Garanhões a Aprovar, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Garanhões a Aprovar, por Milton Lodi

Um dos permanentes interesses em poder dispor de bons garanhões é preocupação antiga, pois hoje a troca e venda de coberturas já está disseminada entre os criadores. Com as técnicas modernas e com manejos adequados, garanhões podem receber cerca de 120 éguas por semestre, e na prática há, nos bons haras, um índice de prenhes superior a 80%. Mas antigamente não era assim, cada criador tinha seus próprios reprodutores, e na eventual impossibilidade de contar ou ter um dos melhores, havia que se arriscar com um que se entendia como possivelmente bom. Muitos são os exemplos, e na maioria dos casos o sucesso pretendido não foi alcançado. Eu mesmo certa vez tentei com um cavalo importado da Inglaterra pelo Haras Bocaina, de Luiz Teixeira de Assumpção. Era um cavalo já maduro, que nada havia dado de especial, mas a tentativa era por conta do Bleneran ser irmão materno de Seventh Wonder, um dos melhores garanhões importados pelo Haras Bela Esperança, de José Paulino Nogueira. O cavalo me foi emprestado, de graça, com o pedido de não devolvê-lo e mantê-lo bem até a morte. Luiz era apaixonado por ele e não queria que ele viesse a morrer no Bocaina. Aproveitei o cavalo em meia dúzia de éguas a cada ano, os filhos foram todos ganhadores e alguns até regulares, mas a classe desejada não existia. Outra tentativa que fiz, com resultado decepcionante, foi com Jatille, um cavalo de 4 anos, filho de Adil e Castille, um pedigree bem diferenciado com linha feminina exitosa. Ele, segundo o veterinário e orientador técnico do Haras Jahú e Rio das Pedras, havia corrido só 3 ou 4 vezes sempre chegando em último, largava andando, ficava completamente fora dos páreos, embora todos os exames nada demonstrassem de anormal. Ele era um castanho escuro, muito parecido com o pai Adil, e tinha uma linha materna soberba. Fiz negócio com o Jatille, dei a ele as chances que entendi dar, e ele não correspondeu. Foi uma infeliz tentativa. Com o citado José Paulino Nogueira, o mais técnico criador de todos os tempos, ocorreu um fato singular. Ele foi o pioneiro no Brasil a trazer o sangue de Bois Roussel, no que foi seguido pelos Haras Guanabara, Mondesir e Santa Anita. Wood Note deu bem, mas não no padrão que José Paulino gostaria, chegou a dar uma das potrancas lideres de geração em São Paulo, potranca que foi comprada pelo Jahú e Rio das Pedras e que, coberta por Bupham, deu Farwell, por muitos considerado o melhor corredor de todos os tempos. Mas de Wood Note o criador José Paulino queria mais, e ele acabou sendo emprestado de graça para o modesto Haras Artim, onde ficou até morrer. Nesse mundo de garanhões de ponta, houve muitos casos curiosos. É do conhecimento da grande maioria dos criadores a insatisfação dos Haras São José e Expedictus em ceder garanhões. Talvez pelo fato de um dia ter vendido o excelente Tapuia para o Haras Uruguay, onde Tapuia veio a ser o garanhão líder das estatísticas por mais de 10 anos, o fato é que o haras preservava os seus bons cavalos, chegando a ter, no Expedictus um grupo de 40 boxes com estoque de muitos bons corredores que não eram utilizados. São conhecidos, dentre muitos outros, os casos de Svengali e Devon. Adayr Eiras de Araújo, uma excelente pessoa que chegou a ser Presidente do JCB para figurar na liderança do turfe carioca, mas que apenas ocupava o lugar do verdadeiro líder politico, Francisco Eduardo de Paula Machado, que comandou o JCB por cerca de 40 anos, era um gaúcho muito ligado ao criador Edgar de Araújo Franco, e conseguiu por empréstimo o muito bom Svengali, um fato que surpreendeu a todos. Logo na primeira geração no Haras Chapéu do Sol, deu dois ótimos potros, um deles de nome Gordo Quico. Foi o suficiente para que Svengali voltasse para o depósito de garanhões. Outro caso diferente diz também do cuidado em segurar os ótimos sangues do haras. Devon era um filho de Fort Napoleon de muita classe, e favorito antecipado para um Grande Premio Brasil, que teve um sério contratempo, não correu, e foi em definitivo para o tal depósito fazer parte do estoque. O então novo Presidente da Associação Brasileira, Luiz (Zizo) Vieira de Carvalho Mesquita, entendeu de comprar um garanhão de primeira linha para oferecer coberturas quase que de graça para os criadores sócios da Associação, que disponha de 200 mil (?), considerado um valor alto, mas justo para Devon. A proposta foi feita, mas não aceita, Devon valeria o dobro. Acompanhando os registros no Stud Book Brasileiro, o haras deu no primeiro ano duas éguas para o Devon, uma no ano seguinte, e nunca mais se ouviu falar daquele excelente corredor e promissor garanhão.
Todos ou quase todos os haras que experimentam garanhões novos tem decepções. O Jahú e Rio das Pedras com um filho de Coaraze, o clássico Rhone. O Guanabara com Nisos e Cobalt, o Mondesir com Wilderer, e assim uma interminável relação de decepções.
Já houve quem tenha dito que criar cavalos é jogar xadrez com a Natureza.
As promessas que em parte norteiam os criadores como por exemplo, usar o bom e não o irmão do bom, e cavalos saudáveis. Poderia citar dois casos que, além de serem irmãos dos bons, não tinham a necessária sanidade. Mandello era um italiano irmão do melhor filho de Ortello à época, de nome Macherio e era roncolho o que lhe provocava um temperamento ruim que se refletia, em agressividade e mau estado físico. Foi um fracasso na reprodução, assim como Empyreu, um irmão próprio do excelente e invicto Emerson, ele tinha uma pequena ponta de classe, mas a sua saúde no geral não era boa. Empyreu também não alcançou o sucesso na reprodução . Pedigrees, campanhas, tipos físicos, tudo pode e deve ser levado em conta mais não há garantia quanto à generosidade da transmissão de qualidades, um exemplo interessante foi dado há muitos anos pelo Haras Conzo, com o final da 2ª Guerra Mundial (1939 – 1945), a Europa estava em péssimas condições, e naturalmente havia facilidades para que fossem importados de lá animais de teóricos grandes valores, o citado haras comprou na Inglaterra dois cavalos para a reprodução de notórias pretensões, Baroda Squadron nascido em 1942, era filho de Solario em égua por Sansovino, e Simplon Express nascido em 1946 filho de Nearco, o cavalo do século, em filha de Son-In-Law, esse um dos maiores produtores de stamina, de fundo.  Dois pedigrees excelentes de alto padrão internacional que por muitos anos trabalharam no haras. Baroda Squadron chegou a dar uma boa potranca de nome Faz Assim que em 1956 venceu o Diana Paulista, nada de muito especial, mas uma boa potranca. Os outros produtos desses dois garanhões não tiveram destaques especiais. Faz Assim tinha como mãe a argentina Remolacha, filha de Gringaso um garanhão de certa qualidade na Argentina. Na prática os dois citados, dois importados da Inglaterra, com papeis de padrão internacionais foram dois fracassos.
É difícil ganhar da natureza no jogo de xadrez.
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