Massacre, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Massacre, por Milton Lodi

A maioria dos cavalos de corrida são mansos, e tratáveis sem maiores problemas, as índoles de um modo geral são boas, muitas vezes perturbadas por mau manejo e/ou por domas inadequadas, até muitas vezes não é respeitado o espaço de tempo entre o completar dos 18 meses, isto é, o um ano e meio, e a época das estréias na pista, em média os cerca de 10 meses intermediários. Após o ano e meio inicial, mais seis meses fora do haras de nascimento, se possível em local com piquetes amplos que permitam dar ao potro a sensação de liberdade em um bom espaço para que ele ande, trote, galope e corra à sua inteira vontade de disposição, são até fundamentais antes da fase de doma. E essa tem que ser calma, sem pressa, com práticas respeitadas diariamente. Após a iniciação em amplos picadeiros, primeiramente conduzidos por cabos e depois soltos, o potro docilmente costuma se entregar aos caprichos do domador, que além de conhecer a profissão, tem que ser calmo, sem pressa, e entender quando o potro está em condições de ser montado. De um modo geral, o potro bem iniciado não opõe resistências, embora venha a estranhar os novos procedimentos a que é submetido. De um modo geral, nos três meses previstos para uma boa doma, o mês final fica por conta de andar, trotar e dar galopinhos nos dois sentidos, isto é, com volta para a esquerda e também pela direita, exercitando as duas diagonais. A idéia de apressar essa fase, para “adiantar” em função de eventual antecipação da estreia nas pistas é um costume péssimo.

O potro tem que estrear no momento em que ele próprio indica, nem antes nem depois, é ele quem “fala”, e compete aqueles que o orientam, entender bem o que lhes está sendo transmitindo. A cada ano, importante parte dos produtos das novas gerações são massacrados entre os 18 meses de idade a as primeiras corridas nas pistas, na pressa de faturar mais cedo, e o que acontece na maioria dos casos é que muitos apresentam problemas físicos antes mesmo de correr, com dores de canelas, fraturas, etc. De um modo geral dos potros que se iniciam nas pistas antes de completarem dois anos hípicos, isto é, a maioria dos que estreiam antes do mês de julho, já chega aos três anos de idade “descontados”, com problemas. É claro que não são todos, há aqueles que geneticamente são precoces, de um modo geral os mais rápidos, mas há também os bons, que pela melhor qualidade começam cedo e continuam mostrando as suas qualidades. Como simples exemplos, Bowling (G.P. Brasil) iniciou-se nas pencas de Bagé, onde não ganhou, mas mostrou um bom futuro, e Escorial (tríplice coroado carioca, Pellegrini e G.P. 25 de Mayo), que estreou em hipódromo com dois anos em páreo de 800 metros. Mas são casos especialíssimos. Aqueles que compram potros baratos em leilões, muitas vezes aceitando idéias e sugestões dos seus treinadores, sem se interessar pelos pedigrees nem pelos físicos dos potros, nem mesmo por suas desenvolturas, forçam os potros antecipadamente, participando de um “massacre” até criminoso.

Nos primeiros anos após a morte do meu pai, em 1956, sempre que eu ia São Paulo dava uma “fugida” a Campinas no Haras Bela Esperança, do mais técnico criador brasileiro de todos os tempos, José Paulino Nogueira. Um dia, olhei as potrancas da idade de um ano, e notei dentre elas duas potrancas bem maiores, uma castanha e uma alazã. No jantar, perguntei ao grande criador o porquê da disparidade de tamanho daquelas duas em relação às outras. Ele me disse simplesmente que aquelas duas tinham dois anos de idade, pelos pedigrees e tipos certamente seriam duas ótimas futuras reprodutoras, necessárias ao plantel do Bela Esperança, elas representavam a continuidade do sucesso do seu haras, por isso não iriam conhecer hipódromos, elas não seriam submetidas ao “massacre”. Palavras de José Paulino Nogueira.

Cavalos e éguas de pedigrees de distâncias maiores correndo só páreos curtos, páreos de distâncias menores que 1.600 metros não sendo programados, isto não pode dar certo.
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