Os cavalariços que trabalham diretamente com os cavalos de corrida são figuras essenciais no universo do turfe, embora quase sempre permaneçam longe dos holofotes. Seu trabalho começa muito antes do público chegar às arquibancadas e continua depois que os aplausos cessam. São eles que conhecem cada detalhe do animal, cada mudança de humor, cada sinal sútil de cansaço ou disposição. No silêncio das cocheiras, constroem diariamente uma relação de confiança que não se aprende em manuais, mas na convivência constante, paciente e atenta.
A rotina de um cavalariço é marcada pela disciplina e pela responsabilidade. Ainda de madrugada, quando a maioria da cidade dorme, eles já estão de pé, preparando a alimentação, limpando as baias e escovando os cavalos com cuidado. Cada gesto tem um propósito: a escovação não é apenas estética, mas um momento de observação; o caminhar ao lado do cavalo não é só exercício, mas uma forma de perceber seu estado físico e emocional. Nada passa despercebido aos olhos de quem convive diariamente com o animal.
Mais do que força física, o trabalho exige sensibilidade. Cavalos de corrida são atletas de alto rendimento, sujeitos a estresse, lesões e variações de comportamento. O cavalariço aprende a interpretar um olhar diferente, uma orelha mais baixa, um passo fora do ritmo. Muitas vezes, é ele quem primeiro percebe que algo não está bem, evitando problemas maiores e protegendo a saúde do animal. Essa atenção silenciosa salva carreiras, embora raramente seja reconhecida publicamente.
Enquanto jóqueis, treinadores e proprietários recebem os créditos pelas vitórias, há sempre um trabalho invisível por trás, feito por mãos calejadas e dedicadas, que prepararam aquele cavalo dia após dia.
O anonimato, porém, não diminui o orgulho desses profissionais. Muitos desenvolvem um vínculo tão profundo com os cavalos que os tratam como parceiros de vida. A vitória na pista é sentida como uma conquista pessoal, assim como a derrota ou a lesão são vividas com dor genuína. Há uma entrega emocional que vai além do contrato de trabalho, uma dedicação que nasce do amor pelos animais e do respeito pelo ofício.
É impossível falar dos cavalariços sem abordar um desafio cada vez mais presente: a renovação da profissão. Muitos trabalhadores experientes, que dedicaram décadas de suas vidas às cocheiras, estão se aposentando ou deixando a atividade, levando consigo um conhecimento prático valioso, construído ao longo de anos de convivência com os cavalos. Ao mesmo tempo, a entrada de novos profissionais ocorre em ritmo mais lento, resultando na diminuição da mão de obra e na sobrecarga de quem permanece.
Essa renovação não é apenas uma questão numérica, mas também cultural. O saber do cavalariço tradicional vai muito além das técnicas básicas: envolve sensibilidade, observação apurada e uma leitura quase intuitiva do comportamento animal. Quando um profissional antigo se afasta sem que haja alguém para aprender com ele, perde-se uma parte importante da memória viva do turfe. Por isso, a transmissão desse conhecimento se torna urgente e necessária, para que a profissão não se fragmente nem se empobreça.
Falar sobre os cavalariços é, portanto, falar também sobre continuidade. Valorizar quem está há anos nas cocheiras e, ao mesmo tempo, abrir espaço para quem está chegando é essencial para manter viva essa profissão tão silenciosa quanto indispensável. O futuro do turfe passa, inevitavelmente, pelas mãos daqueles que acordam antes do amanhecer, cuidam dos cavalos com dedicação diária e mantêm, mesmo no anonimato, a alma do esporte pulsando.
Exaltar o trabalho dos cavalariços é reconhecer que o sucesso nas corridas não é fruto apenas do talento visível, mas de uma engrenagem humana complexa e comprometida. São eles que sustentam a base do esporte, garantindo o bem-estar dos cavalos e a continuidade das competições. No silêncio das madrugadas e na poeira das cocheiras, constroem histórias que raramente são contadas, mas que merecem ser lembradas e valorizadas.
Afinal, sem os cavalariços, não haveria corrida, não haveria vitória, não haveria turfe.
por Matheus Peres – fotos: Sylvio Rondinelli
Foto1 e Capa: Francisco da Conceição e Obataye, o melhor cavalo do continente.
Foto2: Luca e Mandrake, o único tricampeão do GP Major Suckow (G1)
Foto3: Itamar e Sinsel, os vencedores do GP Brasil (G1) 2025
N.R.: Matheus Peres é jornalista, tem toda uma vida ligada ao turfe – filho do treinador gaúcho, radicado no turfe carioca, Daniel Peres – e terá uma coluna semanal no site do Jockey Club Brasileiro.
