Um Derby como poucos, por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Um Derby como poucos, por Milton Lodi

Como diria o saudoso locutor oficial do Jockey Club Brasileiro, o ícone dos jornalistas que irradiam corridas de cavalos, Theóphilo de Vasconcelos, “tempo bom, claro e firme, temperatura agradável para uma tarde de fim de verão”. No domingo dia 16 de março de 2014, com um público maior que o habitual, realizou-se o meeting preparado pelo expert Marcos Ribas constituído por cinco provas nobres, sendo 3 grandes prêmios e 2 clássicos (provas listadas). Além disso, havia a presença de dois jóqueis com destaques internacionais, quais sejam, o nosso campeão mundial Jorge Ricardo e o irlandês Ted Durcan, habitual líder da estatística de jóqueis em Dubai, onde alterna os três primeiros meses do ano com o restante do tempo na Inglaterra.
            A 1ª prova nobre era o G.P. Jockey Club de São Paulo, em 1.000 metros, grama, para produtos de 3 e mais anos. O grande interesse geral era o confronto entre a fêmea Bottega com o macho Desejado Put. Os dois são filhos do extraordinário Put-it-Back, a égua tendo ainda como avô materno o produtor do velocistas, Southern Halo. A égua, muito ligeira, largaria por dentro, e o cavalo, que normalmente ganha os páreos curtos de acordo com os melhores preceitos técnicos, isto é, colocado para uma partida final de menos de 400 metros, pelo meio da raia. Seria um duelo de gigantes, mas embora Desejado Put tenha corrido para o seu próprio record da distância, só conseguiu um meritório 2º lugar, já que Bottega não tomou conhecimento dos adversários, largando em alta velocidade e disparando para a linha de chegadas, dando-se ao luxo de marcar, com 55,11 segundos, o novo record da distância. Foi uma vitória indiscutível, massacrante, uma exibição do mais alto nível. Treinada por R. Morgado Neto e montada por V. Gil, Bottega deu um verdadeiro “show”, e mais uma vez dando ao criador e proprietário do Haras Santa Maria de Araras, o ensejo de exibir mais uma vez o enorme poderio da criação Araras, líder nacional. Mas quem achou que com as duas primeiras colocações no G.P. Jockey Club de São Paulo o garanhão Put-it-Back já havia se mostrado suficientemente, enganou-se havia mais por vir.
            A segunda prova nobre da tarde era a 3ª prova da Tríplice-Coroa das potrancas, o G.P. Zelia Gonzaga Peixoto de Castro, em 2.400 metros, grama. Foi um páreo muito bonito e disputado, e quando se alvitrava a vitória de Fonte Azul, da parceria Quintella-Genovesi, nos últimos metros, com magistral joqueada de Alex Mota, surgiu para ganhar That Sunday, filha de First American em Tale e Quale, por Jarraar, treinada por Roberto Solanés. A excelente ganhadora é de criação e propriedade do clássico Haras São José da Serra. A 3ª colocada foi Energia Fox, com o jóquei irlandês Ted Durcan e em 4º Become Winner. Foi uma linda e disputada carreira.
            A carreira seguinte era a mais aguardada, a 3ª prova da Tríplice-Coroa de produtos de 3 anos, o G.P. Cruzeiro do Sul, em 2.400 metros, grama. A força indiscutível era o candidato à Tríplice, Bal a Bali, que havia vencido espetacularmente a milha em tempo record, e os 2.000 metros de ponta a ponta, a isso obrigado pelas características de seus adversários de então. Foi uma vitória de cavalo bom, com autoridade, mas que teve que superar detalhes conhecidos como o aumento da distância e ainda a inesperada exibição do potro Hendrix. Montado por Jorge Ricardo, que percebeu que o ritmo moderado imposto por V. Borges na liderança resultaria certamente na vitória do favorito, Ricardo usou de sua larga experiência para lançar Hendrix na perseguição de Bal a Bali. Na reta final houve um momento em que periclitou a esperada vitória de Bal a Bali, pois o pilotado de Jorge Ricardo teimou muito a esmorecer. Naquela oportunidade, Bal a Bali venceu com totais justiça e autoridade, embora a vitória tenha sido por cerca de 4 ou 5 corpos, deu susto. Mas havia chegado a hora do G.P. Cruzeiro do Sul, o Derby Brasileiro. Havia novos concorrentes, e tudo indicava que haveria  um ritmo mais forte que quando dos 2.000 metros, Bal a Bali deveria correr mais acomodado, e de Hendrix só Ricardo sabia. Dada à partida, desenhou-se um ritmo forte, o excelente V. Borges colocou Bal de Bali em 6º, e Ricardo foi para a 4ª colocação. O entendimento geral era que Ricardo só iria acelerar o Hendrix quando Bal a Bali começasse a progredir, entrando na última reta na frente do favorito. Mas não foi bem assim que as coisas aconteceram, pois Ricardo queria mais, queria que o Bal a Bali desse uma partida final mais longa, contra as características de milheiro – alongado do campeão. E na última curva, Ricardo rapidamente passou por dentro dos três adversários que lhe vinham à frente, e Hendrix já encontrou na reta final na ponta e junto à cerca interna.
Se Bal a Bali estivesse sendo montado por um apenas bom jóquei, normalmente esperaria a reta para começar a atropelar. E ia aguardar. Acontece que V. Borges é muito bom, desde aprendiz foi líder de estatística, e entendeu que tinha que ir em busca de Hendrix o mais cedo possível, mesmo arriscando-se a uma derrota, pois esperar a reta era dar a vitória ao conduzido de Jorge Ricardo. Assim, ainda na curva Bal a Bali foi acionado por V. Borges ultrapassando mesmo por fora os adversários e entrando na reta final, pelo meio da pista. Hendrix na ponta, com boa vantagem tocado pelo campeão Jorge Ricardo, Bal a Bali tentando descontar a diferença exigido a fundo pelo ótimo V. Borges, o público de pé em delírio torcendo por um novo tríplice-coroado, a linha de chegadas cada vez mais perto, e embora aos poucos perdendo terreno Hendrix não se entregava. Eles emparelharam nos últimos 200 metros, e sempre em luta Bal a Bali assumiu a liderança faltando 100 metros, vencendo por um corpo escasso e no novo record, 2.23,25. A emoção tomou conta das arquibancadas, Bal a Bali e Hendrix foram muito aplaudidos, e assim Bal a Bali, de criação do campeão Haras Santa Maria de Araras e propriedade do líder dos proprietários Stud Alvarenga, treinado por D. Guignoni e montado por V. Borges, é o novo tríplice-coroado do turfe brasileiro. Além dos normais detalhes proporcionados por um páreo desse gabarito, há alguns especiais que devem ser destacados. Um deles foi à demonstração de alta qualidade e competência de Jorge Ricardo, com uma excepcional joqueada de um experiente campeão. Outro foi à audácia de V. Borges, jóquei novo de idade e já com experiência de um veterano.
            Detalhe curioso é que tanto Bottega, nos 1.000 metros, como Bal a Bali, nos 2.400 metros, bateram os records, e são ambos filhos do garanhão norte-americano Put-it-Back, duas espetaculares vitórias, na mesma tarde, em duas distâncias bem diferentes. Há ainda a ressaltar que Hendrix é filho do garanhão norte-americano Honor and Glory, que fez temporada de monta na Argentina e lá deixou éguas cheias, antes de voltar para os Estados Unidos, onde já está velho, no Estado da Pensylvânia. Pois Honor and Glory é pai tanto de Put-it-Back quanto de Hendrix, do Haras Nacional.
            A quarta prova nobre da tarde era o Clássico Barão e Baronesa Von Leithner, em 1.600 metros para produtos de 3 e mais anos. Esse clássico homenageia basicamente o Haras São Bernardo, que tomava grande parte do tempo e do carinho da saudosa Baronesa Marie Blanche. Era um centro modelar de criação, que produziu muitos ganhadores clássicos de altíssimo nível, como Gaudeamus, Courageuse, Quartier Latin, entre dezenas de ótimos corredores. O vencedor foi Martim Caçador, um Northern Afleet em filha de Roi Normand, de criação do Haras Fronteira, de propriedade do Haras Regina, treinado por Roberto Solanés e montado por D. Duarte. Martim Caçador está visando a milha internacional do G.P. São Paulo, na última semana de abril.
            A última das provas nobres era o Clássico Escorial em 2.400 metros, grama, para produtos de 3 e mais anos. Venceu Estrela Monarchos, uma importada dos Estados Unidos, treinada por D. Guignoni e montada por V. Gil, de propriedade do Stud H & R. Essa égua é muito corredora.
            Para terminar, mais duas notícias sobre Put-it-Back, o garanhão do momento. A primeira é que a sua importação para 2014 é em termos definitivos, isto é, não sairá mais do Brasil, permanecendo no Haras Santa Maria de Araras, em Bagé. A segunda notícia é pelo menos curiosa. Em princípios de 2011, nos Estados Unidos, Put-it-Back teve que ser operado, por problemas intestinais. Quando ficou em condições de voltar a cobrir, a temporadas de cobertura do 1º trimestre já estava no fim, e ele só teria coberto 3 ou 4 éguas. Pouco depois, um criador brasileiro que havia comprado duas éguas cheias nos Estados Unidos, entendeu de deixá-las darem cria nos Estados Unidos e de lá virem com os produtos ao pé, mas também cheias, e em época do 2º semestre. Assim, uma daquelas duas éguas veio cheia de Put-it-Back, que permaneceu em 2011 nos Estados Unidos. Assim, no 2º semestre de 2012, Put-it-Back só tem um filho na temporada do 2º semestre de 2012. O potro que nasceu, e que está sendo criado no Haras Santa Rita da Serra, no Paraná, por conta de seu proprietário, irá a leilão junto com os potros do Santa Rita da Serra, na semana do G.P. Brasil, que este ano será corrido em 08 de junho. A propósito, o potro chama-se Leguisamo Solo.
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