Espaço, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Espaço, por Milton Lodi

As grandes e mais importantes coudelarias, studs e haras, para se manterem sempre em evidência em função de bons resultados, seguem preceitos e normas do conhecimento dos bons turfistas, mas nem sempre respeitados por todos. Veja-se como exemplo o caso de três dentre os maiores. O grande líder nacional Haras Santa Maria de Araras, promove anualmente um grande leilão por volta do mês de abril. Como haras que prima pela qualidade, pelo classicismo, tem um plantel de altíssimo padrão, o que dificulta a escolha das fêmeas a serem disponibilizadas. Respeitando o dizer daqueles que realmente entendem, dentre eles o Mestre Walter Flores, a boa criação necessita de espaço. Já dizia o mais técnico criador brasileiro de todos os tempos, José Paulino Nogueira, que cada égua tem que representar pelo menos 2.5 alqueires disponíveis, e isso em piso adequado, e com um máximo possível de liberdade para os animais. Ele já preconizava isso, mesmo quando em sua época o normal eram os reprodutores serem mantidos presos, sempre presos, ou então com um máximo de duas horas diárias fora do box, e os produtos machos serem soltos em piquetes individuais ao completarem 1 ano de idade, para evitar naturais machucados na normal vida dos machos em confrontos, e as fêmeas soltas em conjunto. A noção de espaço é fundamental, o cavalo é de origem nômade, necessita de bom espaço para andar, trotar, galopar e correr à vontade, pelo menos em suas fases de desenvolvimento. Não dá para discutir as idéias do melhor de todos, José Paulino Nogueira, que com uma criação em torno de 20 éguas, atravessou os anos com uma produção brilhante em seu clássico Haras Bela Esperança, onde, entre muitos animais inesquecíveis, estão Garbosa Bruleur e Jocosa, ambas lideres de suas alas femininas, ambas ganhadoras do Grande Premio São Paulo e também mães e avós de ganhadores clássicos. Voltando ao Araras, na difícil tarefa de disponibilizar anualmente bom numero de fêmeas, com a natural entrada para a reprodução das muitas éguas de alta qualidade que encerram as suas atividades nas pistas, houve também mais um fato para dificultar. Além da criação no Brasil e na Argentina, o Araras também tinha um haras em funcionamento normal na área de Ocala, no Estado da Flórida nos EUA. Quando esse haras norte-americano fechou suas porteiras, as éguas foram selecionadas e foram trazidas para o hemisfério sul, parte para a seção do Araras na Argentina e parte para Bagé, e ai então o excesso de animais nas áreas disponíveis, diminuindo os espaços individuais. Ai se explica o porquê do grande número de ofertas do Araras nos seus dois grandes leiloes anuais, o geral de abril e o de potros no meio do ano.
                 O vitorioso Stud Alvarenga é outro bom exemplo. Sempre contando com uma forte coudelaria, com vitorias semanais inclusive em provas nobres, há sempre um sentido de renovação, são cavalos e éguas que já cumpriram as suas funções nas pistas e que por motivos vários tem que sair para dar lugar à gente nova, aos produtos da nova geração. Também com o Alvarenga surgiu um fato novo, qual seja, a decisão de encerrar as suas atividades como criador, ficando apenas como proprietários de corredores. Essa decisão teve que aguardar dois anos para se efetivar, dado o grande número de reprodutoras e produtos em fase de criação. Nesse ano de 2015, no mês de agosto, foi realizado no Tattersall da Gávea uma oferta de 62 animais. Eram 63 inscritos, mas já havia um interessado na compra de Colorado Girl, uma égua de 4 anos recém-feitos, com vitórias e colocações importantes, alvo do interesse de um comprador norte-americano, que pretendia comprar a excelente fêmea para com ela criar na Austrália. Admitindo-se uma não efetivação na compra, Colorado Girl teve o seu nome incluído no leilão, mas antes dele começar, a transação foi feita e naturalmente Colorado Girl não participou. Dos 62 animais ofertados, todos sem preços de reserva, ao sabor da praça, havia animais que vinham de boas colocações e até de vitórias, alguns tendo sido comprados para participar do Grande Premio Bento Gonçalves, a ser corrido no Cristal com a ótima dotação de 100 mil reais para o proprietário do vencedor. Havia o remanescente e éguas de cria, potros ao pé e também desmamados, de sobreano (yearlings) e também de produtos com estréia prevista para 2016. Dos 62 ofertados, 61 foram vendidos, pelos valores que os interessados entenderam como bons. Foi um bom leilão, com os preços compatíveis. Só um dos ofertados não teve interessado.
                 Dentro das mesmas perspectivas, no dia 17 de setembro de 2015, quinta feira, um dos mais credenciados haras brasileiros, o clássico São José da Serra, vai disponibilizar 43 animais. Esse é mais um caso do dito espaço. A qualidade do plantel é excelente, mas no decorrer do último ano muitas boas ofertas surgiram, inclusive e principalmente quando da liquidação do Haras Estrela Energia, e com isso o número ideal das reprodutoras, alvitrado em 35 éguas, passou a 53 com dificuldades para separar 17 éguas excedentes, o São José da Serra disponibilizará 43 ofertas, no sentido de abrir espaços suficientes para novos sangues. Vai ser um leilão de qualidade.
Gostou da notícia? Compartilhe!

Pular para o conteúdo