A não ser os poucos haras mais antigos, como o centenário Haras São José e Expedictus, o Mondesir e mais uns tantos de abastadas famílias paulistas, mais alguns poucos do Paraná e ainda outros gaúchos, esses ótimos com criação a campo, somente comendo o privilegiado capim do extremo sul do país e infelizmente com menos de um ano e meio de idade apanhados quase que a laço no campo para, através de uma doma violenta e desumana iniciar as preparações para um inicio de campanha nas raias das pencas. O panorama geral não era animador, no que dizia respeito à melhoria da raça. Havia no sul do país a crença de que os cavalos argentinos eram melhores e quase imbatíveis, e o custo de criação quase zero permitia que fosse encarado como normal e sem importância maior a enorme quebra de potros, em sua maioria ainda com 2 anos incompletos. Os potros que não mostravam precocidade e velocidade eram mandados para os hipódromos, e os que mostravam boas aptidões eram condenados a participar das pencas. Na prática, dos penqueiros eram poucos os que não ficavam lesionados, passada a fase das pencas iam para os hipódromos aqueles que ainda apresentavam condições de participar de corridas. Em linhas gerais, era isso que ocorria, naturalmente com as sempre exceções às regras. Com a modernização dos conceitos, com o pregresso da ciência veterinária permitindo um aprimoramento das condições físicas dos animais, com uma criação mais inteligente e com a evolução dos hipódromos oferecendo premiações atraentes, as pencas foram perdendo um prestígio geral para permanecer até hoje em números menores dos mais apaixonados por corridas. Só para citar um pálido exemplo da paixão pelas pencas, havia um treinador no Rio Grande do Sul que era endeusado pelos proprietários, pois era um contumaz ganhador daquelas provas. O que muitos não se davam conta é que o treinador chegava a receber cerca de 70 potros dos proprietários, e nos últimos preparativos para correr só restavam uns 10%, uns 7 em condições de trabalharem para serem inscritos. E os outros paravam pelo caminho, mais de 60 se lesionavam pelo esforço precoce e violência. Isso, porém, é uma coisa quase que do passado, o gosto da criação não encontra tanta gente disposta a rasgar dinheiro.
Aproximadamente 1945 e 1950 começaram a surgir em São Paulo às implantações de haras que vieram a ter boa envergadura e representatividade no cenário turfístico nacional. Naquela época foram implantados haras muito importantes como o Bela Esperança, o São Quirino, o Ipiranga, o Faxina, o Patente, o Santa Anita. No Rio veio o Haras Vargem Alegre, no Paraná o Valente e o Paraná. As famílias Lara e Assumpção eram anteriores a 1945 na criação paulista, e de um modo geral foi havendo um encontro com a realidade turfística até os anos dourados do Jockey Club Brasileiro e o de São Paulo.
Muitos anos se passaram com um evolutivo progresso, desde a era São José e Expedictus, Mondesir, o pernambucano Maranguape, passado pelos já citados haras da época aproximada 1945-1950, e com a chegada do Haras Guanabara houve um realce ainda maior.
Depois de cerca de 20 anos de tentativas, quando nos primeiros 10 anos brilhou Julio Cápua (Haras Vale da Boa Esperança) e nos derradeiros 10 com Julio Bozano (Haras Santa Maria de Araras), os criadores fluminenses, que eram domiciliados no Rio, eram cariocas, houve uma debandada à procura de terras mais adequadas para a criação do cavalo de corridas, houve uma grande guinada para as mais férteis terras do país, e hoje lá estão, vindos do Estado do Rio, do Paraná e de São Paulo, a maioria dos haras maiores produtores de qualidade. Hoje, e desde algum tempo, a melhor qualidade dos animais brasileiros vem de Bagé, RS, onde estão os Haras Santa Maria de Araras, Mondesir, Castelo, TNT, Anderson, Old Friends, Bagé do Sul, Doce Vale, dentre outros inclusive do antigo plantel do infelizmente extinto Haras Santa Ana do Rio Grande. No Paraná, foram implantados 4 haras de grande sucesso, o Santa Rita da Serra, o São José da Serra, o Santarém e o Estrela Energia. O assunto daria para escrever mais de um livro, mas a “Vôo de Pássaro”, como diria o saudoso Hernani Azevedo Silva, mesmo com a omissão involuntária, haras importantes como o Terra Branca, o Expert, o Interlagos, o Calunga, o Vila Brandina, o Rosa do Sul, o Malurica, o Bela Vista e tantos outros importantes haras.
O assunto é apaixonante e vastíssimo, e não cabe em um simples artigo semanal, preparado com muito prazer e de memória.
Para o futuro, da para perceber que pencas estão perdendo o seu prestígio, e que os três mais importantes clubes de corridas, o do Rio Grande do Sul, do Rio e São Paulo que estão em boas mãos não conseguem providenciar o importantíssimo detalhe de aumento de dotações. O JCRS esta em fase de reconstrução das pistas e de sua vila hípica e tudo indica um futuro promissor. O de SP esta se aproximando do final de um intenso trabalho de recuperação financeira, saudando compromissos de diretorias delirantes que deixaram o clube em difícil situação. O JCB já há mais de três anos que reforma o seu patrimônio físico investindo e promovendo a instalação de fontes alternativas de receitas. O setor social é tratado com esmero, não faltando quadra de tênis, piscinas, restaurantes e ótimas áreas de lazer. Isso tudo é plausível todos os setores devem ser melhorados, mais não é o que acontece no setor turfístico que em função da estagnação das dotações há muito anos já entrou em clima aflitivo. O setor turfe já ultrapassou os limites aceitáveis da perda de dinheiro, a rigor quem está de fora não está entrando e quem está dentro ou sai ou resiste na ilusão de boa melhora. Aqueles que pagam as contas, isto é os proprietários, sofrem com descontos injustificáveis como por exemplo, de 15% de Imposto de Renda na fonte. O clube visto de fora é entendido como um grupo de ricos, por isso sofre injustas taxações, mas o que realmente ocorre é que aqueles que mantem as corridas inscrevendo semanalmente seus cavalos não vão poder aguentar até que um dia eventualmente venha a tal melhoria financeira proporcionada por prêmios adequados.
O futuro da atividade turfística esta ligada diretamente a aumentos periódicos das dotações, e elas há muito não se apresentam. Uma atividade importante e prazerosa que está perdendo a graça.
