Alguns, entre os melhores, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Alguns, entre os melhores, por Milton Lodi

Muitos animais de primeira qualidade passaram pelas pistas brasileiras. Aqueles que são turfistas novatos, isto é, aqueles que têm menos de 20 anos de turfe, não tiveram oportunidade de ver exibições de gala, não é o caso de ser saudosista, mas antigamente, os grandes corredores arrastavam multidões ao prado para vê-los correr. Em São Paulo, nos dias em que Farwell ia correr, o prado ficava cheio, todos queriam ver mais uma exibição do preto do Haras Jahú e Rio das Pedras, que sempre massacrava os seus adversários, vencendo de ponta a ponta por boa margem. Uma de suas mais impressionantes vitórias deu-se no GP Derby Sulamericano em Cidade Jardim, 2.400 metros quando enfrentaria entre outros o ótimo Hyperio, da coudelaria Cápua. O jóquei de Hyperio seria o extraordinário chileno Luiz Diaz, que parecia ter um cronômetro na cabeça. Diaz havia estudado um eventual ponto fraco de Farwell, que não havia encontrado. Como o campeão sempre tomava a liderança logo na partida, e seguia sem ser incomodado até a linha de chegadas, Diaz entendeu que talvez fosse o caso de tentar pressioná-lo desde o pulo de largada, obrigá-lo a dar o máximo logo no princípio; talvez dessa forma houvesse uma diminuição do ritmo na parte final, ante um eventual e natural cansaço maior. Dada à partida, Hyperio foi lançado por Diaz em direção a Farwell e deu várias chicotadas no ponteiro, que já lhe ia um pouco à frente. O campeão nunca havia sentido o não gosto de um chicote, e disparou na frente em alta velocidade. Hyperio foi mantido em 2º, mas nos 1.600 finais, já cumpridos 800 metros, Diaz viu que o ritmo alucinante daqueles outros que não queriam ficar longe demais não era conveniente, Hyperio não iria conseguir manter-se em 2º até o final, já que a vantagem de Farwell já era definitiva. Hyperio foi sofreado para a última colocação, e na reta arrematou sobre um lote de cansados, conseguindo o 2º lugar. Mas Farwell disso não tomou conhecimento, largou em disparada e chegou ao vencedor demonstrado uma incrível superioridade. Farwell foi invicto em suas quinze corridas no Brasil. Correu duas vezes na Argentina, em San Isidro, foram dois segundos. Nas duas viagens chegou para correr com diarreia, ele viajava mal, mas a ordem era correr de qualquer maneira, e sempre na frente. Das duas vezes o seu veterinário Fernando Pereira Lima quis retirá-lo, mas a ordem de um dos proprietários, Nelson de Almeida Prado, era correr de qualquer maneira, e na ponta. No 25 de Mayo, Farwell perdeu para Escorial, outra das glórias do turfe brasileiro, após uma sensacional luta em toda a reta final. O outro segundo foi também em 1960, também em San Isidro, no Pellegrini. Farwell com diarreia, não conseguiu sequer correr na ponta, correu sempre em 2º, tentando tomar a ponta de Atlas. Farwell, um dos ganhadores do G.P. Brasil era fantástico. Do mesmo haras há que ser destacado Adil, um cavalo de porte médio, filho de um garanhão inexpressivo na Europa, mas que cobriu a mãe de Adil porque, na temporada de coberturas de segundo semestre na Inglaterra, havia quase nenhuma disponibilidade dos garanhões melhores. A mãe de Adil foi ótima mãe no Brasil, e Adil um super corredor em provas de distâncias maiores. Um grande campeão, praticamente imbatível em sua época. Ele foi indiretamente participante de um fato histórico. O saudoso “Seu” Thomazinho, inventou um Derby Sul-Americano, com alta dotação, para ser disputado na primeira semana de maio. Dada publicidade à prova, após determinação da Diretoria do Jockey Club de São Paulo, Nelson de Almeida Prado, irmão do Presidente João Adhemar, procurou-o nas corridas. Estava contrariado, pois o G.P. Derby Sul-Americano iria ocupar a data do G.P. São Paulo, passaria a ser também o G.P. São Paulo, e assim, como Derby dele só poderiam participar animais de 3 anos de idade. Dessa forma excluindo a possibilidade de Adil, então tricampeão do G.P. São Paulo, de tentar o tetra, feito quase impossível de ser posteriormente batido. É claro que o Dr. João Adhemar não gostou, mas manteve a decisão da Diretoria. O Derby Sul-Americano teve êxito retumbante por muitos anos, e Adil ficou sem o seu tetra. Farwell não teve filhos, mas Adil foi um bom pai clássico.

Do Haras São Bernardo, dois nomes devem ser lembrados com realce. O principal foi Gaudeamus, um milheiro quase imbatível, talvez o melhor milheiro brasileiro de todos os tempos, que por sua altíssima qualidade aventurou-se em provas clássicas superiores, onde era ainda um ótimo corredor clássico, mas fora de sua exponencial especialidade. Outro nome importante do São Bernardo foi Quartier Latin, em plano não tão alto, mas ganhador dentre outras provas de 4 milhas internacionais.

Do Haras Guanabara pelo menos três nomes destacam-se na galeria da fama. Escorial, um filho de Orsenico, tríplice-coroado, ganhador do G.P. 25 de Mayo de 1960, ganhador do Pellegrini de 1959, um corredor de altíssima qualidade, e o nome mais lembrado merecidamente. Mas ele talvez ainda não fosse o melhor da poderosa criação Seabra. Emerson, um invicto filho de Coaraze e Empeñosa, ganhador dos Derbies carioca e paulista, e ainda do Derby Sul-Americano, era tecnicamente um elemento só de qualidades, e que em má hora para o tufe brasileiro foi ser garanhão na Europa, onde brilhou intensamente. Emerson nem sempre é lembrado, mas foi um grande astro da criação brasileira. Duplex é um terceiro brilhante da criação Seabra, ganhador da principal prova de Monterrico, em Lima, Peru, do Latino-Americano em San Isidro, da milha internacional de Palermo e do Ramirez, em Maroñas.

Do Paraná três nomes devem ser citados. Sandpit de criação do Haras São José da Serra, foi o cavalo brasileiro que, nos Estados Unidos, obteve o maior volume de prêmios para um corredor brasileiro. Sandpit foi ótimo corredor no Brasil (ganhador do GP Cruzeiro do Sul, por exemplo) e no exterior, até no Japão fez uma incursão. Nascido no Haras J.B Barros, Much Better marcou importante presença da criação brasileira. Grande, forte, muito corredor, valente, Much Better deu-se ao luxo, entre outras proezas, de vencer o G.P. São Paulo e o G.P. Brasil, além de, por, duas vezes,  ganhar o Latino-Americano e o Pellegrini. Much Better era de uma vitalidade incrível. Outro dos melhores nomes a serem lembrados é o de Giant, um tríplice-coroado paulista, que dominou por completo a sua geração, apesar de ter gravíssimos problemas nos tendões. Giant não foi ainda mais brilhante em função da debilidade dos seus tendões, era forte, muito corredor, um autêntico líder de turma.

Do tradicional Haras São José e Expedictus, um dos mais famosos nomes é o de Itajara. Invicto em sete apresentações foi um autoritário tríplice-coroado carioca. Muitos dos turfistas mais recentes entendem ser Itajara o melhor cavalo brasileiro de todos os tempos, o que os fatos desmentem, sem com isso tirar o intenso brilho de sua qualidade. Só correu contra animais de sua idade, em geração não forte, e nunca enfrentou os mais velhos. Isso não diminui a sua alta qualidade. Era um lindo cavalo, de estrutura física especialíssima. Do mesmo haras saiu Helíaco, um alazão bicampeão do G.P. Brasi, líder de sua geração, com um pedigree que continha os nomes mais importantes daqueles campos de criação. Na reprodução, as chances iniciais de Helíaco foram prejudicadas pela consanguinidade com as melhores éguas do plantel, o que foi posteriormente sanado com a importação de éguas importadas de sangues generosos e importantes. Ainda assim deu um ganhador de Cruzeiro do Sul, Gomil, e uma ganhadora de Diana, Valence.

Narvik foi também um dos grandes. De excelente criação do Haras Faxina, de Henrique de Toledo Lara, era grande e forte, contrariando o gosto do seu criador, que só gostava de animais pequenos. Mas Narvik impôs a sua qualidade, mesmo tendo nascido em uma fortíssima geração. Era um cavalo de padrão internacional, recordista mundial dos 3.000 metros na grama carioca, um corredor de primeira ordem. Infelizmente, não teve filhos.

Da mesma geração fortíssima referida, também fez parte Vândalo, da criação Mondesir. Ele, assim como os tríplice-coroados Quiproquó e Timão, todos, nomes a serem lembrados. Outro nome bom é o de Falcon Jet, do Haras Santa Ana do Rio Grande, ótimo ganhador clássico, e também pai clássico, que teve a sua chance de vitória no Pellegrini jogada fora por instruções completamente erradas. Penso que ele não teria vencido mesmo com uma instrução correta, mas o 2º seria dele.

Muitos outros nomes importantes podem e/ou devem ser apontados, como por exemplos, Thignon Lafré, ganhador do Derby Paulista e do GP São Paulo, de criação do excelente Haras Malurica, e de Troyanos, ganhador do Derby Paulista, do São Paulo e do Brasil, de criação do Haras Santa Maria de Araras.

Uma apreciação ao longo do tempo, na procura dos melhores da criação brasileira em todos os tempos, seria impraticável. O turfe brasileiro não tem memória, além do que seria um trabalho gigantesco, que não é o caso presente. Os nomes citados estão entre os muitos daqueles que representaram com sucesso a criação brasileira, dentro e fora do nosso país.

É também de se notar que também as opiniões divergem, e isso é bom, pois falar de turfe só faz bem.

Esse trabalho aborda apenas os cavalos machos e nacionais. Futuramente serão apreciadas também as melhores éguas, fêmeas e que sempre sem um intuito comparativo, o que na prática é impossível de ser justa.

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