Furacão, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Furacão, por Milton Lodi

Lá, bem no interior, longe dos grandes centros, naquela pequena comunidade (mais uma vila do que propriamente uma cidade), a diversão aos domingos era mesmo os desafios com os cavalos. Os fazendeiros e os sitiantes, e todos os outros donos de cavalos da região e das vizinhas, encontravam-se junto aos “trilhos”, ali passavam as tardes, e as poucos as disputas começavam, com apostas, em clima de burburinho e exaltação. Também mercadores traziam cavalos novos para oferecer; comprava-se e vendia-se, tudo em torno das corridas da ocasião, dos desafios que a audácia de uns e a esperteza de outros transformava, em alegria e festa as tardes dos domingos. De quando em vez surgia um cavalo desconhecido, trazido por um forasteiro, que vinha de bolsos cheios para tentar bons lucros em apostas mais altas, e aí os ânimos ficavam mais acirrados, e as tardes ainda mais animadas.

Um dia surgiu uma notícia que despertou a curiosidade de todos: um homem barbudo e usando um chapelão de abas largas, e que andava percorrendo o interior, costumava aparecer sem avisar, de mansinho, numa pequena charrete, trazendo amarrado e puxado por uma corda um lindo alazão, grande, forte e muito corredor. O homem nunca saía perdedor, pois seu Furacão honrava o nome, era muito ágil na partida, já largava em alta velocidade, e sempre ganhava com boa vantagem, sem dar susto. A notícia se alastrou, mexeu com a curiosidade de todos, e com ansiedade o assunto passou a ser o centro de todas as conversas.

Os donos dos cavalos melhores começaram a temer por um possível desastre, o tal Furacão ser na verdade melhor do que todos os cavalos da região, e eles não poderiam deixar de aceitar um desafio, era questão de honra, de vergonha na cara. Conversa vai, conversa vem, entenderam de montar uma estratégia (se eles não podiam fugir daquele desafio, por outro lado o barbudo também não ia poder). Resolveram manter bem preparados os dois melhores velocistas da região, e logo que o forasteiro chegasse, de imediato seria proposto o desafio, sem dar tempo de descanso ao cavalo que chegava de viagem, andando; para maior segurança seria uma aposta dupla, a segunda logo após a primeira; primeiro correria o pior dos dois contra o cavalo cansado, por uma aposta razoável, e logo em seguida a outra, entrando o cavalo melhor por uma aposta muito mais alta. Não podia falhar, a única hipótese seria do barbudo não aceitar; mas isso estaria fora de cogitação, ficaria por conta das provocações, das ironias, de pressão, de suposta esportividade, da honra. Tudo assentado, os cavalos cuidados e preparados com carinho especial, tudo pronto, só faltava o barbudo aparecer.

Alguns domingos se sucederam, sem novidades, e quando parecia que tudo não passava de boato, eis que surge a charretinha puxando o tal alazão, que era ainda mais bonito do que se imaginava, de físico impressionante, um terror.

Mas não havia mais o que fazer, a não ser executar logo o plano. O barbudo era simpático, trazia dinheiro suficiente para as apostas que haviam sido alvitradas, procurou ganhar tempo mas não conseguiu, pois se o seu cavalo era tão bom como diziam, não havia o que temer; teve que aceitar o que lhe era proposto, e o plano começou a funcionar.

O alazão e seu primeiro competidor foram encilhados e montados, colocaram-se sem problemas no partidor, e sem demora foi dada o larga. Para surpresa geral, não é que o cavalo do barbudo perdeu? A alegria foi geral, o cansaço já decidira o primeiro confronto, e o melhor estava por vir. O barbudo tentou argumentar, mas não lhe deram chance, trato era trato.

De imediato apresentou-se o cavalo bom, e a sua aparência não podia ser melhor; foi logo encilhado, estava pronto. O barbudo olhou bem para o seu alazão, que estava muito cansado, suado, resfolegando de cabeça baixa; naquelas condições, antes mesmo de participar de novo já estava derrotado, e pior do que isso, se tivesse que correr outra vez, a seguir, poderia até se inutilizar para sempre. Mas trato era trato, e tinha que haver um páreo. Silenciosamente, o homem do chapéu de abas largas levou seu cavalo e o amarrou na traseira da charrete. De cabeça baixa, a aparência resignada, desatrelou da charrete o velho punguinha tordilho, que dormitava, e disse que, para haver nova corrida e não podendo ele se utilizar do alazão, só lhe restava se apresentar com o outro, que pelo menos não estava exausto; era a única forma de ele poder honrar a sua palavra. E assim foram para o partidor. Dada à largada, aquele que dormitava pulou como se acionado por um propulsor a jato, e como um bólido disparou com enorme velocidade, vencendo a larga vantagem.

O silêncio era total. O barbudo serenamente pegou a caixa de papelão onde estava depositado o dinheiro das apostas e a colocou no chão da charrete. Atrelou o velho punguinha tordilho, acomodou-se, acenou com seu chapelão de abas largas para aquela multidão que paralisada o observava. Colocou o chapéu na cabeça, e debruçando-se um pouco, deu duas amistosas palmadinhas na garupa do cavalinho, e docemente disse: “vamos, Furacão”.

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