Um dia, na revista semanal do turfe, ví um anúncio. O Haras Nacional, do saudoso Armando Rodrigues Carneiro, oferecia a venda um dos seus dois reprodutores, ou Fragonard ou El Asteróide. Encontrei o Armando no fim de semana nas corridas, e perguntei se era para o interessado escolher. Ele disse que sim, que no seu Haras, que era em Teresópolis, ele só dispunha de dois boxes para garanhões e como ele acabara de comprar um importado de nome Hang Ten, um dos dois lá alojados tinha que sair. Essa conversa terminou com um cordial acerto, eu receberia o El Asteróide em troca de três ou quatro éguas, de uma relação de meia dúzia. Uma das éguas que ele levou foi a Vodka, uma filha do clássico Xadrez (Sayani e Maldita, por King Salmon) na Fama, uma filha de uma das éguas-base do Ipiranga, e que produziu para ele, entre outros bons ganhadores, o muito bom Vonarrab.
O meu interesse no El Asteróide era por ser ele um ótimo veículo, como bom ganhador clássico filho de Elpenor, de características especiais em provas de distâncias maiores, de 3.000 metros para mais. Elpenor havia sido importado da Inglaterra pelo notável criador gaúcho Breno Caldas, do Haras do Arado. Era um filho dos Owen Tudor, um dos marcos da criação inglesa. Elpenor foi o melhor fundista da Europa em seu tempo e custou muito dinheiro. Com Estoc, um garanhão filho da ótima Caríssima, também mãe do francês Pharis, Breno Caldas estava colocado como um dos maiores criadores do Brasil em todos os tempos. Os ingleses tentaram levar de volta o Elpenor, mas as enormes propostas foram todas recusadas.
O proprietário Mário Cerqueira Teixeira de Souza, o popular Mário C.T., costumava comprar muitos potros no Haras do Arado, e El Asteróide foi um deles. Após uma expressiva campanha nas pistas da Gávea e também no Cristal, onde venceu por 4 vezes o Bento Gonçalves, então em 3.000 metros, sendo que uma das 4 foi anulada em função do não funcionamento do partidor. O El Asteróide, que era um corredor de percurso e não de atropeladas finais, foi vendido para o Haras Nacional. El Asteroide já era de mais idade e tinha uma fertilidade apenas relativa, mas eu o queria pelas suas qualidades. Logo na primeira geração no Ipiranga, me deu três fêmeas e um macho. À época eu não queria machos dele, preferia o sangue do Elpenor nas fêmeas, como veículo-base para provas de distâncias maiores. O macho era bonito e forte, e aos 3 anos iniciou a sua campanha nas pistas de Cidade Jardim. Sempre inscrito em 1.600 na grama, que era a maior distância para os perdedores, tirou dois ou três segundos, mas nos momentos finais ele se desacertava. E, assim, não ganhava.
Um dia logo após um páreo desses, o Ministro Luiz Fernando Cirne Lima me disse que sugeria que fosse tirado um dos testículos do Goethe, era uma característica dos descendentes de Elpenor, ter os dois muito grandes e, na hora do grande esforço, eles se comprimiam causando dor. Na corrida seguinte o Goethe ganhou, e então foi operado, sendo tirado o menor. Daí para frente, o Goethe se transformou de um potro promissor para uma boa realidade. Ainda aos 3 anos de idade foi correr o Grande Prêmio Consagração, em 3.000 metros, a terceira prova da tríplice coroa, e foi corrido ao estilo dos grandes funditas, como o pai El Asteróide, na ponta desde a largada, chegando à linha de chegada com cerca de quatro corpos de vantagem. Com a carência de provas de fundo, Goethe só venceu sete ou oito corridas, sempre em distâncias da ordem de 2.000 metros, que era distância inadequada para um cavalo bom que ainda tinha como mãe uma filha de Xadrez em Florelle, uma das éguas-base do Ipiranga, filha do fundista Vatellor. Goethe morreu em seu box em Cidade Jardim, vítima de uma infecção.
Um dia o Haras Castelo, então de propriedade de um filho do paulista benemérito Erasmo Assumpção, meu vizinho em Jaguariúna, propôs uma troca de dois anos do seu garanhão Paradiso, um lindo alazão inglês, filho de Dante, que havia corrido sem sucesso o Derby de Epsom, por Fairy King, um filho de Vatellor em filha de Pharis, que o meu pai havia importado da França e que em Cidade Jardim, ganhara um Grande Prêmio em 2.400 metros. À época, Fairy King não me faria falta, o Ipiranga estava com muitos garanhões, e Paradiso iria trazer um sangue inglês para misturar com a minha eguada, que em boa parte era constituída por sangues franceses.
Paradiso recebia poucas éguas, mas escolhidas, no escopo de diversificar as minhas linhas femininas. Com a campeã Jocosa, líder de turma e ganhadora do Grande Prêmio São Paulo, nasceu uma linda alazã, de porte médio, forte, bem feita, que foi muito boa ganhadora e pré-clássica, de nome I Love You. Na reprodução dei a I Love You para o Xadrez, um ótimo ganhador clássico, com uma das melhores cruzas do formidável Haras Mondesir (Sayani em King Salmon). Nasceu uma bonita potranca alazã, de porte médio para menor, de físico bem feito, mas delicada.
Na semana anterior, na qual ela deveria estrear, em um último trabalho no partidor, St. Tropez bateu violentamente com uma ponta da garupa em um ferro lateral, que ocasionou um afundamento. Era esperar cerca de um ano para uma eventual recuperação ou mandá-la para a reprodução. Optei por não fazê-la correr. A cobertura adequada era Negroni, bom ganhador clássico, filho do melhor garanhão que o Ipiranga já teve, Flamboyant de Fresnay. Assim foi “construído” o pedigree de Gourmet, que veio a vencer o Grande Prêmio Brasil.
Há muitos anos, a criação argentina dominava o cenário sul-americano, e os melhores haras eram, entre outros, o Chapadmalal, o Ojo de Água e o Argentino. Além de garanhões importados da Europa, principalmente da Inglaterra, ganhadores até do Derby de Epsom. Os haras principais cultivavam com carinho suas linhas femininas. As linhas maternas eram alvo de forte seleção, potrancas e éguas das linhas fundamentais representavam um sério problema, quando dos necessários descartes anuais, em função das necessárias renovações do plantel, pois uma representante de uma linha fundamental de um dos melhores haras, certamente seria no futuro uma produtora de importantes concorrências. Era um haras entregar a um concorrente uma arma carregada que iria ser utilizada contra o próprio vendedor. Um dia, o Haras Chapadmalal, que posteriormente foi dividido em dois, o Comalal e o Malal Hué, fez uma sociedade com o fidalgo Uruguaio Dom Aureliano Rodriguez Larreta, um nobre homem do turfe. Don Aureliano fundou o Haras Uruguay, ele entrava com as terras e a criação, o Chapadmalal com as éguas, e todos os produtos iriam a leilão no Uruguai. Com a primeira geração, o recém fundado haras terminou em 4º lugar na estatística, e daí para a frente liderou a criação uruguaia por dezenas de anos.
Nessa época, uma potranca alazã de nome Bakelita apareceu como uma sensação. Após dez vitórias como líder invicta, veio a perder a invencibilidade chegando em 4º lugar no Gran Premio Nacional. Ela era de média para pequena, mansa, forte, e com a cabeça um pouco pesada. Foi quando o meu pai a comprou e a trouxe para correr no Brasil, no Hipódromo da Gávea, visando o posterior aproveitamento na reprodução. Ela era filha do ótimo Blackamoor, posteriormente um dos garanhões do Haras São José e Expedictus, em Scoucha, uma filha do extraordinário Caboclo.
Bakelita, que mostrava preferência para a raia de areia, ganhou muitas corridas, tinha velocidade e lutava muito em percursos de até 1.600 metros de preferência, e por muitos anos foi a recordista dos 1.300 metros na areia. Terminada a campanha nas pistas, foi para o Ipiranga. Foi boa mãe, tendo entre seus filhos um alazão de porte médio, fisicamente bem estruturado, filho de Flamboyant de Fresnay (Pharis e Djezima, por Asterus e Heldifann, por Durbar), de nome Galileu, que foi líder de turma na Gávea no início da campanha.
Um dia Don Aureliano Rodriguez Larreta procurou-me, no sentido de levar para o seu Haras Uruguay umas tantas éguas de cria. Fizemos um negócio, e foi para o Uruguai cerca de oito éguas, dentre elas a Bakelita. Don Aureliano era um expert, em outra ocasião ele veio ao Brasil para tentar comprar um reprodutor para o seu haras, e foi ao Haras São José e Expedictus, quando lhe foram oferecidas seis opções, com os preços já determinados. Quando se esperava que ele tentasse levar de volta para o Uruguai o pai clássico Blackamoor, ele preferiu um filho de Fort Napoleon, de nome Tapuia e que, era mais barato, que por mais de 10 anos foi o garanhão líder das estatísticas uruguaias.
