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Platão – Milton Lodi

             Tive a sorte de poder presenciar e até de participar da época de ouro do Jockey Club de São Paulo, que a rigor culminou em mãos dos Presidentes Luiz Oliveira de Barros, de João Adhemar de Almeida Prado e de Hernani Azevedo Silva. Luiz Oliveira de Barros era destemido, um bom administrador para as coisas do turfe mas que mantinha o Clube em elevadíssimos gastos, mas como alguém poderia censurar um homem que corajosamente bancou pelo Clube a heroica jornada de maio de 1960, aquela das vitórias em Buenos Aires de Elizabeth, Major’s Dillema, Derah e Escorial, com isso balançando com a então supremacia do turfe argentino? Como apreciar o período seguinte, do acerto das contas, o do desejado equilíbrio financeiro e prestigio internacional, quando da implantação do Derby Sul-Americano, de um retumbante sucesso internacional?  E o que dizer de Hernani Azevedo Silva, que, recebendo do seu antecessor um clube financeiramente equilibrado e forte, fez investimentos principalmente na área turfística cujos reflexos perduram até hoje? Um homem de sociedade educado e de bom gosto, audacioso e inteligente, seguido por um banqueiro de muito sucesso, e que como criador e proprietário atingiu o topo do turfe, e ainda com o equilíbrio entusiástico de um empresário vencedor que dedicou-se à meritória tarefa da modernização e investimentos adequados a um mais que promissor futuro do turfe paulista. Tive o privilégio de acompanhar de perto a evolução que levou o turfe paulista a uma hegemonia incontestável, brilhante, prestigiada a ponto de deixar atrás bem longe o turfe carioca, que durante cerca de 40 anos era administrado de forma pessoal, individual, e que se tornando obsoleto pelo decorrer do tempo, só conseguiu subsistir e progredir a partir de 1992, com a ascensão do grupo oposicionista, então liderado pelo empresário, criador e proprietário de grande sucesso José Carlos Fragoso Pires. Mas voltando à época de ouro de São Paulo, entre muitos grandes pontos de sucesso foi a implantação do Posto de Fomento Agropecuário, em Campinas, mas conhecido como Posto de Monta. Coaraze destacadaAlém de um centro de higienização das éguas que para lá eram anualmente mandadas para garanhões de propriedade do JCSP como Coaraze(foto), Henri Le Balafré, Breeder’s Dream, Al Mabsoot, e muitos outros de excelentes procedências, o Posto de Monta era periodicamente o palco de importantes importações de éguas para a reprodução, que eram adquiridas na Europa, e até uma vez na Venezuela, quando da liquidação por morte do Príncipe Aly Khan, que havia feito um grande negócio com autoridades venezuelanas no sentido de alavancar a criação de cavalos de corrida naquele país. A parte meeira do Príncipe Aly Khan, que antes de ser um grande criador com o pai e um inteligente proprietário era um astuto comerciante. Em seu testamento, o Príncipe deixou todo o seu plantel que estava na Venezuela para uma filha, de nome Yasmin, que tinha por mãe uma artista de cinema de nome Rita Hayworth. O plantel foi desde logo leiloado, e o Jockey Club de São Paulo solicitou ao criador Roberto Seabra, grande amigo do Aly Khan, para comprar umas 20 éguas, para posterior revenda no Posto a preços de custo. Eu mesmo comprei uma, de nome Appealing, uma égua bem velha mas cujo pai era o lendário Hyperion. Ela me deu um potro que veio na barriga. Bom ganhador mas sem classe, e que terminada a campanha vendi para um haras menor. Esse cavalo, de nome It, em lugar de me dar a classe do Hyperion, me deu o mau temperamento dele.

Em outro leilão, esse na França, foram adquiridas cerca de 25 éguas. O JCSP apresentava aos interessados em adquirir um negócio peculiar, simples, cujo interesse era apenas de colaborar para a melhoria do plantel nacional. Cada interessado em comprar tinha que dar um sinal equivalente hoje a uns mil reais, e assim ficava habilitado a lançar no leilão. Eram compradas lá fora tantas éguas quanto os pingos, só podiam lançar aqueles que financeiramente haviam se manifestado, era limitado a compra de uma égua por inscritor, e se houvesse alguma desistência em função de falta de interesse pelas éguas então restantes, era liberada a compra de mais uma égua para os participantes. O leilão processou-se em um dia ensolarado no Posto. Compareceram todos os que tinham direito a comprar, mais alguns curiosos e ainda outros criadores arrependidos de não terem desejado participar na época prevista. Enquanto as éguas desfilavam em um grande círculo, duas grandes tábuas de apregoações apresentavam os nomes das éguas por ordem alfabética, outra com os nomes daqueles que tinham o direito de comprar, também em ordem alfabética. Nas mesas dos participantes estava a relação das éguas, com os seus custos até aquele dia, isto é, preço da compra individual, custos de papelada, estadia na França nos dias de espera para a viagem para o Brasil, transportes em geral, e estadia no Posto. Como na época não havia inflação, o valor do arremate era absolutamente real, era só arrematar, e aceitar as 10 promissórias com vencimentos mensais, naturalmente já deduzido o pingo financeiro inicial. Eu me lembro que o Hernani tinha uma lista preferencial com três nomes, os das mais caras. Todos os interessados tinham as suas listas de preferência. O primeiro candidato a comprar foi Roberto Seabra, o vigésimo quarto da relação alfabética. O seu nome foi retirado da relação dos interessados, assim como da outra tábua de apregoação o nome da égua adquirida. A torcida era grande, a cada sorteio um feliz e muitos desapontados. Quando o Hernani, do Haras São Luiz, foi sorteado, ele levantou-se e perguntou se podia desistir, já que as éguas por ele escolhidas já haviam sido compradas. Ante a concordância, ficou assim uma égua na sobra, um dos adquirentes ia poder comprar mais uma. Eu também fiquei entre os últimos, e escolhi uma égua grande, castanha escura, ossuda, de 4 anos filha de Fine Top em filha de Sayani. Chamava-se Arissa. Muito mansa, sanidade total, ela foi dada para o garanhão Kameran Khan, mais pelo físico mais consistente, mais “redondo”, com a retenção de equilibrar um pouco o tipo físico da égua.  O meu amigo e de todos Edmundo Pires de Oliveira Dias, que tinha um Haras no Posto de nome Morro Grande, pediu-me para que eu mandasse uma das minhas éguas para o reprodutor dele, chamado Sillage, um tordilho francês nascido em 1961, da linha alta Amber – Zucarello – Ortello. O Edmundo queria uma égua melhor para reforço do plantel do Morro Grande, que não era especial. Eu resolvi e mandei a Arissa. Entre a fase de parição e início de vida do potro que nasceu, tudo normal. Aconteceu que o transito de animais foi proibido, em função de violenta gripe equina que atingiu principalmente São Paulo e Paraná. E Arissa lá ficou presa por pouco mais de meio ano. De vez em quando eu ia ver a égua e o potro, chamado de Platão. Um dia o Edmundo me telefonou, me disse que estava na época do desmame do potro, o haras dele tinha uma área pequena, ele teria um eventual acidente, pois seria impossível isolar por completo a égua do potro. Eu fiquei sem saída, e disse ao Edmundo o que ele pudesse fazer de melhor, e que o risco era todo meu. Aconteceu o pior, a Arissa ficou desesperada com os relinchos do potro do qual havia se separado, tentou passar por uma cerca, deu-se mal, caiu sentada, quebrou-se, morreu. Pouco tempo depois foi liberado o transito, e o Platão foi para o Ipiranga. Platão era parecido fisicamente com a mãe, grande, castanho escuro, e super manso. A minha filha Vânia gostava muito dele. Platão correu e ganhou algumas corridas na Gávea, sendo que em sua última com o fantástico jóquei Juan Marchant. Terminada a campanha nas pistas, levei Platão para o Haras, não queria me desfazer dele. Certo dia, amanheceu morto. Exames posteriores atestaram que ele tinha uma insuficiência cardíaca.

A Vânia e eu ainda temos saudade do bom e amigável Platão.

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