A Cor da Sorte, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

A Cor da Sorte, por Milton Lodi

O marido era um homem já de certa idade, sempre bem vestido, quieto, e que ia ao prado em todos os dias de corridas; tinha cavalos, alguns bem bons, e costumava apostar neles quando eles ganhavam, sempre na certa. A precisão de suas apostas em seus próprios cavalos chamou a atenção dos outros apostadores, que passaram a fiscalizá-lo em suas idas aos guichês de apostas.

Um dia o homem percebeu que desde algum tempo estava sendo observado, e passou a fazer suas apostas antecipadamente, antes do 1° páreo, de modo que, durante o desenrolar dos programas das corridas, os outros apostadores passaram a ficar sem saber quando ele jogava; tantos os cavalos que teoricamente tinham boas possibilidades de ganhar, assim como os outros de chances menores, ganhavam ou perdiam, mas dava para perceber que o dono só apostava na certa; depois de cada páreo vencido ele invariavelmente metia a mão no bolso e sorridente olhava as poules; após cada páreo perdido ele sorria para a mulher, não havia apostado.

Aquele estado de coisas foi ficando cada vez mais insuportável, intrigante, instigando a curiosidade dos apostadores, que procuravam indícios, sinais que indicassem se aquele homem, sempre quieto antes dos páreos e que só se manifestava depois de cruzado o disco, havia ou não jogado.

Um dia, um apostador mais esperto observou um detalhe; aquele homem sempre estava acompanhado pela mulher, bem mais moça do que ele, esguia, bonita de rosto e de corpo, sempre muito elegante, e quieta como o marido; mas havia uma curiosidade, quando ela usava alguma coisa da cor rosa, os cavalos ganhavam, quando não, perdiam. Às vezes era um chapeuzinho, outras um lenço, uma eventual echarpe, uma bolsa, sapatos, enfim, quando havia alguma coisa rosa, os cavalos ganhavam e o homem havia apostado, se não houvesse nada rosa era sinal de que não havia fé, e não havia vitória. Assim, não só aquele observador, mas também muitos outros, aprenderam o segredo do marido; na hora do jogo, na poule certa, a mulher usava a cor da sorte, a rosa; e aquilo nunca falhava. Naturalmente todo mundo passou a se beneficiar daquela observação; retrospectos, palpites, informações, nada interessava, bastava olhar a mulher e não apostar, ou ir na certa. E desse modo, as poules certas davam rateios cada vez menores, e o homem percebeu que o seu segredo já era do conhecimento geral.

Um dia, o homem estrearia um potro de bom papel, de boa precedência, num páreo em que havia um favorito destacado, em função de boas colocações clássicas, e mais três ou quatro candidatos que já haviam corrido muito bem; páreo cheio, forte, difícil para um estreante. Mas tudo isso não interessava aqueles apostadores, o dono do estreante nunca errava, por isso havia que se observar a mulher dele antes de irem para os guichês.

Como já era esperado, o casal chegou logo no inicio do programa, e deu para todo observar que a mulher nada trazia da cor rosa; estava como sempre muito elegante, discreta em sua beleza, junto ao marido, e sem rosa. Os apostadores riscaram o nome do potro estreante do programa, e todos partiram para jogar em duplas do favorito com aqueles três ou quatro bons pretendentes.

Corrido o páreo, o espanto e o desaponto eram gerais; ganhara o potro estreante, com grande autoridade, e proporcionando um rateio enorme. A alegria do casal era visível, e era evidente que o homem havia acertado uma pequena fortuna, pois foi com muita emoção que ele tirara do bolso um bolo de poules que mostrava a mulher.

A revolta, o desespero, a inconformidade, a sensação de terem sido enganados, a mistura de sensações negativas fez com que um deles, aquele que parecia o mais esperto, porque fora o primeiro a descobrir o detalhe rosa, aguardasse o momento em que o marido foi aos guichês para receber o dinheirão ganho, para se acercar da bela mulher, temporariamente sozinha. Respeitosamente cumprimentou-a, deu os parabéns pela vitória, e perguntou-lhe agoniado: “Minha senhora, já há algum tempo que nós apostadores estávamos acostumados a apostar na certa nos cavalos do seu marido, desde que verificamos que a cor da sorte dele, rosa, era pela senhora sempre e só usada quando das vitórias. Naturalmente hoje ninguém apostou no potro estreante, e depois do páreo todos viram que o seu marido havia jogado nele, e muito. Como é que se explica o que aconteceu, como é que seu marido apostou forte no potro sem a senhora usar alguma coisa rosa?”

O lindo rosto da mulher se iluminou, os olhos brilharam, ela entreabriu os lábios num sorriso divertido, malicioso, e perguntou: “Mas quem foi que lhe disse que eu não estou usando nada cor de rosa?”

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