Lazio era um bonito castanho, filho de Kameran Khan e Hiroshima, por Flamboyant de Fresnay e Aurora. A mãe de Lazio era irmã própria dos grandes ganhadores clássicos Giuliano e Negroni. O tipo físico e o pedigree indicavam a perspectiva de um ganhador clássico. Mas Lazio, sempre muito bem levado pelo treinador José Silvestre de Souza, o Zé Pinto, em Cidade Jardim, mostrava boas aptidões, mas não correspondia nas corridas. Faltava coragem, faltava classe. Ganhou logo uma corrida, mas depois não progrediu, era sempre esperado e não correspondia.
Um dia eu me lembrei de uma história que me havia sido contada na Gávea, pelo extraordinário treinador Expedito Coutinho. Dotado de grande sensibilidade com os cavalos, o Expedito contou-me que ele não conseguia entender o Nassau, um filho de Guaycurú, de criação de José Bastos Padilha (Fazenda Santa Ângela, PR) e propriedade de Leônio Ramos (Stud Vice-Rei). O tal Nassau tinha boa saúde, sempre trabalhava bem, mas não ganhava. O Expedito havia experimentado várias formas de treinamento, trabalhos fortes e suaves, só de galopes em trabalhar a distância do páreo, o cavalo aceitava tudo, estava sempre bem, mas não ganhava. O Expedito havia experimentado várias formas de treinamento, trabalhos fortes e suaves, só de galopes sem trabalhar a distância do páreo, o cavalo aceitava tudo, estava sempre bem, mas não ganhava. E o pior era que o proprietário jogava.
Um dia, o Expedito resolveu inovar mais uma vez. Levou o Nassau de manhã para dar uma volta de galope, em dia que estava inscrito para correr à tarde. Nassau entrou na pista levado por um redeador, era manso, seria um galope rotineiro. De repente, inesperadamente, o Nassau deu um arranco derrubando o redeador. Solto, Nassau disparou a toda velocidade, só parando após dar uma volta completa. O Expedito deu uma boa ducha no cavalo, e disse ao cavalariço para levar Nassau de volta para a cocheira, puxado, com calma.
O Expedito espera um pouco para não telefonar cedo demais para o proprietário, para informar o que tinha ocorrido e, depois fazer o forfait. Quando o empregado do Nassau o chamou. Disse que o cavalo estava difícil de lidar, voltara pelo caminho do prado aos pulos, irrequieto e mostrava-se no box em estado de alerta. A grande sensibilidade do Expedito foi tocada, e ele telefonou para o proprietário, informando do que ocorrera e que iria levar o Nassau à tarde para correr. A vitória foi por vários corpos, e a partir daí, sempre galopando largo uma volta inteira nas manhãs dos dias de corridas, Nassau enfileirou seis vitórias.
Lazio não era forte como Nassau, mas valia uma experiência. Nas manhãs dos dia de corridas, sem o Bolino que não apurava os cavalos em trabalhos, o Zé Pinto encilhava o Lazio e mandava um aprendiz fazer 600 metros fortes, só dando intenção, mas sem chicotadas. Lazio, levado dessa forma, trabalhos diários de galope, dez dias antes da corrida um trabalho suave na distância do páreo, e os tais 600 metros fortes, nas manhãs dos dias de corridas, iniciou uma série de ótimas perfomances, inclusive, com cinco vitórias, sempre com o Bolino, em Cidade Jardim. Não havendo mais páreos comuns a serem ganhos, problema até hoje, para os cavalos comuns bons ganhadores. Mandei o Lazio para o Hipódromo do Cristal, para o treinador Roberto Oliveira Filho. O mesmo fiz com King Scotch, Karatê e King Sun, e os vendidos King Twist e Kid Galahad. Todos lá se deram muito bem.
Aconteceu um fato curioso e surpreendente com o Lazio em Porto Alegre. Na semana anterior a um Bento, o treinador me telefonou dizendo que ia inscrever o Lazio na milha do G.P. Presidente da República e se o Bolino, que estava suspenso, iria montá-lo. Eu achei que era desnecessário, era um páreo de importância relativa, eu disse que não, e que colocassem um jóquei bom lá mesmo do Cristal. Quando soube, o Bolino não gostou, ele gostaria de ir montar o Lazio. Aconteceu que o excelente treinador Pedro Nickel inscreveu no páreo o bom cavalo Prudente, da Coudelaria Almeida Prado (Haras Jahú e Rio das Pedras), e sabendo que o Bolino não ir montar o Lazio, ofereceu a ele a montaria do Prudente. O resultado do páreo foi 1º o Prudente e 2º o Lazio.
Na semana seguinte perguntei ao Bolino como tinha sido a corrida. Ele riu, disse que tinha sido fácil, pois como o Lazio só corria bem por fora de todos, por dentro ele não era o mesmo, acompanhou o Lazio até a entrada da reta, e colocou-se por fora dele. Enquanto o jóquei internacional achava graça, eu não achava graça nenhuma, mas tive que admitir que falaram mais alto a classe, a experiência, a técnica, a qualidade de um super-jóquei tirando partido de detalhes fundamentais para tentar ganhar.
A propósito do José Silvestre de Souza, o Zé Pinto, que trabalhou como meu treinador, em Cidade Jardim, por cerca de trinta anos, até morrer, ele sempre foi cordato, trabalhador, competente, honesto, prestativo, bom caráter. Ele já estava comigo havia muitos anos, e certo dia, quando sai do grupo de cocheiras e entrei no carro, ele chegou um pouco preocupado e me perguntou se eu ia mandá-lo embora. Eu respondi que não, eu estava muito satisfeito com a competência e a dedicação dele, era um assunto que nunca tinha passado pela minha cabeça. E perguntei que idéia era aquela.
A resposta foi esclarecedora. O meu treinador no Paraná, o saudoso Elídio Pierre Gusso, havia estado nos últimos dois finais de semana em Cidade Jardim, e o líder dos profissionais paulistas, o treinador João Godoy, havia dito a ele para se precaver, pois era evidente que o “Seu” Elídio iria ocupar a posição de treinador do Ipiranga em Cidade Jardim. Eu disse ao Zé Pinto para esquecer o João Godoy e todos os outros maledicentes, eu estava muito satisfeito com o trabalho dele e queria que ele continuasse. Ele mostrou-se aliviado, ficou feliz. Algumas semanas depois, Elídio Pierre Gusso transferiu-se para Cidade Jardim, como treinador do Haras Rosa do Sul, com o apoio do ótimo veterinário Alceu Ataíde.
