O último final de semana de corridas nacionais e internacionais era fadado ao sucesso e emoções. Não foi distante do que imaginávamos. No Kentucky Derby, a corrida mais tradicional dos Estados Unidos, uma vitória digna de roteiro para filme. A treinadora Cherie DeVaux entrou para história com o êxito de seu Golden Tempo.
Em São Paulo, uma vitória surpreendente que realizou sonhos, tanto de Thiago Haidar (treinador), como de Fernando Larroque (jóquei). Duas figura do turfe paulistano, que não desistiram e seguiram batalhando, sendo recompensados com a glória.
Durante décadas, o turfe foi um universo moldado quase exclusivamente por homens. Das cocheiras aos grandes hipódromos, mulheres precisaram lutar silenciosamente por espaço, respeito e reconhecimento. Muitas vezes desacreditadas, elas seguiram trabalhando antes do amanhecer, enfrentando rotinas exaustivas, treinando cavalos, estudando corridas e provando diariamente que talento, liderança e sensibilidade não têm gênero. Cada pequena conquista feminina dentro desse esporte abriu caminho para que outras sonhassem mais alto.
Por isso, a vitória de Cherie DeVaux no Kentucky Derby de 2026 transcendeu o esporte. Ela representou um momento histórico, simbólico e profundamente emocionante para todas as mulheres que dedicaram suas vidas às corridas de cavalos. Ao apresentar o azarão Golden Tempo em Churchill Downs, DeVaux não venceu apenas uma prova, ela derrubou uma barreira construída ao longo de mais de um século de tradição.
Sob o comando preciso do jóquei José Ortiz, Golden Tempo iniciou uma arrancada inesquecível. Passo após passo, foi superando adversários até cruzar o disco em primeiro lugar diante de um Churchill Downs em êxtase. Nas arquibancadas, milhares de pessoas testemunharam não apenas uma vitória improvável, mas um capítulo histórico sendo escrito diante de seus olhos.
Quando Cherie DeVaux apareceu emocionada após a corrida, com lágrimas nos olhos e a voz embargada, o significado daquele momento ficou ainda mais claro. Ali estava uma mulher que enfrentou anos de obstáculos, dúvidas e resistência para alcançar o topo. Sua conquista tornou-se imediatamente um símbolo de representatividade, coragem e transformação.
A conquista de DeVaux mostrou às meninas que sonham em trabalhar com cavalos que não existem limites definitivos para quem possui talento e determinação. Mostrou também ao próprio turfe que tradição e evolução podem caminhar juntas. A vitória no Kentucky Derby de 2026 não pertence apenas a uma treinadora ou a um cavalo campeão. Ela pertence a todas as mulheres que insistiram em ocupar espaços onde lhes disseram que não poderiam chegar.
No dia seguinte, em São Paulo, o festival paulista também revelou um desfecho espetacular, com uma chegada sensacional. Atropelando do fundo do lote, sob o comando de Fernando Larroque, Quero Te Mucho eternizou seu nome. Thiago Haidar, jovem treinador, realizou um sonho de infância, mostrando ser possível alcançar grandes triunfos com muito trabalho e dedicação.
Em continentes diversos, pistas diferentes e realidades completamente distintas, o turfe apresentou a mesma essência: a recompensa para aqueles que persistem. Seja na grandiosidade de Churchill Downs ou na tradição paulista, o último final de semana mostrou que as corridas de cavalo continuam sendo feitas por histórias humanas, carregadas de superação, emoção e esperança.
Esses profissionais provaram que os grandes triunfos nem sempre pertencem aos favoritos. Muitas vezes, pertencem justamente aos que enfrentaram dúvidas, derrotas e dificuldades sem abandonar seus sonhos. E talvez seja exatamente isso que torna o turfe tão fascinante: a capacidade de transformar esforço silencioso em momentos eternos.
Entre atropeladas históricas, lágrimas sinceras e vitórias improváveis, o final de semana ficará marcado como um daqueles raros capítulos em que o esporte ultrapassa o resultado e se transforma em inspiração.

por Matheus Peres – fotos:
1 – Quero Te Mucho e sua equipe após o 103º GP São Paulo (Karol Loureiro)
2 – Cherie DeVaux e o troféu do 152º Kentucky Derby (Wral.com)
3 – Chegada do GP São Paulo 2026 – Quero Te Mucho, Zandor e Que Emoção (Porfírio Menezes)
4 & Capa – Cherie DeVaux e seu Golden Tempo (Lillian Davis/ Paulick Report)
N.R.: Matheus Peres é jornalista e agora narrador das corridas do Hipódromo da Gávea. Filho do treinador gaúcho, radicado no turfe carioca, Daniel Peres, Matheus tem toda uma vida ligada ao turfe e terá uma coluna semanal no site do Jockey Club Brasileiro.
