Um dos fundistas mais expressivos do trufe mundial foi sem dúvidas o inglês Elpenor. Esse cavalo, filho de Owen Tudor, era um fundista de alta qualidade e coragem, lutava como poucos, e marcou a sua passagem pelas pistas com exibições de excepcional qualidade. Ficou famosa a sua memorável luta com o fundista campeão francês Silex expoente máximo nas provas de fundo na França. Era o “dono” dos 4.000 metros do Pix Du Cadran, referência do relógio de quatro faces de Longchamp, cuja cópia tem no Hipódromo da Gávea. À época, as provas de grande fundo eram as mais pretendidas pelos criadores e pelos proprietários, ressalvadas naturalmente provas como os derbies, o Arco, e mais alguma prova de repercussão mundial. Na Alemanha, por exemplo, a maioria das provas importantes era de mais de 3.000 metros, e dentro de um esquema de perfeição física imposto pelo Professor Merckt que era a palavra maior do Stud Book Alemão, impedindo o registro como reprodutor de cavalos com lesões transmitidas e transmissíveis. Hemorragias, defeitos de aprumos, o grande veterinário não permitia que seus portadores fossem para a reprodução. Durante certa época, o maior nome da criação alemã era Ticino, e três bons haras brasileiros trouxeram filhos dele. O Guanabara trouxe Nisos (irmão próprio de Neckar, que era o melhor garanhão alemão e filho de Ticino), o Mondesir trouxe Wilderer (da linha feminina que mais ganhadores deu no Derby Alemão), e o Fidalgo trouxe Mogul. Não foram maus reprodutores, mas inadequados às chamadas brasileiras, ficaram longe das expectativas.
Mas voltando a Elpenor, ele havia sido batido pelo grande fundista francês Silex no Prix do Cadran, e quando da Ascot Gold Cup, também em 4.000 metros, o mundo turfista teve a oportunidade de assistir a uma fantástica luta entre os dois especialíssimos corredores, e após uma desesperada e empolgante luta durante boa parte do percurso, Elpenor venceu por cabeça. A imprensa inglesa entendeu que os dois fundistas se equivaliam, mas havia vencido o cavalo com mais caráter, o que tinha mais vontade de ganhar. O saudoso criador gaúcho Breno Caldas, jornalista e empresário de grande sucesso, ofereceu uma ótima proposta pelo Elpenor, que acabou sendo aceita, e Elpenor foi para o Haras do Arado. Ainda no início de sua produção no haras, os ingleses ofereceram grande quantia para que o Elpenor voltasse para a Inglaterra, mas Breno Caldas não aceitou. O cavalo produziu bem no Brasil, e muitos dos seus filhos foram para o Hipódromo da Gávea levados pelo saudoso proprietário Mário Cerqueira Teixeira de Souza. Um deles, de nome El Asteróide, projetou-se na esfera clássica por um detalhe inesperado. O proprietário tinha um bom potro, e para que o ritmo da corrida lhe fosse favorável, El Asteróide foi inscrito com “faixa”, para correr em ponta em páreo de potros em 1.600 metros. El Asteróide assumiu a liderança na largada, e assim veio até a linha de chegadas, e quanto maior fosse à distância do páreo, melhor para ele. Após uma vitoriosa campanha nas pistas, El Asteróide foi vendido para a reprodução para o Haras Nacional.
Os anos se passaram, até que um dia o criador Armando Carneiro importou o garanhão Hang Ten, e dispondo apenas de dois boxes para reprodutores e número apenas relativo de éguas, foi colocado à venda um dos dois garanhões para dar lugar ao novo cavalo. Procurei nas corridas o criador, disse do meu interesse em dar mais qualidade e estrutura física à produção do meu haras, e a conversa terminou com El Asteróide indo para o Ipiranga. O cavalo já era de mais idade, tinha uma fertilidade apenas relativa, eu fui informado de tudo, mas me interessava o neto do Elpenor. Na primeira geração dele no novo haras nasceram quatro produtos, três fêmeas e um macho, esse justamente da melhor das quatro mães. Em um mês de novembro, resolvi que um Elpenor não podia fracassar em 3.000 metros, e inscrevi Goethe, filho de El Asteróide e Show Girl, essa por Xadrez, na 3ª prova da tríplice-coroa. O Bolino não estava montando, estava machucado, e a montaria foi par ao I. Quintana. Na hora de ir para o partidor, ele me perguntou como deveria proceder. A resposta foi simples, ele era um fundista, como o pai e o avô, o que queria dizer que o seu forte não era ser guardado para uma partida na reta final, mas a sua característica pedigrística era não de um ritmo suave, mas firme, sem medo, de mais para mais, e quanto maior o percurso mais oportunidade de apresentar as qualidades.
Outro G.P. Consagração vencido pelo Ipiranga foi com San Pablo, um filho do fenômeno Kurrupako em filha de Destino. O pai de Kurrupako era Al Mabsoot, um Aga Khan filho de Mat de Cocagne, linha alta de distâncias maiores. O potro era bom, estava bem, o pedigree era adequado aos 3.000 metros, e o Bolino não teve maiores dificuldades.
Há que se respeitar e acreditar nos pedrigrees dos corredores que se mostram acima da média. Matungos não contam, pois a natureza não lhes proporcionou as boas características de seus ancestrais, mas no caso dos cavalos melhores, aqueles provenientes de bons veículos de qualidade (bons, filhos de bons), as tendências pedigrísticas têm que ser observadas. Há milhares, ou milhões de exemplos. Veja-se o caso de Bowling, vencedor de um G.P.Brasil, em 2.400 metros. Ele nasceu em Bagé, RS, e correu uma penca sem expressões em 700 metros, chegando em 3º. Indo para a Gávea, trabalhado para correr distâncias adequadas, foi dos melhores corredores clássicos de sua época. Outro caso a ser lembrado é o de Daião, que o seu treinador queria estreá-lo em 1.000 metros em função de um ótimo trabalho. Impedido pelo proprietário teve a sua campanha orientada para as distâncias maiores, e terminou ganhando um G.P. Brasil em 2.400 metros. Da pena ver potros de 2 anos, com pedigrees de fundo, sendo obrigados a correr nos inícios de temporada em páreos de 1.000 metros na grama e 1.100 metros na areia. Isso depõe contra os treinadores e os proprietários, pois mostra que os homens querem que os cavalos façam o que eles querem e não o que podem, e assim muitas vezes, frequentemente encurtando as campanhas e baixando o nível técnico delas.
Muitos dos garanhões importados, em definitivo ou em “shuttle”, vindos principalmente da Europa, não são animais específicos para provas de velocidade. Eles vêm em função de resultados em provas nobres, e que são na maioria das vezes de 1.600 a 2.400 metros, ou até mais. Não há sentido em iniciar as campanhas de seus descendentes em provas para precoces, ágeis e ligeiros.
