A edição do site norte-americano Thoroughbred Daily News trouxe há alguns anos um artigo que é de grande valor para os dias atuais, artigo escrito por alguém que, além de conectado às corridas de cavalo, esteve por muito tempo envolvido num mercado onde a exigência por inovações se dá numa velocidade das mais altas. Ex-executivo da General Motors, turfista e colunista do Thoroughbred Daily News, Edd Roggenkamp assinou, em seu espaço no periódico, texto entitulado “New Ideas For Horse Racing Do Exist”, que nada mais é do que uma lista de 5 itens, correspondentes a 5 propostas do articulista para a sobrevivência do esporte, como bem sugere o nome da matéria.
Abaixo, “New Ideas For Horse Racing”, de Edd Roggenkamp, segue transcrito, em tradução livre.
1) Aceitar a realidade financeira de que o movimento “ao vivo” é “história”.
Na década de 1980, 90% do total apostado nas corridas dos Estados Unidos era movimentado pelo próprio público dos hipódromos. Hoje, tal público representa apenas 10% do montante geral de apostas. E é a partir deste movimento geral que ocorrem os investimentos nos hipódromos, e incrementam-se as premiações destinadas aos proprietários (excetuados, aqui, os US$ 400,000,000 do subsídio das “slot-machines”). Os “dias dourados” em Keeneland, Del Mar e Saratoga são maravilhosos, mas é importante frisar que cada hipódromo encara uma realidade diferente quanto à audiência dos turfistas, e para muitos destes hipódromos o futuro mostra-se pautado nas apostas advindas de gente que se encontra distante, fisicamente falando, dos mesmos. Nisso residem boas novas, pois eletronicamente as corridas podem alcançar uma audiência muito maciça, em qualquer lugar do planeta. E, se nós perdermos algumas faixas do metrô para que possamos desenvolver Hollywood Park, Bay Meadows, Detroit etc., elas podem perfeitamente ser realocadas a um custo mais baixo em outros espaços e, assim, garantindo maior investimento nas atividades dos hipódromos. Alguns luxos, e sofisticações, para o público que acompanha as corridas nos próprios hipódromos, podem e irão co-existir juntamente dos simulcastings. Mas não é todo mundo que pode dar uma “escapada” e ir assistir às corridas. Francamente, é hora do pessoal da velha guarda, como eu, parar de reviver os “velhos tempos”, os “anos dourados”, e criar expectativas a respeito de voltarmos a ter arquibancadas lotadas.
A partir do momento em que os hipódromos passam a ter boa parte de suas apostas proveniente dos simulcastings, é necessário que a indústria tenha um franco, realista e integrado plano de negócios para todos estes hipódromos. O grande movimento de apostas “ao vivo” de Keeneland, e os programas de simulcasting e jornadas noturnas de Delta Downs, onde 97% das apostas são realizadas por pessoas que não se encontram no hipódromo, deveriam estabelecer uma relação mútua de receitas, que seria justa para ambas. Repito, para ambas. Nosso modelo tradicional baseia-se numa espécie de guerra entre os hipódromos por um pedaço de uma “torta”, que está cada vez menor. Ao invés disso, a indústria deveria trabalhar em conjunto, coesa, para fazer a “torta” crescer, e assim todos poderiam pegar uma “fatia” muito maior.
Nós não estamos sozinhos nesta situação. A NFL (liga profissional de futebol americano) perde 1 milhão de espectadores num estádio durante um jogo da semana do campeonato, mas ganha outros 22 milhões que acompanham aquela mesma partida pela televisão. A NFL conta com 96% de audiência de “simulcasting”, para exemplificar utilizando a “nossa” terminologia. A NFL possui um plano de ação integrado. Numa partida, 1/3 da receita corresponde ao público que assiste ao jogo no estádio, e é dividido, diretamente, pelos dois times envolvidos naquela partida. Já os outros 2/3 da receita, que advém da televisão, são repartidos de maneira igualitária entre todas as equipes da liga, independentemente de sua representação no mercado – por entender que eles – somente – unidos produzem um grande espetáculo para a audiência nacional.
2) Pessoas adoram apostar, então nós precisamos lhes dar jogos em que consigam, e irão, apostar.
Nós precisamos urgentemente de uma nova modalidade de apostas para o público “leigo”. Na pequena cidade onde cresci, GeeGee, uma senhora que era minha vizinha, apostava todos os dias na “daily double” (modalidade de apostas oferecida por vários hipódromos, e também para corridas de cães), desde que encotrasse alguém para levar a sua aposta até o hipódromo. Se ela estivesse viva, temo que GeeGee estivesse apostando diariamente na loja de conveniência da esquina. Mas não nos cavalos, e sim na loteria.
Nos últimos 20 anos, o número de casas lotéricas aumentou absurdamente, seu movimento anual é de US$ 78 bilhões (7 vezes o que é arrecadado pelas apostas em turfe nos Estados Unidos) e estes números crescem diariamente. Neste faturamento, a retirada da loteria é de 35%, ou seja, o dobro da retirada nas corridas de cavalo. E enquanto isso as apostas em corridas de cavalo estão estagnadas. Os US$ 11,5 bilhões apostados atualmente no turfe representam o mesmo valor, descontada a inflação, de 20 anos atrás, e ainda acusam um declínio do ápice deste período, quando foram vendidos US$ 16 bilhões em apostas turfísticas no ano de 2006. Razões pelas quais as pessoas apostam na loteria: rapidez, facilidade, conveniência, prêmios enormes, e a desnecessidade de qualquer habilidade para apostar. Por que não fazer o mesmo com as corridas de cavalo? Isso iria requerer cooperação entre os hipódromos, algumas alterações nas leis estaduais, assim como no caso das slot-machines – e nós de fato nos empenhamos na luta pela legalização das slot-machines. Há tecnologia, infraestrutura e público disponíveis para isso. Nesse contexto, a boa notícia é que os americanos estão apostando altas quantias. A má é que não fazem isso nos hipódromos. E isso não significa que os americanos não gostam das corridas, ou dos cavalos. Acontece que nós estamos invisíveis, fora de seu alcance. Pense em excitantes fórmulas de apostas em corridas de cavalo (“picks”, acumuladas etc.; seja criativo!). Eu não tenho a pretensão de sugerir, ou descobrir um modo de desenvolver essas apostas atraentes, em entrar nesse mérito da questão, mas o aviso está dado. O “segredo” é vender essas “poules” através de um vasto e conveniente sistema, e selecionar os números ganhadores através de cavalos, que teriam a mesma função das bolinhas de pingue-pongue num sorteio de loteria.
Um dado: se apenas 5% do que é apostado em loterias, nos dias atuais, fosse apostado nas corridas de cavalo, haveria verba suficiente para imediatamente incrementar, investimentos e prêmios nos hipódromos, em 50% a mais do que se oferece e investe, atualmente. É válido reforçar também que não há qualquer motivo que leve a crer na possibilidade destas novas apostas, direcionadas a um público totalmente novo atentido de uma maneira mais conveniente, oferecer riscos às apostas ditas “tradicionais” do meio turfístico. As modalidades tradicionais seguiriam existindo, intactas, sem quaisquer alterações, e com índices de retirada e montantes de receita completamente separados das “novas” apostas. As “velhas” e “novas” apostas podem co-existir.
Talvez, ainda fosse o caso de repensar a questão das franquias de lojas de apostas, a primar pela qualidade e pela localização em locais estratégicos (mas, por favor, acabando de uma vez com os imundos “tradicionais” OTBs – N.T.: os OTBs são os chamados Off Track Betting, que correspondem às casas de apostas do sistema brasileiro). Isso me faz lembrar os longíquos tempos em que os comandantes do McDonalds estavam tentando convencer seus gerentes e diretores que os “drive-thru” eram de um grande potencial. Me contaram que a maioria dos gerentes mais velhos da rede, tiveram nisso um “sapo” difícil de “engolir”. Hoje em dia, 60% das vendas do McDonalds vêm do sistema de “drive-thru”. Está na hora de desenvolver apostas a fim de atrair um vasto, novo e ainda “inexplorado” público.
3) Aproveite ao máximo a população disponível de cavalos de corrida
Qualquer administrador de hipódromos irá lhe dizer que páreos com lotes “cheios” rendem um volume de apostas maior. Infelizmente, por outro lado, retrógrados mecanismos de controle dos hipódromos desencorajam os treinadores de inscrever seus animais em outros locais. É comum haver pressão, ou até mesmo a retirada de cocheiras, de treinadores que o fazem. Eu entendo plenamente o ponto de vista destes hipódromos, mas este olhar singular não é salutar para as corridas de cavalo, como um todo.
E se um cavalo de um determinado treinador não está pronto para aquele “meeting” em específico naquele hipódromo, se o páreo acaba não formando, ou, então, se o páreo recebe inscrições em excesso e aquele cavalo acaba ficando de fora da prova? Enquanto essa política de restrição pode ser boa para o hipódromo, para as outras duas vertentes da situação, que são os proprietários e os apostadores, ela não é. Trailers, carros boxes e estradas interestaduais mudaram completamente a nossa ideia a respeito do transporte dos cavalos, bem como do empenho em viajar para correr em outros locais. O nossos cavalos radicados no Kentucky viajam facilmente por 6 estados vizinhos para competir, da mesma maneira como ocorre em regiões diversas. Num exemplo fático: um cavalo alojado em Ohio poderia viajar e competir em Indiana. Um outro, treinado em Indiana, poderia ser inscrito para correr no Kentucky. E um terceiro, alojado no Kentucky, poderia ser transportado até Ohio para competir. Ocorre que estes 3 cavalos, entretanto, estão limitados a correr nos hipódromos em que estão radicados, em virtude da política quanto ao tema. Enquanto a logística facilitada para se viajar é relativamente nova, as políticas de restrição de transporte, de pagamento de inscrições, nos hipódromos são completamente retrógradas. É hora de repensar as políticas de transporte, e a distribuição de prêmios a fim de atrair mais animais e, ainda, amenizar duas das maiores despesas experimentadas pelos proprietários.
4) Vamos parar de tratar com empáfia aqueles que financiam o nosso esporte
Se um show de rock não vende ingressos o suficiente para cobrir os gastos de um grande “astro” da música, irão os responsáveis pelo show agendar novas datas deste show? Quando Satish Sanan trouxe a informação à tona, há alguns anos, eu fiquei chocado em descobrir que a maioria das nossas provas graduadas dão prejuízo. Segundo ele, em 2008, das nossas 566 corridas de grupo, apenas 49 geraram um movimento de apostas suficiente para cobrir as suas próprias despesas de premiação. Já as outras 277 provas não venderam apostas suficientes para cobrir a premiação, sendo que em 27 o total apostado (montante bruto) sequer ultrapassou o valor oferecido em prêmios. Pense nisso, essas estatísticas destroem o mantra de que a chave para o nosso futuro é uma maior quantidade de provas “qualificadas”.
O que chama atenção é que as nossas melhores corridas estão sendo subsidiadas por fontes secundárias do esporte. O calendário clássico continua a existir porque ele demonstra o melhor do esporte e da criação, mas obviamente o mecanismo de fundos do turfe (as apostas) não enxergam isso desta maneira, ou então gera receita suficiente para manter este tipo de “demonstração”.
O verdadeiro “cavalo operário” da indústria turfística é o corredor mediano de claimings. Um claiming de US$ 10,000, cheio de competidores, em forma o suficiente para atrair a atenção dos apostadores, irá quase gerar nas apostas um valor suficiente para cobrir toda a despesa tida com a premiação daquele páreo. Portanto, perece estranho a indústria atender às “estrelas” mas ignorar aqueles que cuidam do “trabalho pesado”. Os hipódromos precisam reconhecer que os proprietários e treinadores de cavalos medianos representam os principais fundos desse mecanismo, bem como tratá-los tais quais grandes fontes de receita que eles são. Talvez se os hipódromos intensificassem a experiência do “ser” proprietário em todos as suas classes, isso poderia atrair mais pessoas a possuir cavalos de corrida. São poucos os hipódromos que reconhecem a importância dos treinadores e proprietários que “abastecem” o espetáculo. A recente inauguração de um lounge direcionado a proprietários em Turfway Park, completamente apartado do clássico, porém enfadonho, paddock, é um passo na direção correta. Qual será o próximo?
Eu frequentemente ouço que nós deveríamos realmente “encorajar” alguns hipódromos de menor expressão a “cair fora” do negócio, de tal modo a melhorar a qualidade das corridas em termos gerais, reduzir a criação de cavalos de baixa qualidade e canalizar as apostas para hipódromos de maior importância. Não há dados, nem estatísticas, dando conta de que quando um hipódromo pequeno “fecha”, as condições do esporte como um todo melhoram.
Muitas das nossas estrelas (Mott, Asmussen, Lukas, McPeek, McCarron, Bailey) começaram em hipódromos menores, que representam a faceta interiorana do esporte. Quando o Pinnacle Racetrack, em Detroit, fechou há 2 anos e deixou uma população local de 5 milhões de pessoas sem um hipódromo, nenhum hipódromo em Chicago, Ontario ou Ohio, ou as corridas em geral, lucararam, muito menos ganharam movimento. O mesmo vale para os cavalos, cuja metade daqueles corredores de Michigan são cavalos bem criados no Kentucky, que, contudo, nunca corresdonderam às expectativas dos seus bem intencionados criadores. A questão é, não dar um tiro em nosso próprio pé. Nós gostaríamos de ser supreendidos ao saber que nos maiores hipódromos, as suas receitas de simulcasting (boa parte dela apostada em hipódromos menores, nas jornadas à noite, durante os meios de semana e, também, fora de temporada) sustentam sua programação clássica, e consistem na diferença entre lucro e extinção.
5) Paremos de enxergar outros hipódromos como “numa competição”
Hipódromos tomam decisões todos os dias que talvez soem bem internamente, mas não para toda a coletividade turfística. Por que eu, enquanto um apostador semanal, preciso para apostador em cada hipódromo, de um intermediário? Por que? Porque os próprios hipódromos tornaram a coisa assim, complicada. A maioria dos hipódromos somente providenciou seus ADWs (N.T.: a sigla corresponde à expressão Advance-Deposit Wagerin, que nada mais são do que os softwares de apostas instantâneas, onde o apostador deposita uma quantia antecipada numa conta e realiza, ele mesmo, a sua aposta, sem a necessidade de recorrer a um vendedor de poules) internos depois que “terceiros” já haviam desenvolvido, e quando o fizeram cada um deles utilizou-se de um sistema diferente. Cada hipódromo me desejava enquanto a possibilidade de eu abrir uma conta individual de depósitos antecipados. Alguns hipódromos providenciaram vídeos ao vivo, muitos não. Os hipódromos, com a sua mentalidade individualista a respeito de lucros apartados de outros hipódromos, me forçaram a recorrer aos ADW, reduzindo assim sua margem de lucro, bem como os prêmios dos proprietários.
Se os hipódromos houvessem trabalhado conjuntamente, eles poderiam ter economizado o custos de desenvolvimento de seus respectivos softwares, estabelecido um mecanismo único no mercado de depósitos (a exemplo de um cartão de crédito), sem contar a maneira fácil de de se apostar através deste software, e o seu custo-benefício imbatível. Trabalhando em conjunto, os hipódromos poderiam ter desenvolvido um site único de transmissão de corridas, às quais eu poderia assistir de maneira gratuita, e de qualquer lugar, e assim eles me “ganhariam”. Ao invés disso, cada hipódromo optou por seguir sozinho nesta jornada, e no final das contas centenas de milhões de dólares acabaram canalizadas para os “intermediários” dos ADW, em prejuízo dos apostadores (mais prêmios), dos próprio hipódromos (margens maiores de lucro) e dos prêmios (mais receitas) para os proprietários.
Eu continuo a ouvir esta apavorante história, em que no final o turfe adormece diante de uma grande oportunidade, assim como pode estar dormindo diante de uma, bem agora. Este é somente o mais recente exemplo da resistência da indústria turfística em mudar até todos estejam atuando daquela maneira e, claro, as cocheiras comecem a perder seus cavalos. As oportunidades continuarão a existir no caso dos hipódromos trabalharem conjuntamente, em prol do turfe como um todo. Exemplificando: um programa de sábado que me proporcione a oportunidade de, assistir e apostar, em corridas clássicas durante todo o dia; modalidades de apostas que me permitam jogar em corridas clássicas disputadas em hipódromos diferentes, numa mesma data; cooperação em programas, e políticas, de inscrições e alojamentos remunerados. Nunca é tarde para começar a fazer aquilo que é mais inteligente, ou lógico, para a sua clientela. Algumas pessoas me dizem ser tarde demais para a criação de uma rede de ADW unificada, e eu respondo que consumidores trocam de celulares, provedores de internet e bandeiras de cartão de crédito todos os dias, mas somente e quando o novo fornecedor possui uma ideia melhor do que a dos outros. Então, vamos tentar pensar em novas ideias.
A roupagem, o “lado de fora”, aparente a todos, das instituições que falam pelas corridas de cavalo, é respondida por talentosos criadores, e haras. Obviamente, os seus interesses e esforços se dão focados no setor do turfe correspondente à criação, e aos leilões. Mas para angariar proprietários bem abonados, e atrair um amplo interesse junto a apostadores, e milhões de dólares num novo movimento de apostas advindo da classe média norte-americana, é necessário um pensamento, assim como uma mentalidade, completamente diferente.
Os proprietários possuem um considerável papel no turfe, e atuam como alguns dos mais brilhantes e inovadores investidores do país. Muitos são líderes nas suas respectivas áreas profissionais, e sabem como atingir um grande público. O turfe precisa aproveitar o conhecimento destas pessoas em relação a design, implementação e marketing capazes de produzir novas ofertas no ramo das apostas, e práticas eficazes que poderiam fazer uma enorme diferença num esporte onde, nas palavras de Ray Paulick (N.T.: Ray Paulick é um dos mais conhecidos cronistas do turfe estadunidense, e foi a partir de uma matéria de sua autoria que surgiu a coluna ora traduzida), “novas ideias fluem como uma gota”. Nós possuímos conosco novas, e excitantes, ideias, muitas das quais, inclusive, ideias de senso comum. O que nos falta é uma indústria, um sistema ou uma organização capaz de implementar algumas delas.
Informações do site: www.abcpcc.com.br

