A já extinta C.C.C.C.N. – Comissão Coordenadora da Criação Nacional promovia uma vez por mês, uma reunião de cúpula, com a presença de representantes dos dois Clubes promotores de corridas, que pagavam taxas mensais e com isso sustentando a Comissão, da Associação Brasileira do Setor Veterinário e mais alguns. A Comissão era bem intencionada, geralmente presidida por um General, tinha um corpo de funcionários que coletavam e registravam dados das várias raças de equinos e muares.
À época, Hernani Azevedo Silva representava o Jockey Club de São Paulo, eu a Associação Brasileira e João da Costa Ribeiro o Jockey Club Brasileiro. A C.C.C.C.N. promovia, anualmente, a chamada Semana do Cavalo, que era um evento de exposição das várias raças, premiações, palestras, etc. Cidades como Campos (RJ), Curitiba (PR) e Belo Horizonte (MG), entre outras, sediaram a promoção. Nos concursos de beleza e perfeição das várias categorias, o Exército era sempre representado no puro-sangue de corridas por um bonito cavalo de criação da Remonta, de nome Sargaço.
Quando o evento era em cidades maiores, a raça puro-sangue de corridas sempre se apresentava por um corredor local, mas sempre os juízes davam a vitória ao tal Sargaço, que por ser bonito e bem feito, o Exército não deixou que ele participasse de corridas, ele era guardado para uma medalha de ouro anual. A semana inteira era prestigiada pelo General, seus Assessores e representantes do Ministério da Agricultura, mas nem sempre o turfe se apresentava, pois os Jockeys Club não têm cavalos próprios, os cavalos eram de propriedades particulares. E na opinião dos donos dos cavalos não fazia sentido tirar um cavalo das pistas, levá-lo de caminhão para o local do certame, lá ficar em exposição por uma semana, e depois voltar para o local de suas atividades. O cavalo de corrida vale pela sua qualidade em função de ganhar páreos, enquanto que os das outras raças incluíam a beleza estética. A comitiva da Comissão Coordenadora reclamava que o puro-sangue de corridas não dava importância ao evento.
Em um ano em que a Semana do Cavalo era em Belo Horizonte (MG), o Hernani e eu decidimos inscrever um cavalo para representar o turfe. O escolhido foi um potro meu de 3 anos, ainda inédito, que havia vencido a Exposição de Potros no Jockey Club de São Paulo. Chamava-se Prelúdio, era um castanho escuro de porte médio, muito bem feito fisicamente e de boa expressão. Inscrevemos o Prelúdio com a devida antecedência, pois só os inscritos previamente podiam competir. O Hernani pela Comissão de Fomento do Jockey Club de São Paulo pagaria metade do custo dos transportes e eu da outra metade e demais despesas. Prelúdio foi mandado de Cidade Jardim três dias antes do início dos vários julgamentos.
No dia seguinte que ele foi para Belo Horizonte, telefonei para o meu saudoso amigo José Euvaldo Peixoto para pedir que ele fosse lá no Parque de Exposições da Gameleira para me dar notícias do Prelúdio. José Euvaldo Peixoto mostrou-se surpreso, o Prelúdio tinha saído de São Paulo direto para o Hipódromo da Serra Verde, do Jockey Club de Minas Gerais, ele tinha recebido o cavalo e estava aguardando instruções minhas a respeito. Pedi que ele de imediato mandasse o Prelúdio para o Parque de Exposições e, pessoalmente, falasse com a Comissão Coordenadora do que havia acontecido, embora não houvesse nenhum problema maior, já que o cavalo estaria lá antes do dia do início dos julgamentos.
No dia seguinte, peguei um avião e fui para Belo Horizonte. O Prelúdio não havia sentido a viagem, estava bem e aos cuidados de um cavalariço do Serra Verde, conhecido como Paletó. Fui cumprimentar o General e seus Assessores, e ai fui informado que a Comissão resolvera antecipar o dia do início dos julgamentos, e como no Parque só havia um puro-sangue de corridas lá, então alojado, o título de campeão ficara com o tal Sargaço. Prelúdio ficou na Exposição por toda a semana e depois, apesar do pedido de José Euvaldo Peixoto para levá-lo para o Serra Verde, mantive a ideia de voltar para Cidade Jardim. Fiz mal, de São Paulo o cavalo foi para o Hipódromo da Gávea, onde se mostrou um refinado matungo.
Para terminar o assunto, o Sargaço ganhou a medalha e nunca mais os dirigentes da C.C.C.C.N. pediram para que um puro-sangue de corridas se fizesse representar. A C.C.C.C.N. cumpriu, dentro do possível, com suas metas. De turfe entendia pouco, mas todos eram bem intencionados.
