Presidentes de Comissões de Corridas, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Presidentes de Comissões de Corridas, por Milton Lodi

Durante os nove anos que eu fui comissário de corridas no Jockey Club de São Paulo, gestões de três anos cada, conheci muitos bons turfistas. Fiz boas amizades, e, no setor técnico, isto é, no julgamento das corridas, encontrei gente competente, dentre eles dois em especial, Oscar (Caito) Luiz Bianchi e Manoel (Nelito) Justino de Almeida Neto, possivelmente os dois melhores juízes, e que até hoje, passados muitos anos, continuam meus amigos. Naqueles anos tive três presidentes das comissões de corridas, pela ordem Cezar Washington Alves de Proença, Edmundo Pires de Oliveira Dias e Caetano Benito Liberatore. Os três foram completamente diferentes. Cezar entendia muito de corridas, via muito bem os páreos, dominava com autoridade velada alguns dos outros comissários, que só votavam após saber da opinião dele. Cezar protegia os jóqueis dos quais mais gostava, e com muita razão, por exemplo, de Albenzio Barroso e Eduardo Le Mener Filho, que eram tecnicamente muito bons e corretos. Mas por outro lado, aplicava penalidades injustificáveis naqueles que não lhe eram simpáticos, como Antonio Bolino e Edson Amorim. Eventuais penalidades atribuídas pelos comissários nos dois primeiros enunciados eram quase sempre atenuadas por Cezar, e ao contrário, quando era o caso dos outros dois, eram por ele acentuadas. Eu fui levado ao então Presidente do JCSP, João Adhemar de Almeida Prado, pelo saudoso diretor Antonio Luiz Ferraz, e quando convidado, disse ao Dr. Adhemar que eu não poderia aceitar, já que, embora pessoal e particularmente eu me desse bem com Cezar, eu discordava frontalmente de decisões dele, que eu entendia como injustas e até perversas. Mas o Dr. Adhemar me convenceu, dizendo que aquele era um dos motivos pelos quais eu estava sendo convidado, ele queria alguém dentro da Comissão que enfrentasse o que considerasse inadequado.

Muitas vezes houve discordância, e eu vou falar, dentre as muitas, de duas. Uma foi quando o melhor potro paulista Fitz Emilius, perdeu a tríplice coroa para Orff, na última prova. Grama encharcada, pesadíssima, e naquela época com piso irregular, com trechos da raia diferindo de outros. Fitz Emilius era de dois cariocas, os Drs Francisco de Paula Pinto e Roberto Gabizo de Faria, era o franco favorito e ia com o jóquei habitual, Eduardo Le Mener Filho. Entre parênteses, tanto o Le Mener quanto o Barrosinho costumavam montar para mim, assim como também, o Edson Amorim, nos eventuais impedimentos do Bolino, meu jóquei preferencial por cerca de 35 anos. Mas Fitz Emilius mostrava-se menos a vontade na raia muito pesada, e virou a última reta dos então 3.000 metros junto à cerca interna, sempre muito solicitado, tentando passar de segundo para primeiro. Mas pela cerca externa, que à época na grama dava grande vantagem pelo piso mais firme, o “carioca” Orff, pilotado pelo excelente José Machado (hoje e já de algum tempo um dos professores da escola de jóqueis do JCB, um dos melhores seguidores da escola de monta de Oswaldo Ulloa) que entrou fortemente na reta final tomando a ponta por cerca de 5 corpos. O páreo já parecia definido, mas faltando ainda metade da reta Orff começou a desviar-se da cerca de fora, em lugar de correr para frente, em direção à linha de chegadas, começou a dirigir-se ao disco de chegadas, aos poucos cruzando a pista em diagonal. À medida que isso acontecia, naturalmente Orff ia perdendo a grande vantagem, pois Fitz Emilius não melhorava mas também não perdia terreno. E acabou acontecendo o inevitável, pouquíssimos metros antes do disco, Orff abalroou Fitz Emilius, e cruzou o disco ainda com cerca de ¾ de corpo de vantagem. Foi um alvoroço. Parte do público aplaudindo, outra parte vaiando, e de imediato a Comissão de Corridas viu o filme da reta de chegada por varias vezes, e por 4 votos contra 3, manteve-se o resultado da pista, entendendo que o incidente não havia alterado o resultado. No dia seguinte, uma segunda-feira noturna, fui às corridas falar com o Le Mener, jóquei do Fritz Emilius, e perguntei da decisão. Ele me disse que a confirmação havia sido correta, Fitz Emilius havia corrido muito menos que das outras vezes, e que o esbarro de Orff tinha ocorrido com o resultado do páreo já definido. O páreo foi confirmado, mas Cezar não gostou, um cavalo de fora, com um jóquei não radicado em São Paulo, havia impedido um tríplice-coroado paulista. E embora informado no dia seguinte da corrida que Orff havia chegado manco, de um anterior, motivo do desvio, aplicou em José Machado uma pena disciplinar de suspensão por 3 meses.

Outra má demonstração foi quando eu dispensei os serviços, do meu Stud, do treinador Carlos do Carmo Cabral, por absoluta inadequação aos meus propósitos, de sempre procurar ganhar. O Cezar, que tinha amizade com aquele treinador desde os seus tempos de juventude no Rio, veio mais de uma vez me pedir para aceitar o Cabral de volta. Eu respondi que a minha decisão não tinha retorno. Cerca de um mês depois, a minha égua Astarde, favorita montada pelo Bolino, foi terceira. Cezar então surpreendentemente suspendeu o Bolino por 3 meses, por falta de empenho. Perguntei aos comissários como eles tinham chegado àquela conclusão, e todos me informaram que não havia tido reunião alguma, foi uma decisão pessoal do Cezar. Eu fui a ele, e disse que não adiantava ele cometer injustiças daquele ou de outros tipos, os meus cavalos iam continuar em Cidade Jardim e o Bolino como jóquei preferencial. Como o Dr. Adhemar morreu no meio da sua gestão, eu me senti livre de compromissos,e avisei ao Cezar que não dispusesse do meu nome na eleição seguinte. Fui imediatamente convidado pelo saudoso Hernani Azevedo Silva para fazer parte da chapa encabeçada por ele na então próxima eleição. Hernani venceu facilmente, eu continuei comissário, e o Cezar começou a sumir do turfe.

Depois de Cezar veio Edmundo Pires de Oliveira Dias, um homem de extrema bondade, amigo de todos, e foi um bom Presidente da Comissão. Mas na parte final de seu mandato ficou gravemente doente, e o seu Diretor Secretário Caetano Benito Liberatore foi um bom e necessário suporte. Na eleição seguinte, em função do seu exaustivo trabalho, Caetano veio como Presidente da Comissão. Ele era muito trabalhador, mas a empolgação levou-o a se meter em tudo, queria mandar de forma ditatorial, acertou muito mais do que errou, mas poderia ter sido melhor se tivesse sido mais comedido. Depois daqueles 9 anos em São Paulo, fui comissário de corridas por 4 anos no JCB, e aí encontrei o melhor Presidente de todas as Comissões, Afonso Boabaid Burlamaqui, sempre inteligente, interessado, altamente competente, com ótimo jogo de cintura para resolver problemas, foi destacadamente o melhor de todos. Difícil encontrar um melhor. Em dois anos de intenso trabalho a Diretoria eleita em 1992, que encontrou o clube financeiramente arrasado e com desordem em todos os setores, foi um dos mais fortes setores da Diretoria do Presidente José Carlos Fragoso Pires.

Voltando ao caso da tríplice coroa perdida por Fitz Emilius, os deuses do turfe também se impressionaram com a grande decepção de muitos, não só torcedores do Fitz Emilius como os muitos admiradores dos dois proprietários, turfistas do melhor gabarito e amigos de todos. A oportunidade de uma contrapartida veio anos mais tarde. Luís Antonio Ribeiro Pinto, filho de Francisco de Paula Pinto, formou uma grande e forte coudelaria, e ainda investiu no setor da criação, tendo comprado na Inglaterra um bom ganhador clássico para ser reprodutor no Brasil. Esse cavalo, Crimson Tide, mostrou-se um expoente na criação, produzindo muito bem, inclusive bons ganhadores de provas nobres. E foi um filho de Crimson Tide, de nome Plenty of Kicks que deu a Luís Antonio a tríplice coroa que o destino havia negado ao Dr. Francisco. Os Deuses do turfe, sempre que entendem necessário, tomam providencias.

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