Bijou e Clematite (Milton Lodi) » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Bijou e Clematite (Milton Lodi)

               Houve época em que no turfe carioca havia um Stud de nome Chamma. Segundo consta, eram seis irmãos de origem libanesa, que entenderam de dividir-se em dois grupos. O primeiro era constituído pelo irmão mais velho, de nome Jorge, e os dois mais moços, Nelson e Washington, que constituíam o Stud Chamma, e viviam e trabalhavam no Rio de Janeiro, e os outros três irmãos, o 2º, o 3º e o 4º, domiciliaram-se e trabalhavam em São Paulo. O irmão mais velho integrou-se nos altos negócios, era figura conhecida na chamada alta sociedade, e Nelson e Washington eram assíduos freqüentadores das corridas da Gávea.

Esses dois irmãos tinham os seus corredores com o treinador Adair Feijó, filho de um dos ícones do treinamento na época, Oswaldo Feijó, treinador do Haras Mondesir, e que com a sua morte foi substituído por Mario de Almeida. Adair Feijó era considerado bom na profissão, mas terminou mal a sua vida, em função de excesso de bebidas alcoólicas e de um devastador câncer. Mas nos bons tempos do Adair, o Stud Chamma tinha uma boa égua de nome Bijou, e a cada vitória dela os irmãos Nelson e Washington ficavam com uma alegria contagiante. Nelson não entendia nada, e procurava se impor na comunidade turfística falando do que não entendia, como a necessidade da grande alimentação de alfafa, que seria segundo ele uma grande geradora de energia. As pessoas riam dele, pois a maior virtude da alfafa era ser uma grande fixadora de cálcio. Dos que riam de Nelson estava o bom irmão Washington, sempre de bom humor, inteligente, e muito amigo do Gustavo Philadelpho Azevedo, esse uma das principais figuras turfísticas do Rio. Quando a Bijou encerrou a sua campanha nas pistas havia que ser encaminhada para um haras que aceitasse pensionistas. Eram poucos.

Eles conseguiram colocar Bijou em um dos melhores, se não me falha a memória no Haras Patente, à época um dos bons paulistas. Talvez por coincidência, o Patente foi o primeiro haras da região de Campinas que teve uma ótima plantação de alfafa, não sei, o que sei é que, após dois anos o Washington me procurou e disse que o Nelson e ele queriam mudar a Bijou para outro haras, pois os dois primeiros anos não tinham tido bom resultado, a égua ficava cheia mas abortava no meio da gestação. Ele havia prometido ao irmão Nelson que ia achar outro haras para receber a Bijou, e ele havia me escolhido. Eu disse ao amigo Washington que no Ipiranga eu só tinha éguas minhas, eu não recebia pensionistas, mas que poderia ajudá-lo a encontrar um haras. Mas Washington insistiu muito, e terminou que eu tive que fazer uma exceção, condicionada a não intervenção do irmão dele Nelson, que no meu entender era insuportável. Uns dias depois no prado, encontrei-me com os dois irmãos, e logo o Nelson me perguntou quanto eu cobraria pelo trato mensal da Bijou. Eu disse a ele que cobraria o mesmo que custavam as minhas próprias éguas, 20 por dia. Foi o suficiente para o Nelson fazer um escândalo, chamando a atenção de todos os que estavam perto. Ele achava o preço altamente abusivo. E enquanto Washington ria divertido, eu disse ao Nelson que no haras onde estava a Bijou há dois anos ele estava pagando 25 de diária, mas ele não precisava se preocupar, a partir daquele momento a entrada da Bijou no Ipiranga estava proibida, o Nelson que fosse bater em outra freguesia. Enquanto o Nelson perdia a arrogância e gaguejava, o Washington do lado ria às gargalhadas. O assunto deveria ter ficado por ali, mas eu não resisti ao amigo Washington, que prometeu que o contato referente à Bijou seria exclusivamente entre ele e eu, com o barulhento do Nelson sem se meter.

A Bijou foi para o Ipiranga, logo na primeira gestação abortou como de costume, e eu pedi ao Washington para ele tirar a égua de lá, no que fui atendido sem qualquer arranhão em nosso relacionamento. O bom Gustavo Philadelpho Azevedo, como bom amigo do Washington e meu, facilitava muito. A Bijou foi embora não sei para onde, e não me consta que tenha tido filhos, eu não sei, é o que me parece.

 

                 Outro caso semelhante ocorreu anos depois, se não me engano, quando o Ipiranga vendia coberturas. Um casal sempre muito bem vestido, e que freqüentava semanalmente as corridas, mandou uma boa ganhadora para ser coberta no Ipiranga, que havia encerrado a sua campanha nas pistas em mãos do treinador Paulo Morgado. Quando a Clematite chegou, foi constatado que ela era, ou estava, completamente cega. Eu entrei em contato com o proprietário, e ele me confirmou a cegueira, que havia ocasionado o encerramento da campanha nas pistas, e que eu fizesse o que fosse possível. Terminada a estação de monta, eu pedi ao proprietário para levar a égua, e para a minha surpresa, ele respondeu que não tinha para onde levá-la, que eu fizesse o favor de mantê-la no Ipiranga como pensionista permanente. Eu expliquei a ele que era impossível, essa eventual exceção abriria as portas para solicitações similares, e eu não podia concordar, ainda mais que a tal Clematite requeria cuidados muito especiais, não podia ficar solta com as outras éguas, etc. O proprietário disse que ele não tinha para onde levar a égua, e me fez um apelo. Eu disse a ele que se até o último dia daquele corrente mês ele não tirasse a égua de lá, eu providenciaria outro haras, e ele então seria avisado.

                 Hoje em dia há vários haras que normalmente aceitam pensionistas, mas à época não era assim.

                 Ser proprietário é uma coisa, ser criador é outra, às vezes eles se unem, mas são atividades diferentes.

 

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