Antonio Jorge Ribeiro de Camargo era um médico radicado em Curitiba, Paraná, e apaixonado pelo turfe, e obteve muito sucesso com o seu Haras Palmital. Em 1964 nasceu em seu haras um potro que foi marcante na história do Palmital.
Antonio Jorge Ribeiro de Camargo havia importado da Inglaterra um cavalo aparentemente de futuro apenas relativo, Cigal, que acabou transformando-se em grande sucesso, apesar de transmitir, além de qualidades, uma tara muito ruim, qual seja, debilidade nos tendões dos anteriores. Esse grave problema atrapalhou um eventual enorme sucesso, mas não foi o suficiente para impedir que o tal potro, nascido em 1964, fosse um animal de alta classe. Giant, filho de Cigal e Unista, por Angélico, pedigree aparentemente não nobre apresentou-se nas pistas como líder absoluto a geração, de um ano em que também haviam nascido outros muito bons produtos. Eu mesmo tinha um, Moustache, filho do alemão Takt na maravilhosa Elizabeth, ganhadora de especial prova de velocidade para éguas no Hipódromo de Palermo, na Argentina, e que era depositário de enormes esperanças. Moustache já havia conseguido a sua primeira vitória no início dos seus três anos de idade, e antes de eu decidir corrê-lo na primeira prova da tríplice coroa paulista, fui trocar ideias com o homem-de-cavalos dos Haras Jahú e das Pedras, o veterinário Fernando Pereira Lima, que me chamou a atenção para dois detalhes importantes. Giant já começara com problemas iniciais nos tendões, mas com a sua superior classe iria se sobrepor a tudo para ser um tríplice coroado. Mas sob o ponto de vista veterinário, após a tríplice-coroa ele teria que ficar um bom tempo afastado das pistas, o que o impediria de correr o Grande Prêmio de São Paulo de 1968. Os melhores potros brasileiros iriam sofrer muitos desgastes físicos na tentativa de ganhar do Giant, mas pela lógica, o potro paranaense não deixaria de ser tríplice-coroado. Tomei então uma resolução sofrida, resolvi dar ao Moustache um descanso nos últimos quatro meses do ano, e em princípio de 1968 iniciar os preparativos e os testes para tentar vencer o G.P São Paulo, ai então livre do Giant. Tudo correu conforme previsto, Giant venceu de forma autoritária as três provas da coroa, tendo nas três oportunidades sido secundado por Osman, um filho do alemão Takt, por mim importado, e de égua francesa trazida anteriormente pelo meu pai. Giant venceu brilhantemente, e teve que parar com os seus tendões muito avariados. Durante o tempo em que ele ficou parado, primeiro semestre de 1968, Moustache reapareceu em um páreo comum, em 1.600 metros, vencendo muito bem. A seguir, venceu brilhantemente uma prova especial em 2.000 metros, e depois foi ao G. P. São Paulo. Foi uma reta final empolgante, pois El Centauro, do saudoso amigo Mário C.T. de Souza, com Albenzio Barroso, firme na ponta, e sendo assediado por Sabinus, Osman, Moustache e Junior. No meio da reta final, como de hábito Sabinus abriu quando cansou, e pelo espaço atropelaram Moustache, com Antonio Bolino, e Junior, com Gastão Massoli. Na linha de chegadas, 1º Moustache, 2ºEl Centauro, 3º Osman, 4º e 5º Junior e Sabinus. Tanto pelo prazer da vitória foi o fato de um planejamento perfeito.
Giant ficou de fora das pistas alguns bons meses, e quando voltou, apesar de “remendado”, ainda venceu provas nobres. Na reprodução, não recebeu tudo o que merecia em função do medo de geral quanto à transmissão da tara, mas mesmo assim produziu ganhadores de muito bom padrão, inclusive ganhadores clássicos. Giant não foi o único filho de Cigal, e dentre outros houve Lunard, que terminou como garanhão do vitorioso Haras Expert.
Passados alguns meses da tríplice-coroa de Giant, o criador Antonio Jorge Ribeiro de Camargo telefonou para a sede da Associação Brasileira, gestora do Stud Book Brasileiro, em São Paulo, dizendo que um procurador dele havia falsificado assinaturas e vendido três produtos da geração mais nova, um deles irmão próprio do Giant. Pedia os documentos das três transferências, para qualificar um processo criminal. Conversei com o então Presidente Luiz (Zizo) Vieira de Carvalho Mesquita, que decidiu solicitar ao criador uma carta bem circunstanciada, detalhada, e após a chegada da carta mandar os documentos. O criador foi informado, e a Associação passou a aguardar a tal carta. Na semana seguinte o criador voltou a telefonar, os solicitados documentos ainda não havia chegado. Foi então lembrado a ele que a Associação também não havia recebido a solicitação circunstanciada por escrito. Algum tempo depois, a gerente encarregada dos arquivos procurou a Diretoria pra tratar de um assunto especial. Ela contou que o criador paranaense havia sabido que ela entraria em férias, e oferecia para que ela fosse passar uma semana no Haras Palmital. A gerente foi com a mãe dela, foi muito bem tratada, e voltou feliz com a tal semana de descanso. Mas no dia seguinte à volta a São Paulo, o criador telefonou para ela do Paraná, dizendo que precisava dela um pequeno favor, qual seja, que ela retirasse dos arquivos os documentos das fraudulentas transferências, e as enviasse para que ele entrasse com o processo criminal. A gerente, de nome Maria Clara, disse à Diretoria que desde pronto se negara, e que do fato iria dar conhecimento, o que estava fazendo naquele momento. O Presidente Zizo mandou que ela retirasse dos arquivos os referentes documentos, e os colocasse no cofre, onde ficavam outros documentos de maior valor. O assunto esfriou, até que a Associação tomou conhecimento de um processo criminal impetrado pelo criador contra a Associação, que havia aceitado às três assinaturas falsificadas. Foi contratado um advogado, a Justiça solicitou os tais documentos à Associação, que naturalmente foram entregues sobre protocolo. O advogado informou que na verdade dois réus, a Associação pela aceitação de documentos com assinaturas falsas, e o tal falsário. No fim, a Justiça condenou o falsário e absolveu a Associação, sob a alegação de que os exames grafológicos, ou grafotécnicos, haviam mostrado uma falsificação muito bem feita, imperceptível para leigos.
Como é que eu sei disso e dos detalhes? Simples, à época eu era o Diretor-Secretário da Associação, e eu, em nome da Associação, era quem cuidava diretamente com o pessoal do Stud Book Brasileiro (Diomedes Torrano, Dino Zannetti, Maria Clara, mais uns poucos funcionários e veterinários).
