch e Mumtaz Mahal (filha de The Tetrarch, tordilha manchada como ele, considerada por muitos a potranca mais perfeita fisicamente da longa história do cavalo de corrida. E uma das mais rápidas.)

Aliás, de Mumtaz Mahal, família 9c, descendem gigantes do turfe como Mahmoud (Derby Stakes em recorde), Nasrullah (seis vezes ganhador da estatística de reprodutores dos EUA), Migoli (Arco do Triunfo), Abernant, Ginetta, Petite Etoile (donde Zarkava), Shergar, etc.

A tradição inglesa de apreciar juvenis precoces e velozes continuou através dos tempos, ao ponto da Inglaterra ser reconhecida como a terra da velocidade no thoroughbred. Não causa espécie, pois, que o preço das coberturas dos reprodutores capazes de transmiti-la aos seus descendentes tenha sempre um ótimo valor de mercado.

O que torna ainda mais notável o feito da excepcional Black Caviar, que saiu da Austrália, viajou meio mundo, desceu na Ilha, entrou na raia dias depois, e bateu os maiores especialistas ingleses numa semana de Ascot memorável. Não por outro motivo, a Rainha fez questão de conhecê-la de perto.]

Algumas observações

De tudo, fica evidente que a linhagem Northern Dancer veio para ficar. Eras sobre eras passarão até que se encontre uma outra corrente de sangue que se equipare à do pequeno gigante canadense da Windfield Farms. Simplesmente, porque é ele hoje quem consegue transmitir em linha direta – incrível isso – as duas maiores virtudes do cavalo de corrida: músculo e mental (esta última aqui entendida como “vontade de vencer”).

E a dominância genética parece ser apenas uma corrida de bastão entre corredores e reprodutores de primeira ordem. Desde Nijinsky (de sua primeira geração no haras), a Nureyev, The Minstrel, Nigh Shift, Northern Taste (que mudou para sempre a criação japonesa), até Danzig (o melhor vetor de velocidade do turfe do século XXI), Sadler’ Wells, e agora, Galileo e Sea The Stars. Tudo isso apenas para citar alguns dos representantes masculinos da linhagem.

Mas esta dominância não deve causar espécie, pois ela é uma característica básica dos 350 anos de seleção do puro sangue de corrida.

No princípio, era Eclipse, ou seja quase 85% da linhagem que ganhava corridas. Fora de Eclipse, não havia salvação. Séculos se passaram, e depois dele veio Saint Simon, “o cavalo mais bonito que o mundo conheceu e o melhor que jamais usou um selim de corrida”, segundo Tesio. Aliás, foi em cima de Saint Simon que o coronel Vuillers, assessor do velho Aga Khan, montou seu famoso “Mapa de Dosagens”, que tentava identificar a maior quantidade possível de sangue Saint Simon nos pedigrees dos séculos XIX e XX.

Em determinado momento do segundo quarto do século XX, Tesio resolveu criar uma cópia de Saint Simon e o resultado foi um certo Nearco, em cujo pedigree até a sexta geração existem 16 cruzamentos sobre Saint Simon. E o bastão genético foi entregue a Nearco, que hoje é hoje responsável por mais de 55% dos ganhadores clássicos do turfe de nossos dias.

E o resto da raça em termos de linhagem masculina? Boa pergunta. O resto é Native Dancer, uma das maravilhas iniciadas na Inglaterra por Lord Derby e depois transferida para o outro lado do Atlântico, quando a América começou a se tornar uma potência mundial. De Native Dancer, veem 35% dos cavalos clássicos deste século, principalmente via Raise A Native – Mr Prospector. Portanto, para todas as demais linhagens masculinas do thoroughbred sobram míseros 10%.

Na verdade, a partir de 1961, e já lá se vão mais de 55 anos, um produto da mistura dos dois – Nearco com Native Dancer – deu origem a uma pequena bola de músculos, com a cabeça curta tipicamente árabe, extremamente larga na testa e um magnífico espírito competitivo. Levado a leilão por seu criador com o preço- base de US$ 25,000, à época, não encontrou comprador. Talvez, o tenham achado pequeno demais, ou, talvez, o fado interveio e ele retornou ao criador. Era ninguém menos que Northern Dancer. O resto é história.

Em resumo, como fez com Eclipse, depois com Saint Simon, depois com Nearco e Native Dancer, o mundo do turfe continua a prestar uma solene reverência, quem diria, à consangüinidade.

E quanto mais Northern Dancer, ou Northern Dancer com Native Dancer, melhor. Irrelevantes quem sejam seus respectivos  “emissários”, que eles são muitos e todos fantásticos. Se um dia foi Nijinsky, hoje é Danzig – Danehill, ou, novamente, Nearco via Halo – Hail To Reason – Sunday Silence, nos confins da Ásia. E se um dia foi Mr Prospector, hoje é Raise A Native – Mr Prospector – Gone West. E isso não para, tampouco, dá sinal de cansar.

Então, quem tem razão é Tomaso di Lampeduza: “Tudo tem que mudar para permanecer como é.” Se isso é verdadeiro na vida, não sei. Mas em cavalo de corrida, é.

Junho de 2016               

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