Recordações inesquecíveis (27), por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Recordações inesquecíveis (27), por Milton Lodi

Quando da Segunda Guerra Mundial (1939/1945), o então presidente Getúlio Vargas tomou uma série de providências como aliado, pois um submarino alemão afundou um navio brasileiro não militar, de nome Abaeté. Esse injustificável ato de selvageria obrigou o Brasil a declarar guerra à Alemanha. Como participante do grupo aliado, o Brasil enviou tropas para a Europa e a então incipiente indústria brasileira chamada a participar do chamado esforço de guerra. O meu pai era Presidente da Confederação Nacional da Indústria, entidade que congregava todas as Federações Estaduais, e foi chamado pelo presidente Getúlio Vargas para que a indústria brasileira colaborasse com a fabricação de apetrechos de guerra, como, botinas, agasalhos, cantis, capacetes e objetos necessários para os soldados, entre outros detalhes visando vencer o chamado Eixo (Alemanha e Itália). Àquela época, importantes negociações entre o Brasil e os Estados Unidos resultaram, por exemplo, na cessão do Brasil de área no Rio Grande do Norte para a instalação de um ponto estratégico para a aviação norte-americana em troca de um incentivo norte-americano no setor siderúrgico, que resultou na Fundação da Companhia Siderúrgica Nacional. O meu pai sempre a chamado do Dr. Getúlio, proporcionou ao governo uma efetiva participação, e, terminada a guerra, a Confederação Nacional da Indústria proporcionou ao país um grande desenvolvimento, que resultou nas bases das indústrias de automóveis, geladeiras, etc.

A partir de 1946, o meu pai passou a viajar para a Europa com frequência e foi procurando trazer para o Brasil indústrias que viessem colaborar com um forte surto industrial, e o sucesso veio com a vinda de fábricas têxteis, de cimento e de muitos outros setores. Em uma dessas viagens, o meu pai foi ao Hipódromo de Campanelle ou San Siro, não sei, e assistiu uma tarde de corridas. Houve um páreo em que uma égua de nome Pigra, que em italiano quer dizer Preguiçosa, correu afastada em último lugar, e na reta apresentou-se em forte atropelada, vencendo. O meu pai consultou o programa das corridas e verificou que era um “páreo a reclamar”, o que ele não sabia o que era. Foi-lhe informado que todos os inscritos naquele páreo eram passíveis de venda pelos valores constantes do programa, até depois de corrido o páreo. O meu pai foi levado à Comissão de Corridas e depositou o cheque correspondente à compra da Pigra. O proprietário da égua foi chamado para receber o cheque e assinar a transferência, mas se recusou. Disse que a Itália passava por um difícil momento financeiro, e que os preços naqueles páreos eram pró-forma, eram abaixo dos valores reais, tinha sido fixado em função da correspondente tabela de preços, e assim ele não entregaria a égua. A Comissão de Corridas então declarou que, ou ele entregava a égua conforme o respectivo regulamento ou ele perderia naquele momento a sua matrícula de proprietário. O meu pai, que a tudo assistia, disse que na verdade entendia ser o preço baixo, e perguntou ao proprietário qual o valor que ele entendia como justo. O preço indicado interessou o meu pai, que deu ao proprietário um segundo cheque referente a venda, e ficou com a égua. Alguns anos mais tarde, já com o seu Haras Ipiranga em funcionamento, coube a mim mandar cobrir a Pigra pelo francês Fairy King, tendo nascido Cantarelle que, posteriormente, coberta por Manguari produziu o ganhador clássico Interlagos. Esse Interlagos era tão bom que o então proprietário Max Perlman, ao comprar o antigo Haras 28 de Outubro de Sidney Luiz Tenucci, na beira da estrada Taubaté-Campinas, via Dom Pedro, na região de Atibaia, mudou o nome para Haras Interlagos.

            Naquela época, antes de 1950, o meu pai foi procurado pelo bom proprietário José Buarque de Macedo, turfista muito vitorioso com as suas compras de potros no Brasil (Garbosa Bruleur, Hamdam, Hellen, Halésia e muitos outros bons ganhadores clássicos) como na Argentina (Sedutora, Sideral, Filón, etc). O Dr. Buarque decidira sair do turfe em momento de glória, e ofereceu ao meu pai as duas melhores potrancas da nova geração, Jocosa e Jotlândia, e um potro da geração mais nova de nome Kurdo. O meu pai comprou os três, mas na hora de registrar o documento de transferências, resolveu não colocar os três animais em seu nome. O meu pai, além de empresário turfista, de proprietário de cavalos, de industrial e de Presidente da Confederação Nacional da Indústria, era Deputado Federal pelo PSD (Partido Social Democrata), partido de centro, tendo à esquerda o PTB (Partido Trabalhista Brasileiro) é à direita a UDN (União Democrática Nacional). Havia à época grande luta política, pois a tenacidade dos ataques da direita contra a esquerda na tentativa da destruição do mito Getúlio Vagas respingava fortemente no partido do centro, dado o cordial relacionamento do meu pai com os integrantes dos outros partidos, ele constituía um alvo da luta política. O meu pai então entendeu que a compra das duas melhores potrancas da geração daria assunto para ataques inapropriados e indesejáveis, e resolveu criar o Stud Jardim Botânico, e colocou como participantes Roberto Gabizo de Faria (filho do amigo Adhemar de Faria), Oyama Pereira Teixeira (grande amigo de Roberto), e o sogro da minha irmã. Foi registrada a farda “encarnado e branco em listras horizontais”, e com essas cores Jocosa venceu no Rio e em São Paulo. O curioso é que “encarnado e branco em listas horizontais” eram, e são a bandeira, as cores do Jockey Club de São Paulo, e quando Jocosa venceu o Grande Prêmio em São Paulo, o treinador foi multado como se não tivesse levado a farda, e corrido com a farda oficial do Jockey Club de São Paulo. Cochilo geral, o meu pai não deveria ter solicitado o registro daquela farda, nem o registro poderia concordar com a solicitação. Mas posteriormente Jocosa passou a envergar a jaqueta “solferino e azul em listras verticais”, e seguiu ganhando até inclusive o Grande Prêmio São Paulo. Kurdo foi um corredor de padrão normal, Jotlândia era ótima e terminou sendo sacrificada na reta de chegadas na Gávea, logo após uma queda, e Jocosa terminou a sua gloriosa campanha com 17 vitórias, sempre correndo na primeira turma, e no Haras foi mãe de Fiorellina, ganhadora da Seleção de Potrancas (no Rio, Criterium), e a terceira mãe de Gourmet, ganhador do Grande Prêmio Brasil.

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