18 de setembro de 2014, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

18 de setembro de 2014, por Milton Lodi

Nem os mais entusiasmados otimistas poderiam imaginar o espetacular sucesso da promoção realizada pelo Jockey Club do Rio Grande do Sul. O quase inimaginável encontro no Hipódromo do Cristal entre os dois jóqueis que,com cerca de 12.300 vitorias cada um, são os maiores ganhadores de corridas no mundo em todos os tempos, arquitetado e organizado pelos turfistas gaúchos, parecia e era um sonho aparente irrealizável. Mas os gaúchos traçaram um pretencioso plano de realizações, no sentido de projetar o turfe gaúcho bem além de suas fronteiras. Receber os campeões Jorge Ricardo e Russell Baze foi na prática menos difícil do que se imaginava. E a data do encontro foi marcada para 5ª feira, dia 18 de setembro de 2014. A simples ideia do jornalista Marcos Rizzon, após apresentada e estudada pela diretoria do Jockey Club do Rio Grande do Sul criou, empolgou jornalistas, diretores do clube, funcionários, profissionais do turfe, todos unidos para tentar realizar uma festa turfística de sucesso. 
 
E ela veio de forma esplendorosa. Foi muito bem preparado um grupo de cinco páreos, com limite de 5 ou 6 concorrentes, os melhores dentro de cada turma conforme a chamada, e meia dúzia de profissionais da imprensa deram os seus palpites. Foram destacados os dois melhores assim entendidos, e em cada páreo um sorteio indicaria as cinco montarias de cada um. Naqueles cinco páreos totalmente proibido o uso de remédios. Os páreos eram para animais de menos idade, preferencialmente até 3 anos de idade.
 
A notícia do evento ganhou o mundo, e no dia estavam presentes turfistas do Rio, de São Paulo, do Paraná, do Norte e do Nordeste e a transmissão dos páreos cedidas para o Paraguai, Uruguai, Argentina, Chile, Estados Unidos, Espanha, Alemanha e Austrália, entre outros. A cidade de Porto Alegre passou a promover e viver uma grande festa turfística, com os anúncios e informações diárias referentes ao internacional evento. Na 3ª feira dia 16, chegou a Porto Alegre o canadense Russell Baze, radicado no Norte da Califórnia, perto de San Francisco, e sediado no hipódromo Golden Gate. Trouxe a família, e uma enorme simpatia. Veio um dia antes do necessário porque queria conhecer a raia da competição.
 
Galopou três animais, deu-se por satisfeito, entendeu ser a raia muito boa. Na véspera dia 17 chegou de Buenos Aires o nosso campeão Jorge Ricardo, também com a sua família. Foram hospedados no melhor hotel da cidade e sempre cercados por jornalistas, fotógrafos, e com muita simpatia respondendo a perguntas e sendo fotografados. Foi preparado um cerimonial, uma agenda de compromissos que permitissem aos dois astros a possível melhor e maior comunicabilidade com os turfistas. Camisetas, bonés, todos com direito de ser autografados pelos dois campeões, um sucesso de organização. A simplicidade e a simpatia do canadense Russell Baze demonstram que ali esta um verdadeiro campeão, acostumado com a glória e manifestações de entusiasmo. Ricardinho era o mesmo de sempre, simpático, amável com todos, e alegre. 
 
O primeiro dos 5 páreos do confronto seria o 4º páreo do programa, e no início da tarde os dois campeões foram lado a lado, entrevistados pela televisão. Os dois sorridentes e amáveis, respondiam com simpatia e verdade as perguntas que lhes foram feitas. Ricardo disse que na entrevista dele não era um desafio, mas uma festa turfística internacional com um bom espetáculo de corridas, e que o seu maior desejo era voltar a ser o campeão mundial em número de vitorias. Russell Baze disse que o que ainda lhe faltava em sua carreira era à oportunidade de participar da tríplice coroa norte-americana e da Breeder’s Cup, o que para ele é difícil pois é domiciliado em um pequeno hipódromo, longe dos grandes centros promotores de corridas. Após cumprimentos é a execução dos hinos do Brasil e dos Estados Unidos (Baze é canadense, nascido em Vancouver mas está a muitos anos radicado nos Estados Unidos), os dois jóqueis foram se preparar para montar.
 
No 4º páreo do programa, o 1º do confronto, havia uma égua com grande destaque, franca favorita, rateio de 1,2 por 1, e coube ao canadense sair com vantagem. A potranca venceu facilmente de ponta a ponta, com o canadense sendo assediado desde a largada pela potranca do Ricardo, tendo havido luta com as duas emparelhadas por mais de 800 metros. No final Baze fez correr à favorita e venceu facilmente, tendo a potranca montada pelo Ricardo retrocedido para o 3º lugar. Com o sistema de pontuação de 16 pontos para o 1º, 7 para o 2º, 6 para o 3º, 5 para o 4º, terminou o 1º páreo mostrando 10 pontos para Baze e 6 para Ricardo.
 
Veio o 2º páreo, a melhor montaria era do Ricardo. O cavalo dele era espontâneo, o de Baze correria atrás. Ricardo correu em 2º, perto, e Baze lá atrás. Na reta o cavalo do Ricardo não conseguiu passar pelo ponteiro. Resultado, 2º para Ricardo que com 7 pontos mais os 6 iniciais ficou com 13. Baze chegou em 4º, com os 5 pontos mais os 10 iniciais, foi a 15. Naquele momento Baze 15 e Ricardo 13.
 
No 3º páreo, Ricardo e Baze lutaram cabeça com cabeça boa parte do percurso, e no disco o cavalo de Baze tinha uma cabeça de vantagem. Mais 10 pontos para Baze, somando 25 e mais 7 para Ricardo, que ficou com 20.
 
No 4º páreo do confronto, com o cavalo de Baze batido e o de Ricardo muito perto da vitória, surgiu um azarão montado por um jóquei local ganhou por pequena diferença. Com o 3º Baze foi para 31 e Ricardo para 2º para 27. Esse era o programa, antes do 5º e último páreo do confronto.
 
No 5º páreo o cavalo do Ricardo era a grande força, e dos outros cinco competidores, um não estava no páreo. O cavalo de Baze era um dos quatro competidores que lutaram pelas colocações.
 
O resultado do páreo determinaria o vencedor do confronto. A primeira e única chance de Ricardinho era vencer, passando então de 27 pontos para 37. Baze com 31se chegasse em 2º iria a 38, e seria o campeão. Se entrasse em 3º iria a 37 empatando o confronto com Ricardo. Se chegasse em 4º ou 5º, ficaria com menos de 37 e como isso Ricardinho seria o campeão. A expectativa geral era que Ricardinho iria para a ponta para decidir logo à carreira, e Baze aguardaria a última reta para a melhor colocação possível. Mas o Ricardinho surpreendeu o mundo turfístico, com o grande favorito correu em 4º logo atrás do Baze, correndo para ganhar sem maiores riscos. Se na entrada da reta final, dominou o páreo e esperou os últimos 200 metros para fazer correr. Venceu fácil, e por boa diferença. A sua parte era ganhar, chegar aos 37 pontos, e esperar pela colocação do Baze.
O canadense, com muita experiência, sensibilidade, classe e vontade de ganhar, fez tudo que poderia ser feito, mas terminou em 4º lugar, e com 5 pontos obtidos, foi a 36, um ponto atrás do Ricardo. Para o êxito total do empreendimento não faltou nada.
A festa da vitoria tomou conta do Hipódromo do Cristal.
 
Após as comemorações, na entrevista pela televisão, Ricardo destacou três pontos. Primeiro parabenizou o Jockey Club do Rio Grande do Sul pelo sucesso do empreendimento. Depois disse que estava muito feliz com o resultado da competição, mas achava que o resultado mais justo seria um empate, por tudo que Russell Baze havia demonstrado. E finalmente, muito comovido, dedicou a vitória ao pai Antonio Ricardo, o seu grande mestre e amigo, aquele que lhe havia ensinado tudo que sabia.
 
Com o evento principal encerrado, com a 5ª prova do confronto e 8º páreo do programa, restou ainda ao Ricardinho mais um compromisso. É que o jóquei de um dos favoritos do 11º páreo do programa, do mesmo proprietário do cavalo com que vencera a 5ª etapa do confronto, tinha sofrido um acidente e tinha que ser substituído. Ricardinho foi convidado à substituição e aceitou. É claro, ganhou.  Esse 11º páreo foi irradiado pelo locutor oficial das corridas do Hipódromo de San Isidro, que como muitos estrangeiros foram participar da espetacular promoção.
O mais importante da promoção não foi o resultado mas a promoção em si, que faz parte de uma inteligente planificação do Jockey Club do Rio Grande do Sul em elevar o turfe gaúcho para o relevante espaço que ele merece.
 
Dentro do audacioso plano já está determinada a dotação do Grande Prêmio Bento Gonçalves de 2014 de 100 mil reais para o proprietário do cavalo vencedor, a melhoria das dotações das outras provas importantes do meeting do Bento, e a promoção de um Grande Prêmio Latino-Americano no Hipódromo do Cristal.
Alem disso há o projeto chamado “Star Wars” (Guerra das Estrelas), constituído por um confronto entre seis dos melhores jóqueis do mundo, quais sejam: Ricardo, Baze, Falero, João Moreira, Dettori e o campeão japonês.
E não seria demais admitir-se, em setembro de 2015, a realização do 2º desafio dos campeões. Além de tudo que o Jockey Club do Rio Grande do Sul proporcionou aos bons turfistas, ainda deu a oportunidade de vermos de perto em ação um verdadeiro astro das rédeas, um jóquei inteligente, sensível, técnico, com uma arte de montar difícil de ser normalmente vista.
 
Russell Baze é um mestre. 
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