Recordações inesquecíveis (19), por Milton Lodi » Jockey Club Brasileiro - Turfe

Recordações inesquecíveis (19), por Milton Lodi

Grande Premio Brasil 1980 - Big Lark - A Bolino            No domingo dia 03 de agosto de 1980, o Hipódromo da Gávea foi palco de um dos mais eletrizantes páreos de sua história. Foi no Grande Prêmio Brasil, aonde iriam se defrontar, entre outros, três dos melhores corredores da época. Baronius era um possante cavalo, forte, bom, de criação e propriedade do Haras São José e Expedictus, e que saia montado por um dos melhores chilenos que passaram pelas pistas brasileiras, o simpático e amigável Gabriel Menezes, inteligente, enérgico. Dark Brown e Big Lark eram de criação do Haras Rosa do Sul, Dark Brown também de propriedade do criador e Big Lark de propriedade da Sra. Carmen, mulher do saudoso Matias Machline, com quem era casada com separação total de bens. Big Lark, desde pequeno, merecia a preferência de D. Carmem, até que em um dia de seu aniversário, Matias deu a ela de presente a transferência de propriedade do Big Lark. Foi registrado um novo Stud, Big Lark e Dark Brown corriam de parelha por serem cuidados pelo mesmo treinador, mas corriam com fardas diferentes, pois eram de propriedades diferentes. Big Lark era um cavalo manhoso, difícil, corria de antolhos e se negava a correr, o que se era resolvido com o chicote. Aliás, Big Lark e seus irmãos maternos, filhos de Snow England, eram todos complicados, de mau temperamento. Big Lark seria montado por Antonio Bolino, experiente e enérgico, e o companheiro de cocheira Dark Brown iria com o valente José Queiroz, que o conhecia bem. Dos outros competidores, talvez o melhor fosse Exótico, de criação e propriedade do Haras Ipiranga, que iram com José (Negro) Fagundes, um dos bons jóqueis de Cidade Jardim.

            Em outra anterior prova nobre, o jóquei José Queiroz sentiu-se muito prejudicado pelo jóquei chileno, reclamou dos partidos recebidos, mas a Comissão de Corridas de então, manteve o resultado na pista, dentro da parcialidade que tinha na análise das corridas. Teria sido um partido ou uns partidos, desclassificatórios.

            No Grande Prêmio Brasil de 1980, como sempre evitando problemas do complicado Big Lark(foto acima). Bolino foi resolutamente para a ponta, o seu cavalo era bom, forte, estava muito bem treinado e, normalmente, apresentaria uma performance condizente com a situação. Dark Brown e Baronius, assim como Exótico, eles corriam próximos, mas na expectativa. Na reta final, Exótico entrou por dentro e tentou diminuir a vantagem de Big Lark, mas sem êxito.

            Dark Brown por fora, seguia ameaçando, mas sem conseguir descontar. Foi quando mais por fora veio Baronius, em violenta atropelada. Quando Baronius ia passando por Dark Brown, José Queiroz segurou nas rédeas de Baronius, impedindo-o de progredir. Era o revide que José Queiroz estava esperando contra o excelente jóquei chileno. Enquanto Big Lark ia firme na ponta, Dark Brown e Baronius seguiam emparelhados, Dark Brown impedindo Baronius de ir ao encalço do ponteiro. Quando Baronius, finalmente, se livrou do prejuízo, voltou à sua fortíssima atropelada e começou a diminuir a vantagem de Big Lark, que já vinha no seu limite. Se Baronius tivesse atropelado em linha reta para a linha de chegadas, possivelmente teria ganho, mas atropelou enviesado, em lugar de correr para a linha de chegadas, foi em direção ao disco de chegadas, aquele disco que marca a linha final. Dessa forma, não foi respeitada a verdade de que o caminho mais curto entre dois pontos é uma linha reta. A ida de Baronius das balizas de fora para dentro, aumentou o seu percurso. Bolino, com Big Lark na ponta e junto à cerca interna, tinha observado que Baronius(foto abaixo) estava atropelando forte, mas enviesado, vindo em sua direção.

            Daí decorre detalhes de grande importância técnica. O cavalo que está na cerca interna tem que ser respeitado, pois o seu posicionamento é vulnerável. Normalmente, ocorrem quatro alternativas: a primeira é o ponteiro aumentar a sua velocidade, saindo do raio de ação dos outros, o que no caso era impossível, pois Big Lark já estava em seu máximo; a segunda alternativa era deslocar-se para a esquerda, o que na prática é impossível, pois do lado esquerdo está a cerca; a terceira alternativa seria sofrear o cavalo, diminuir o seu ritmo, abrir passando por trás do Baronius, e atropelar por fora dele, o que representaria na prática jogar o páreo fora; a quarta alternativa seria o Bolino começar a sair da cerca interna, ir ao encontro do Baronius, assim eliminando a hipótese de sofrer um perigoso constrangimento físico, para ele e para o seu cavalo, mas esse proposital desvio de linha, certamente, seria punido até por desclassificação pela Comissão de então. Mas o Bolino, com sua categoria e experiência, tinha ainda uma quinta alternativa, que era bater com o chicote bem aberto, de certa forma impedindo a iminente aproximação do Baronius, que se chegasse a ser atingido pelo chicote, seria uma consequência evidente do seu desvio, não seria o chicote do Bolino que alcançaria o Baronius, mas seria o Baronius colocando-se mais perto do que deveria do Big Lark.

baronius_4Na linha de chegadas, em primeiro Big Lark, perto em segundo Baronius, em terceiro Dark Brown e em quarto sem ameaçar o Exótico. Imediatamente o público se dividiu entre aqueles que exigiram a desclassificação, e os aplausos dos que queriam a confirmação. Seguiram-se demoradas confabulações e a votação, o páreo foi confirmado pela diferença de um voto. Prevaleceu o bom sendo, e o respeito ao Código Nacional de Corridas.

Mas a Comissão de Corridas não ficou satisfeita, e ai começaram a surgir histórias e boatos, um deles é que o Bolino usaria um chicote mais comprido, fora das medidas legais. Cerca de um mês depois, o Bolino voltou a Gávea (morava em Cidade Jardim) para correr um cavalo, se não me engano em prova clássica, e quando estava na sala dos jóqueis aguardando com os outros a ordem de montar, abruptamente entrou na sala um comissário de corridas. De cara fechada, dirigiu-se aos jóqueis que haviam se levantado, e ordenou ao Bolino que lhe entregasse o chicote. Com ele nas mãos, irritado, disse que com aquele chicote ele não poderia montar. O Bolino pegou o chicote de volta e o entregou ao G.F. Almeida, dizendo que ele teria que lhe emprestar outro, pois aquele era proibido. O Goncinha irritou-se, disse que aquele chicote era um daqueles que ele mais usada, mas não havia problemas, ele poderia oferecer outro. O tal comissário ficou ridicularizado, abaixou a cabeça e saiu apressado. Esse era o ambiente à época, na então Comissão de Corridas do Jockey Club Brasileiro.

Para finalizar esse assunto, o Queiroz foi suspenso por noventa dias pelos partidos aplicados contra Baronius, e a amizade entre o Bolino e o Menezes continuou até a morte de Bolino. Muitos anos após a espetacular corrida, eu perguntei ao Bolino o que ele e o ótimo chileno haviam conversado após o tal páreo. A resposta foi surpreendente, nenhum deles havia sequer tocado no assunto, a amizade continuou fraterna, o tal incidente era coisa de corridas.

Para terminar, uma observação importante. A alegação de que vence aquele que passa primeiro no disco de chegadas está errada, vence quem atinge primeiro a linha de chegadas, uma linha imaginária que vai da cerca interna do disco, atravessa toda a pista e termina na cerca externa. Tanto faz o cavalo passar pela linha de chegadas pela baliza 1, ou 5, ou 16, ou 15, ou 20, o ganhador é aquele que atinge primeiro a linha de chegadas. O disco é apenas um indicativo que ali termina a corrida, não ali embaixo do disco, mas naquele ponto de inicio da linha de chegada. Seria até o caso de ser colocado no sentido inverso, virado para dentro da pista, outro disco indicado do lado externo da pita o ponto final da corrida. Muitos até dos melhores jóqueis têm a mania de mudarem de linha na reta, procurando a cerca interna. Como as Comissões de Corridas não são suficientemente rigorosas ante os desvios de linha, procuram sem motivo a cerca de dentro.

Para corrigir isso, há quatro detalhes importantes. Primeiro, os treinadores têm que se conscientizar de que há que sair da rotina de galopar os cavalos diariamente, sempre junto à cerca interna e virando pelo lado esquerdo. Os cavalos não galopam em dois tempos, primeiro simultaneamente com os dois pés, e depois, simultaneamente com os dois anteriores. Os cavalos galopam com movimentos não simultâneos, ou eles atiram primeiro o anterior esquerdo, o que facilita fazer as curvas para a esquerda, ou primeiro o anterior direito. É comum, na segunda metade dos páreos, com o cansaço do trabalho na diagonal esquerda, trocarem para a diagonal direita, que menos vigor, musculatura, poder, por não ser habitualmente trabalhada, rende menos.

O trabalho diário é um exercício, e os cavalos que galopam em dias alternados para um lado e para o outro, ficam com as duas diagonais trabalhadas e, consequentemente, melhor utilizáveis. Mas não é fácil incutir nas cabeças de todos os treinadores dessa necessidade, é sempre no sentido da esquerda, e com isso há uma tendência natural dos cavalos para procurarem a cerca de dentro, especialmente, quando cansados. Segundo, os jóqueis têm que entender que a menor distância entre dois pontos é uma reta. E na reta final dos páreos os desvios de linha representam aumentar a distância para a linha de chegadas. Terceiro, para ajudar na condução dos animais em linha reta, aqueles que inteligentemente procuram o meio da pista onde, via de regra, há caminho livre, devem ou deveriam passar o chicote para a mão esquerda, de alguma forma sugerindo ao cavalo não se desviar para a esquerda. Quarto, um elogio e uma observação, quanto à Escola de Jóqueis. Conta no momento, o Jockey Club Brasileiro com dois excelentes profissionais, o ex-jóquei José Machado, o Machadinho, um dos discípulos do estilo Oswaldo Aranha, e o jóquei atuante Marcelo Cardoso, um dos melhores e mais completos da Gávea.

Mas falta, a meu ver, um professor de equitação, não um que venha a ensinar a correr, mas que ensine tecnicamente a dominar um cavalo. Recentemente um potro de três anos de idade, que já havia corrido sem mostrar nenhum problema, em sua segunda apresentação, simplesmente, não fez a curva para entrar na reta final, seguiu em frente e teve que abandonar o páreo. No dia seguinte, encontrei o seu experiente treinador e perguntei do problema. Ele não entendia o que havia acontecido, um cavalo manso, sem problemas, que havia corrido antes sem quaisquer problemas, e montado por um dos melhores aprendizes, habitual ganhador. Ele me disse que, sem saber o motivo da irregularidade, mas para facilitar ao aprendiz no sentido de fazer o cavalo fazer direito à curva, iria colocar uma pequena roseta, um artifício que ajudaria a corrigir a anormalidade. O experiente treinador tem que ser respeitado, ele sabe das coisas, seu entendimento deve ser o da regularidade, mas há uma hipótese a ser aduzida. Será que o tal potro estaria fazendo a curva para a esquerda na diagonal certa, ou quem sabe estaria naquele momento na diagonal errada, à direita?

Nem todos os jóqueis, principalmente os aprendizes, sabem ou conseguem que as sempre curvas para a esquerda sejam feitas com o cavalo galopando na diagonal certa, a esquerda. Há vezes em que o piloto quer fazer o cavalo trocar de mãos, mas nem sempre isso é conseguido. A solução está nos conhecimentos dos equitadores, nos professos de equitação, que sabem como tecnicamente conseguir dominar e dirigir os cavalos. Na hipótese do tal potro ter entrado na curva na diagonal direita, nada mais normal que ele não completasse a curva para a esquerda. Pelo sim, pelo não, com pelo menos uma aula semanal de equitação, o quadro dos aprendizes e dos jóqueis ficaria mais técnico, melhor. E, em quinto, a Comissão de Corridas tem que ser severa no tocante aos habituais desvios de linha. Pelo menos na reta final, quando os animais já chegam cansados, há que ser exigida uma linha reta do ponto em que o cavalo entrou na reta até a linha de chegadas, não no disco, mas na linha. Talvez fosse o caso mesmo da colocação de outro disco, no lado externo da pista, rigorosamente em frente ao disco habitual, para facilitar o entendimento dos jóqueis.

Gostou da notícia? Compartilhe!

Pular para o conteúdo