Nasceu Violeta, bonitinha sem ser bonita, gordinha sem ser gorda. Esperta, participava de todas as atividades no colégio que o Jockey Club Brasileiro mantinha e mantém gratuitamente para os filhos dos funcionários e profissionais.
Como era filha de um jardineiro do clube (a mãe era costureira de mão cheia, e que habitualmente fazia a farda dos jóqueis); desde logo foi matriculada na escola, e lá passou os primeiros anos de sua vida. Aos poucos foi melhorando, mais e mais, o seu bom humor, o seu rosto bonitinho passou a ser muito bonito, os fartos cabelos enfeitando uma promissora figura de mulher. O interesse dos meninos por ela foi aumentando e suas amigas e colegas achavam isso muito natural. Cada vez mais bonita e atraente, Violeta a todos cativava pela simpatia e bom humor. Não havia inveja nem ciúme. Só uma das meninas, uma magrinha não gostava dela por simples inveja. Mas Violeta não se incomodava, seguia pela vida com alegria contagiante. Mas a Mãe Natureza, que lhe dera sempre tudo de bom, começara a complicar um pouco a sua vida, pois começara a crescer demais e encorpar, Mas Violeta não era burra, não era de se entregar, entrou logo para uma academia de ginástica, e malhava diariamente o suficiente para manter o corpo em equilíbrio, o seu peso estava de acordo com a sua altura, e aulas de boxe mantinham a sua musculatura forte e bem proporcionada.
Não demorou muito para que as escolas de samba a procurassem. Pagariam os seus estudos, propunham proporcionar-lhe uma vida confortável, a troco dela aprender a sambar e desfilar na avenida.
Violeta não tinha nada a perder, gostava de dançar, estava de bem com a vida, além dos exercícios na academia, sambar poderia ajudá-la a manter-se em forma. Rapidamente galgou posições na Escola, começou como figurante, passou a princesa, depois rainha, e chegou ao topo, musa da sua Escola e ainda de todas as Escolas, era Musa das Musas. Alta, grande, de beleza plástica invejável e com um permanente sorriso de alegria e bom humor, Violeta virou a Viola do Samba, a mais bonita e a mais querida. Nos ensaios de sua Escola, quando ela comparecia, quase sempre criava-se um problema, tal era a quantidade de sambistas que queriam vê-la de perto, queria vê-la dançar. Nos eventuais eventos em que a Escola participava, e também em pequenas participações da Escola em programas de televisão, o sucesso de Viola era sempre maior. A fantasia que deram para Viola desfilar no carnaval era pequena, bem pequena, mas a figura daquela mulher com lindos adereços que não lhe escondiam a beleza, e com um cocar que era muito colorido e deslumbrante, faziam de Viola a principal atração do desfile das Escolas de Samba cariocas, na Marques de Sapucaí. Ninguém resistira ao cativante sorriso da linda mulher, da mais bonita da mulheres, espelhando um irresistível bom humor, com um escultural e gracioso corpo, sambando e evoluindo com a graça de verdadeira deusa.
Quando Viola despontou na avenida, a agitação geral cresceu, as câmeras de televisão imediatamente voltaram-se para ela, e por mais beleza que fosse dela esperava, Viola superou a expectativa de todos, era uma deusa que sambava e cantava. O povo cantava com entusiasmo a música da Escola, o barulho era ensurdecedor, mas alternava a alegria e beleza de Viola, que só sorria e sambava, sorria e sambava.
De repente, quando a bateria fez um breque, uma voz estridente, fina e esganiçada gritou “horrorosa, gorda”. De imediato, Viola parou de dançar. Ficou parada. Pela primeira vez na história dos desfiles das escolas de samba na Marques de Sapucaí, pela primeira e única vez, os milhões que acompanhavam as evoluções pelas televisões levando o espetacular desfile aos quatro cantos do mundo, e as dezenas de milhares de pessoas que lotavam o sambódromo, todos ficaram atordoados e atônitos. A bateria parou de tocar, os passistas, dançarinos e sambistas, todo mundo parado, em um monumental e sepulcral silêncio, todo mundo de olhos fixos na maravilhosa figura da Viola, musa das musas, a suprema rainha do carnaval carioca, a mais bonita e carismática figura do melhor carnaval do mundo. De repente, com todo mundo parado e quieto, Viola correu para uma lateral da passarela, saltou com facilidade a grade que separava a passarela do público apesar de seus adereços pesados, um lindo e gigantesco cocar, nada prejudicando a sua figura escultural, dirigiu-se rapidamente para o local de onde saíra o grito. E lá estava a magricela, aquela mesma detestável menina que sempre a perseguia na escola chamando-a de feia e horrorosa. Quando a magricela viu a figura grande e forte da musa das musas, a linda e atlética Viola, ficou pálida e recuou um passo. Mas não foi o suficiente, a atlética Viola, que era Violeta quando menina, pegou a desagradável invejosa pelo pescoço e deu-lhe um violento murro na cara, que logo começou a sangrar pelo nariz quebrado. Viola então disse alto, para que a apavorada infeliz e todas ouvissem, “horrorosa eu até aceito, mas gorda não”. Deu meia volta, saltou de novo a tal grade, colocou-se em sua posição central na passarela e recomeçou a dançar. Nunca antes, e seguramente, nunca depois, o sambódromo da Marques da Sapucaí recebeu tamanha ovação, a bateria tocando com incomum entusiasmo, os passistas, as cabrochas, as baianas, toda a Escola explodiu em alegria e entusiasmo. Foi a maior e mais ensurdecedora homenagem que qualquer sambista poderia desejar. A maravilhosa Viola, a musa das musas, aquela que crescera Violeta, alegre, feliz, cada dia mais bonita de rosto e de corpo, levava a vida de modo leve, cantando, satisfeita com o que de bom a vida lhe oferecia, esquecia-se rapidamente do que não era bom, mas Viola fazia questão, não abria mão de ser feliz. Podia até ser injustamente chamada de horrorosa, mas gorda não.
