Novo tipo de chamadas, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Novo tipo de chamadas, por Milton Lodi

No Chile, há três Hipódromos principais promotores de corridas, dois em Santiago e um em Valparaiso, mais precisamente em Viña Del Mar. Esse último é um Hipódromo construído há muitos anos, em estilo tradicional inglês, onde é disputado anualmente o Derby Chileno, em pista de grama e corrido no sentido brasileiro, isto é, curvas para a esquerda. É um Hipódromo muito característico, perto do oceano pacífico, em zona onde primeiramente era de pescadores e hoje é atração turística, com hotéis, jogos de cassino, etc. Não funciona direto o ano inteiro, mas por temporada. Nos dois da capital Santiago, o mais bonito é o Club Hipico de Santiago, com pista de grama e corridas com curvas para a direita. O outro, o Hipódromo do Chile, é justamente o contrário, pista de areia e corridas com curvas para esquerda. Esses Hipódromos abrigam cerca de 3.500 corredores, o que se reflete em muitos páreos com muitos competidores. Os três Hipódromos pertencem a uma só família, e funcionam harmonicamente. O território chileno é uma extensa e estreita faixa de terra, tendo de um lado a Cordilheira dos Andes e de outro o Oceano Pacífico. As terras são muito férteis, perece-me que até superiores às da Argentina, os potros são criados livremente em solo úmido, resultado do degelo da cordilheira no verão, que desce da grande montanha levando com ele o húmus proveniente da cordilheira, e os haras mais próximos recebem em suas pastarias uma água cinzenta, formada pelo límpido gelo formado misturado com o rico húmus, assim fertilizando ricamente o solo. É na verdade uma maravilha da natureza, isso resultando em animais fortes, vigorosos, bem alimentados. O grande número de animais com sólidas estruturas cria um excesso de animais em função do número de páreos, e daí o Chile partiu para outro tipo de chamadas, “Handicap Automático”. Em lugar de uma distribuição de pesos dirigida por Handicapeurs, foi criada uma forma diferente. Cada vitória corresponde a mais 4Kg, cada não vitória igual a menos 1Kg. Com isso, e com o correr do tempo, os corredores tem os seus pesos de handicap oscilantes, para cima e para baixo, proporcionando um eventual maior número de vitórias ao final das campanhas nas pistas. Há detalhes regulamentares até exagerados, como por exemplo, vitória por até 1 corpo e ¼ decorre em aumento de menos peso da vitória por mais de 1 corpo e ¼. É um conceito a meu ver inaceitável, pois turfe não é matemática, e um ganhador por até 1 corpo e ¼ pode ter vencido facilmente e um outro que venceu por mais do que pela citada diferença pode ter ganho com um máximo de suas forças. Outro exemplo discutível é a chamada sempre por produtos, machos e fêmeas sempre misturados, mesmo que haja número suficiente de fêmeas para que as fêmeas corram só entre si.

No estilo antigo de chamadas, o Jockey Club Brasileiro conseguia um aproveitamento semanal das inscrições recebidas de aproximadamente 83%, e o Jockey Club de São Paulo, impondo restrições às eventuais retiradas, alcança 93%. Entendeu o JCB de estudar outra forma de chamada, e o Handicapeur foi aprender com os chilenos a forma de chamada de lá. Ficou decidido um período de experiências, após uma adaptação do “Handicap Automático” chileno para a realidade brasileira. A básica diferença do handicap no conceito internacional é uma distribuição de pesos subjetiva, orientada no sentido de um teórico equilíbrio de forças lembrando principalmente em consideração as performances dos corredores, à distância e a pista. No handicap chileno, não há subjetividade, cada páreo realizado resulta no mesmo acréscimo de peso para o ganhador e diminuição de peso para os perdedores. Esse foi o primeiro detalhe a ser adaptado da chamada brasileira. No Brasil, assim como também em outros países, há a Lei do Turfe, o Código Nacional de Corridas e outros regulamentos que determinam normas a serem respeitadas. No caso de um páreo denominado de handicap, seja subjetivo ou objetivo, a eventual mudança de pista só pode se realizar com a mesma graduação dos Grandes Prêmios. Para que se tenha uma idéia, o GP Brasil de 2015 foi corrido em pista de grama pesadíssima, há ponto de alguns jóqueis terem que sofrear os seus conduzidos ante a uma real ameaça de queda, escorregões, torções ou semelhantes. O tal GP não passou para a pista de areia porque o índice tabelado para isso era de 7.5 e na pratica estava em 6.8. Como o tal Handicap Automático, no caso de eventual transferência de raia é igual ao índice tabelado dos Grandes Prêmios, criaria um detalhe impossível de ser respeitado. Imagine-se 15,20 ou 25 páreos semanais programados para a pista de grama e não poderem desrespeitar os tais 7.5 . Por outro lado, pelos nossos regulamentos, de handicaps só podem participar aprendizes de primeira categoria, e sem gozar do direito do 1Kg de descarga. Seria muito ruim. Assim, a palavra handicap, fosse automático ou não, não poderia ser usada. Surgiu então à expressão PIT (Páreos por Índices Técnicos), com isso, são páreos comuns respeitando a tal tabela de eventual mudança de pista. Não é um regulamento muito simples, mas muito bem feito, muito bem adequado à realidade turfística brasileira. Há pontos muito interessantes, entre eles um que corrige detalhe que na prática mostra-se evidente. É o caso da junção das éguas com os machos, pois a chamada não os distingue, é sempre por produtos. No Chile, mesmo quando em um páreo chamado não há número suficiente de éguas para correrem entre si, isso não é levado em conta, mas agora no Brasil nos PIT, as fêmeas podem eventualmente correrem só entre si. Na prática no Brasil, quando há páreos para produtos, isto é, machos correndo contra fêmeas, apesar dos habituais 2Kg dificilmente as fêmeas enfrentam os machos de igual para igual. Por isso nos PIT, quando do enquadramento de todos os animais pelo Índice Técnico, esse índice é entendido como só válido para os machos, gozando as fêmeas de 3Kg (ou índices a menos), assim, por exemplo uma fêmea que em principio teria uma pontuação de 17, é a ela atribuída 14 pontos. Nos PIT, nos pesos das éguas já está embutida a descarga de 3Kg (ou 3 pontos).

As terças feiras a Comissão de Corridas do JCB atualiza toda a pontuação de todos os animais (Clique aqui para ver), levando em consideração naturalmente as performances dos animais que correram na semana turfística finda, e na quarta pela manhã os novos índices já estão no site do JCB. Um detalhe que a meu ver é novidade, em fase de apreciação, para no futuro ser confirmado ou alterado é o sistema de carga e descarga a cada páreo. Desde o inicio dessa nova prática, na segunda semana de agosto de 2015, o critério é de mais 4Kg para os ganhadores, manutenção dos pesos dos segundos e terceiros colocados e diminuição de 1Kg ou 1 ponto do quarto lugar em diante. Isso representa um critério diferente do tradicional porque os 4 Kg tradicionais transformam-se em 5Kg (mais 4 e menos 1 é igual a 5 pontos de diferença). Essa forma do PIT é cabível dentro da prática de um tipo de enfrentamento quase sempre bem diferente do páreo que foi corrido, pois o enfrentamento dos mesmos animais ante a variedade da mistura de animais de índices técnicos diferentes propicia um sobe e desce de pontos a cada vez, isso diversificando as chances e em conseqüência os resultados.

O site do JCB tem o regulamento completo dos páreos por índice técnico (CLIQUE AQUI PARA VER), é do interesse geral que todos os turfistas dele tomem conhecimento, a fim de que compreendam porque em uma inscrição é atribuído a um cavalo um peso de pelo menos 60Kg e na oportunidade seguinte aparece o mesmo cavalo com 52Kg. Acontece que o responsável por esse trabalho, o Handicapeur, recebe um volume quase sempre bem excessivo de inscrições, tendo ele que fracionar aquele páreo chamado em 2,3 ou mais páreos. Isso ele faz e tem que fazer respeitando limites de pontos que representem uma distância máxima de 8 ou 10Kg, ou pontos, de forma que o animal a qual seja atribuído 60Kg, em outra oportunidade, naturalmente respeitando a sua pontuação e a daqueles que vai enfrentar na nova mistura de concorrentes, pode o seu peso variar muito.

Na verdade aqueles 83% de aproveitamento das inscrições do JCB já subiram para 93%, e isso porque, por incrível que isso possa parecer, há exceção de 3 inscritos, todas as demais inscrições desde a segunda semana de agosto até agora, isto é 2 meses, todas as inscrições foram aproveitadas, representando mais de 99,5 % de aproveitamento dos páreos da nova chamada. Por enquanto tudo vai bem, e só o tempo dirá da eventual necessidade de ajustes.

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