O trabalho começa cedo. A exigência e a responsabilidade de fazer parte do seleto grupo de aprendizes da Escola de Profissionais do Turfe, localizada no Jockey Club Brasileiro, são das maiores. Mas nada disso parece ser uma barreira ou um motivo para a desistência de 10 jovens de idade entre 15 e 18 anos, dos mais variados lugares do Rio e do Brasil, que se candidataram a uma vaga na EPT este ano. Jovens com histórias diferentes, mas com um mesmo objetivo.
E não são poucas etapas. A seleção começa por volta das 9hs. Os candidatos preenchem uma ficha, uma espécie de apresentação no qual são relatados a filiação e documentação de cada indivíduo. Depois desta pequena apresentação, os jovens são conduzidos pela coordenadora da EPT, Juliana Dias, ao centro da escolinha. Por lá, os meninos e meninas informam, desta vez de forma direta, se já subiram em algum cavalo. Os que já montavam, vão para o teste sobre o animal, sob o olhar atento e clínico de Marcello Cardoso, ídolo das pistas e hoje coordenador técnico da instituição.
– Este primeiro momento é importante para sabermos como o candidato se comporta em
cima do animal. Se já montou, nós conseguimos avaliar bem. Mas a montaria, apesar de importante, não é fundamental para a entrada do candidato. Avaliamos uma série de elementos que levamos em consideração na hora de escolher quem será integrado – afirmou.
Como informado por M.Cardoso, montar é importante na seleção, mas não o fundamental. Por conta disso, Thamara, de 17 anos, mantinha a esperança. Com o sonho de ser joqueta desde menina, a jovem olhava atenta os outros candidatos que, ao contrário dela, já haviam tido contato com cavalos anteriormente.
– Nunca montei na minha vida, mas tenho uma vontade grande de me tornar joqueta. Acho o esporte fantástico, amo cavalo e tenho a esperança de entrar na EPT. Acredito que eu possa aprender rápido ficar em cima de um cavalo. Tenho muita vontade e o sonho de me tornar uma grande joqueta – revelou.
Depois do teste prático, os jovens candidatos são encaminhados para um time de quatro nutricionistas. Os profissionais pesam e analisam a altura de todos candidatos. Esses são dois pré-requisitos básicos para esta seleção. As primeiras eliminações acontecem nesta fundamental etapa.
Mais adiante vem a parte mais importante da avaliação, a entrevista. Um momento em que o candidato a aprendiz fica frente a frente com o conselho da EPT. Para muitos, a parte mais tensa dessas avaliações. Este conselho é composto pelos coordenadores Marcello Cardoso e Juliana Dias, pelos nutricionistas, Carlos Eduardo e Camila Gouveia, e pela gerente de turfe do JCB, Mayra Frederico.
– As histórias contadas para nós é de muito sofrimento, algumas são muito tristes. Ao longo do tempo você acaba se acostumando. Não podemos nos deixar levar por isso, temos de avaliar da melhor forma e mais profissional possível para escolher o melhor para todos – revelou M.Cardoso.
O coordenador se referia, de certa forma, à histórias como a de Antônio Francisco Rodrigues, de 18 anos, um dos candidatos a uma das concorridas vagas para a
escola. Antônio veio do Piauí, mas já rodou por quase todos os estados do Nordeste em busca do sonho de ser jóquei. Além de se tornar famoso correndo em cima de um cavalo, A. Rodrigues tem a necessidade de ajudar a família, que vive em condições humildes em sua cidade natal. O pai doente e a mãe sem trabalhar tornam a missão de Antônio quase que obrigatória no Rio de Janeiro. Com a voz embargada, o menino contou um pouco de sua história:
– Já fui cuidar de cavalos em Pernambuco e em outros lugares da região. Mas foi no Ceará que eu montei pra valer. Cheguei a ganhar dois páreos por lá. Ganhava R$ 600 para cuidar da cocheira. Fazia de tudo e cheguei a morar lá. Como eu mandava o dinheiro todo para os meus pais, passei fome, mas não desisti. Tenho que conquistar a vaga de qualquer jeito, o meu futuro e o da minha família está nessa chance.
Histórias de dificuldades são comuns nesta seleção anual. Mas, entre um candidato e outro, outras histórias vão sendo contadas. Menos tristes e até mesmo inusitadas, como a contada por Eloah, de 18 anos. Moradora de Bonsucesso, ela foi acompanhada pelo seu namorado, o jogador de futebol Alex Cruz. Com passagens pelo futebol de países como Suécia, Angola e Chipre, Alex reconhece que os mundos, apesar de pertencerem ao esporte, são completamente diferentes.
– Esse é o sonho dela, sabemos que é difícil, mas confio muito. Estou para voltar ao Chipre, mas só vou me preocupar com a distância depois que ela realmente entrar aqui, não vamos nos preocupar de véspera. Caso ela não passe, vou levá-la comigo – disse o jogador, já fazendo planos para uma eventual reprovação da menina.
Muitos planos e sonhos são levados pelos candidatos no momento em que se chega ao Jockey Club Brasileiro. O caminho é longo e o fardo é muito pesado até chegar aos objetivos traçados. Todos sabem disso e, talvez, as dificuldades que enfrentarão só os tornarão cada vez mais fortes para um dia cruzar o disco no tão sonhado primeiro lugar.
Por EMERSON SILVA E SYLVIO RONDINELLI Fotos: SYLVIO RONDINELLI
