Acompanhando e participando de corridas, de vez em quando surgiam casos interessantes, diferentes, curiosos.
Fama, filha de uma das éguas – base do Ipiranga, era uma castanha de porte médio, forte e muito mansa. Estreou em uma prova clássica para potrancas de 2 anos, como “faixa” da companheira Faustina, essa já líder de sua geração. Era um páreo cheio, e como eu tinha uma outra potranca estreante mais fraca, Flicka, Fama foi estrear no clássico e Flicka ficou no páreo comum. Flicka venceu facilmente o páreo perdedor, Faustina também venceu facilmente o páreo de ponta a ponta, e Fama, um pouco prejudicada no percurso, foi terceira a focinho de uma potranca de Victor Guilhem. A seguir, Fama venceu o páreo de perdedores com facilidade, mas como era ainda um inicio de campanha, não havia numero suficiente de potrancas com uma vitória para normalmente o páreo ser programado, Naquela época havia muito menos animais alojados na Gávea do que hoje, não havia centros de treinamento.
Perguntei ao então Handicaper o que seria necessário para a programação daquele páreo para potrancas com uma vitória. Ele me disse que o páreo seria programado se tivesse 5 ou 6 inscrições. Entrei em contato com os respectivos proprietários, combinando para todos inscrevermos no mesmo dia, e disse logo que eu achava que a Fama não perderia, e por isso me propunha a pagar a inscrição de alguma inscrita que não viesse a correr. Um dos proprietários era Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior, o benemérito fundador do Haras Mondesir. Conservei pessoalmente com ele no escritório na Rua Senador Dantas. Ele mandou que a secretária telefonasse para o treinador, e foi informado que a potranca dele, com uma vitória, não estava trabalhando visando correr, só estava galopando devagar, aguardando maior número de possíveis inscritas. Informando que AIX estava bem mas não preparada para correr, o Dr. Peixoto mandou que ela fosse inscrita, Eu voltei a informar que, se por um acaso ela não viesse a correr, eu pagaria a inscrição. Como eu esperava, Fama tomou a ponta com facilidade, abriu boa vantagem, e quando tudo indicava uma fácil vitória, ela começou a parar, e AIX, que corria os 1.000 metros em ultimo, atropelou e ganhou. Fiquei muito desapontado com a derrota, e aprendi de uma vez por todas que páreos curtos corre-se de trás, e é nas corridas longas que se deve correr perto. É claro que isso como principio. Na segunda-feira após o almoço, a secretaria do Dr. Peixoto me telefonou, ele pedia que eu fosse ao escritório dele. O Dr. Peixoto era muito carinhoso comigo, dizia que eu era um “amigo herdado”, pois havia sido amigo do meu pai. Chegando ao escritório, o Dr. Peixoto em abraçou, agradecendo pela inesperada vitória da AIX, e me perguntou quando eu iria pagar a ele o valor da inscrição. Eu disse que estava havendo um engano, eu havia dito que só pagaria a inscrição de uma inscrita que não viesse a correr. Mas o Dr. Peixoto insistiu, não era daquela forma que ele havia entendido, mas não havia pressa, eu pagaria quando pudesse. Mas um grande sorrido fez o Dr. Peixoto me abraçar, era só uma brincadeira. Sempre rindo e mexendo comigo, o Dr. Peixoto deixou à mostra de um homem de bom humor. Eu aprendi com o que aconteceu. Fama terminou sua boa campanha, sempre em páreos curtos e de bom padrão, com a primeira vitória correndo na frente e as outras seis correndo colocada para uma partida final.
Muitos anos depois, em Cidade Jardim, eu ia correr um bom potro em um páreo em que só havia um competidor que pudesse eventualmente ganhar dele. O meu cavalo corria perto, colocado, e o competidor normalmente corria atrás, aguardando a reta para atropelar. O Bolino e eu conversávamos antes daquele páreo, trocando ideias sobre a melhor forma de ganhar, quando o jóquei competidor passou por nós sem olhar e apenas disse “larga e se manda”. O Bolino sorriu discretamente e eu perguntei o que estava havendo. O Bolino me explicou, o adversário iria correr mais longe do que o normal, e pretendia só atropelar quando o páreo estivesse decidido a nosso favor, e para isso deveria procurar manter uma boa diferença na frente. Foi uma das vitórias mais tranquilas que presenciei de cavalos meus.
Na Argentina, em maio de 1960, houve um detalhe técnico do Bolino que fez com que Leguisamo fosse cumprimentá-lo após a vitória da Elizabeth. O páreo era para éguas de velocidade, 1.000 metros na areia de Palermo, e Bolino percebeu que nos três primeiros páreos que antecederam ao da Elizabeth os jóqueis argentinos guardavam reservas para os últimos 50 metros. A grande velocista argentina tomou a ponta, com Elizabeth sempre em segundo, e quando faltavam menos de 150 metros, Bolino fez com Elizabeth uma fulminante atropelada, passando sem luta por Medina e não dando chance de defesa, de reação. Elizabeth venceu por um corpo e meio, para espanto dos argentinos. Elizabeth era ótima, e Bolino um espetáculo.
