Blusas, cores e fardas, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Blusas, cores e fardas, por Milton Lodi

Um dos detalhes que colaboram para a plástica beleza das corridas de cavalos é o multi colorido das blusas. As blusas também são chamadas de cores e, ainda, no linguajar diário dos turfistas erroneamente de fardas. No linguajar turfística popular, algumas palavras são ditas erroneamente, como, por exemplo, “forfait”, que na verdade é o preço, o pagamento pela retirada de um cavalo de um páreo sem justificativa. No caso, em lugar de “retirada” (“o cavalo foi retirado”), diz-se “fez forfait”. É inadequado, mas usual.

Alguns Hipódromos menores, no Brasil e no exterior, em função de facilidades, é usado um sistema de dar a cada número no programa uma fixa cor diferente. Assim, o número 1 sempre leva a blusa branca, o 2 a preta, o 3 a amarela, o 4 a azul, o 5 a encarnada, o 6 a verde, e assim por diante. É um artifício para facilitar àqueles que assistem o desenrolar dos páreos a identificação dos animais. Muitas vezes os clubes pequenos têm que praticar as suas corridas com imaginação, dadas eventuais faltas de recursos. Além da beleza multicolorida das blusas, que ajudam na distinção dos animais nas pistas, há o cuidado de preservar a propriedade de cada um, mas, no caso de parelhas, haver uma distinção. Antigamente a distinção era feita com a utilização de uma faixa de cor diferente às das blusas. De alguns anos para cá, é também utilizada para efeito da distinção o uso de um boné de cor diferente.

A importância da blusa para o proprietário é enorme, representa a bandeira do Stud. E o Jockey Club Brasileiro e o Jockey Club de São Paulo compreendem isso, e “protegem” aquelas mais significativas para o turfe brasileiro quando a blusa dignificada deixa de ser usada, de um modo geral pela morte do proprietário e/ou criador. Elas voltam a ser utilizadas se solicitadas por turfistas da mesma família, e se houver nova interrupção ela volta a permanecer “protegida”.

O assunto é tratado com seriedade, e na descrição nos programas quando de pequeno espaço, há que usar de inventivas. Por exemplo, como o diminutivo de Verde é Ver, que é o mesmo de Vermelho, na terminologia turfística o vermelho foi substituído por Encarnado, com o diminutivo de Enc.

As blusas, além das cores, apresentam muitas vezes configurações diferentes, e são essas diferenças que mostram aos turfistas a diversidade colorida. Vou dar alguns exemplos:

– Com costuras – Haras São José e Expedictus (ouro, costuras azuis e boné ouro), Stud Quintella (preto, costuras e boné verde), Jorge Jabour (encarnado, costuras e boné azuis).

– Listas horizontais – Haras Maranguape (azul e ouro em listas horizontais), Haras Louveira (azul e branco em listas horizontais e boné azul), Stud Verde e Preto (verde e preto em listas horizontais), Haras Faxina (preto e ouro em listas horizontais), Haras Jahú e Rio das Pedras (cinza e verde em listas horizontais).

– No sentido horizontal as “listas” são mais largas que as verticais, que são chamadas de “listras”. Por exemplo, Haras Guanabara (preto e verde em listras verticais), Haras Ipiranga (solferino e azul em listras verticais), Haras Regina (preto e encarno em listras verticais).

– A palavra “amarelo” não consta de registros e programas, substituídas por “ouro”. De um modo geral, quando está escrito “ouro” entende por “amarelo”. Mas por duas vezes em São Paulo o proprietário registrou só “ouro”, blusa lisa. O Haras São Miguel Arcanjo corria com a blusa toda amarela, mas posteriormente o Stud Fafy não aceitou correr com amarelo. A solução, inteligente por sinal, foi figurar “ouro” nos programas e a blusa na prática ser toda dourada. No caso das blusas de uma só cor, temos como, por exemplo, a rosa (Albano Gomes de Oliveira), azul (Haras Tributo à Ópera), encarnada (Stud Brincadeira), verde (Stud Correas).

– Outra opção é a das blusas estreladas. Por exemplo, D. Zélia Gonzaga Peixoto de Castro (branco e estrelas azuis), Antonio Joaquim Peixoto de Castro Junior (azul e estrelas brancas). A D. Zélia e o Dr. Peixoto eram o Haras Mondesir, que posteriormente passaram à propriedade dos netos irmãos Antonio Joaquim e Paulo Cesar Palhares. Como as duas blusas do Mondesir ficaram para o neto Sérgio, do Haras Itaiassú, o Mondesir ficou com a blusa do saudoso Julio Capua, do Haras Vale da Boa Esperança. O Haras Doce Vale, que primitivamente tinha uma blusa marrom e ouro, ficou com a do grande turfista Roger Guedon (banco, cinto azul e encarnado).

Outro ramo das configurações das blusas é o das cruzes de Santo André. Por exemplo, Haras Santa Ana do Rio Grande (preto, cruz de Santo André e boné ouro), Haras Bela Esperança (laranja, cruz de Santo André e boné verde).

Uma das mais tradicionais blusas do turfe brasileiro é a de Antenor de Lara Campos, com a blusa toda lilás, cuja cor os seus descentes turfistas mantiveram dentro do possível a cor lilás participando das cores das blusas. Um exemplo é o Haras Malurica.

O estilo do corpo diferente das mangas e do boné tem ótimos representantes. O citado atual Mondesir (branco, mangas azuis e boné encarnado), Haras São José da Serra (branco, mangas e boné azuis), Haras Santa Rita da Serra (azul, mangas laranja, boné preto com uma estrela laranja).

Há blusas importantes e simples como as do Haras São Bernardo (ouro e braçadeiras pretas) e do Tamboré (branco e braçadeiras pretas). Há as de uma só cor com o boné diferente, como Haras Vargem Alegre, o Ministro Oswaldo Aranha (preto e boné encarnado) e Rubens Antunes Maciel (preto e boné azul celeste).

Há outras simples e bonitas com um cinto como diferença, por exemplo, o Haras São Luiz (verde, cinto e boné pretos), Stud Paisano (branco, cinto encarnado e boné azul), Haras Anderson (preto, cinto branco e encarnado, e boné encarnado). No setor dos cintos, há uma blusa tradicional que se modificou um pouco e continua na ativa. O Benemérito Adhemar de Faria (pérola – um branco brilhante – cinto e boné encarnado). O filho dele, Roberto Gabizo de Faria, era encantado por um cavalo inglês importado, um bom corredor que tinha a blusa branca, cinto e boné preto. Quando Roberto Gabizo de Faria passou a ter os seus próprios cavalos, registrou uma mescla das cores do pai e do cavalo inglês Printer, registrando branco, cinto preto e boné encarnado, blusa que permanece ainda em atividade através do Stud Roberto Gabizo de Faria, da parceria Cezar Faria e Paulo Roberto Arroxelas.

Há blusas bem diferentes, como a do Haras Rosa do Sul (branco, rosa e boné rosa). A descrição nos programas era branco, símbolo e boné rosa, na prática o símbolo era uma flor, rosa, que dava ao Stud o nome da mãe do proprietário Matias Machline, cuja mãe chamava-se Rosa e morava em Bagé, Rio Grande do Sul.

Fato curioso ocorreu quando o vitorioso proprietário José Buarque de Macedo (ouro, friso e boné azul), semelhante à blusa do Haras São Quirino (laranja, friso e boné verde), entendeu de encerrar as atividades de seu Stud. Ai o meu pai comprou as potrancas Jocosa e Jutlândia, respectivamente líder e vice-líder da nova geração. Em época da política em ebulição, o meu pai entendeu de registrar as duas potrancas em nome de um novo Stud, o Jardim Botânico, que passou a figurar em nome de três amigos. Quando Jocosa foi correr um Grande Prêmio em São Paulo, o treinador foi multado por não ter levado a blusa do Stud o que na verdade não ocorrera. É que a blusa registrada, encarnado e branco em listas horizontais, eram exatamente as cores, a bandeira do Jockey Club de São Paulo. O responsável pelo registro não podia ter aceito aquela blusa. Assim, quando Jocosa posteriormente venceu o Grande Prêmio São Paulo, já estava com a blusa solferino e azul em listras verticais.

Antigamente mais de uma blusa tinha no boné uma borla, hoje substituída por um botão. Uma das tradicionais era a de Jayme Muniz Aragão (salmon, boné azul e borla ouro). O Haras Eduardo Guilherme usava branco, manchas (bolas) azuis e encarnadas.

Há uma blusa comprada em hasta pública nos Estados Unidos pelo Stud T.N.T., a da Calumet Farm (encarnado, gola, braçadeiras, gravata e boné azuis). O vitorioso Stud Alvarenga tem em lateral azul e branco (azul em cima e branco em baixo), boné azul com estrala branca.

As variações são muitas, vai das mais complicadas às mais simples. Uma das simples é a do haras campeão Santa Maria de Araras (azul e encarando em listras verticais, mangas e boné brancos)

A grande quantidade de blusas registradas impede, em um simples artigo, a enunciação de todas elas, mas pelos exemplos citados e as inventivas à solta, pode-se imaginar a profusão de cores, de listas e listras, de símbolos, de estrelas. É na verdade um mundo de cores, que dão destaques à beleza da plasticidade das corridas de cavalos.

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