O último conjunto de programas no Hipódromo da Gávea ficou marcado por alguns animais que venceram com rateios elevados. Por exemplo: Pasteur (39,80), Nice Breeze (19,40), My Oh My (39,80 – FOTO), entre outros, com dividendos um pouco menores, porém compensadores.
No turfe, a lógica costuma ser implacável: estatísticas, pedigree e desempenho recente ditam quem são os favoritos. Ainda assim, vez ou outra surge um cavalo disposto a contrariar a matemática e fazer história.
O termo “azarão” carrega uma certa injustiça. Ele é atribuído ao cavalo que, por qualquer motivo, o público acredita não ter chances reais de vencer. Pode ser um histórico irregular, uma lesão antiga, um treinamento considerado insuficiente ou simplesmente o fato de disputar a prova contra nomes mais badalados. Mas, o turfe é um esporte que pequenas nuances mudam tudo: um bom ou mal pulo de partida, uma posição da pista mais favorável ou um ritmo inesperado no início da prova.
Ao longo da história das corridas, alguns desses azarões transformaram a desconfiança em glória. Em dias de pouco brilho aparente, chegaram ao disco final deixando para trás favoritos consagrados e cotações que pareciam inabaláveis. O que costuma unir esses episódios é a combinação de alguns fatores: um cavalo subestimado, um jóquei com leitura perfeita da corrida e um momento de forma que aparece justamente na hora certa.
Historicamente, os grandes favoritos dominam a maioria das corridas, afinal, seus desempenhos anteriores, linhagem e condição física geralmente justificam o favoritismo. No entanto, os feitos memoráveis que atravessam décadas, sendo recontados por amantes do esporte em todo o mundo, são frequentemente protagonizados por cavalos desprezados pelos apostadores.
Um dos exemplos internacionais mais conhecidos é o de Mine That Bird (FOTO DE CAPA), que venceu o Kentucky Derby de 2009 (VER FILME ACIMA) com impressionantes 50 por 1 nas cotações. Sua arrancada pelo trilho interno, guiada pelo jóquei Calvin Borel, é considerada uma das maiores viradas da história do turfe moderno. Poucos sabiam que aquele pequeno cavalo, de aparência modesta, era capaz de um desempenho épico e, justamente por isso, sua vitória se tornou lendária, inclusive virando roteiro de filme. Fica a dica!
O impacto dessas vitórias vai além do prêmio ou das estatísticas. Elas criam narrativas que atravessam gerações, renovam o interesse do público e alimentam o imaginário do esporte. Há quem descubra o turfe justamente por causa de um resultado improvável, aquela chegada dramática que desafia qualquer prognóstico e transforma o improvável em possível.
Em última análise, os azarões servem como lembrete de que o turfe é, antes de tudo, uma celebração da imprevisibilidade. Por mais que se estude e se compreenda a performance dos cavalos, sempre haverá espaço para a surpresa, sendo esse espaço que alimenta histórias inesquecíveis, justificando a paixão de milhões de pessoas ao redor do mundo.
Nas pistas, como na vida, às vezes o improvável vence. E quando isso acontece, todos se lembram para sempre.
por Matheus Peres
N.R.: Matheus Peres é jornalista, tem toda uma vida ligada ao turfe – filho do treinador gaúcho, radicado no turfe carioca, Daniel Peres – e terá uma coluna semanal no site do Jockey Club Brasileiro.
