Uma das mais agradáveis recordações de corridas é de um páreo de quatro cavalos, em Cidade Jardim. O saudoso “Seu” Thomazinho (Thomaz Teixeira de Assumpção Júnior), que foi durante dezenas de anos o Handicapeur do Jockey Club de São Paulo, e que ditava os detalhes técnicos das corridas paulistas, incitava com adequadas chamadas, incentivando os páreos de mais de 1.600 metros. Um dia, para um handicap em 1.800 metros na areia, foram inscritos apenas quatro corredores, sendo uma parelha.
Coincidentemente, os quatro eram de minha criação, sendo dois vendidos. O mais pesado, com 60 kg (ou 62, não me lembro bem), era o ganhador clássico Interlagos (Manguari e Cantarelle, pro Fairy King e Pigra por Zucarello), que iria ser montado por um jóquei veterano e experiente, habitual ganhador e grandes prêmios, o ótimo Dendico Garcia. Com 57 kg iria King Scotch (Takt e Drósera, por Destino e Portoire, por Priam II), com o jóquei preferencial Antonio Bolino, aquele que tinha como ídolo o lendário Luiz Rigoni, de quem era amigo. Com 54 kg iria King Sun (Flamboyant de Fresnay e Elaine, por Kameran Khan e Jocosa, por Seventh Wonder), o outro da parelha, alazão como King Scotch de lindo físico e estampa. O quarto era King Lawrence (Kameran Kahn e Frolic, por Djebel e Alcine, por Abjer), e como pretendente menor levaria 52k g. Os quatro jóqueis eram muito especiais, Dendico e Bolino eram habituais ganhadores dos principais grandes prêmios e Eduardo Le Mener Filho e Edson Amorim, em minha opinião, os melhores jóqueis de bridão do turfe paulista.
Como criador, eu já estava completamente vitorioso, mas o problema é que eu queria que a minha parelha chegasse em 1º e 2º. Normalmente não seria fácil. Todo o prado sabia que King Lawrence era o mais modesto, não podia enfrentar os outros três, deveria chegar em 4º. Da parelha, um teria que ir para frente, e o outro cuidar do ganhador clássico. Conversei com o treinador José Silvestre de Souza, o Zé Pinto, que treinou para mim durante cerca de trinta anos, e o Bolino, que habitualmente montava os nossos dois cavalos. Como no caso o nosso melhor era o King Scotch, cheguei a cogitar o Bolino no King Sun, para atrair o cavalo do Dendico para correr mais perto, o que fatalmente ocorreria, pois era fato público que o Bolino, como jóquei preferencial montava sempre os melhores, e com isso o King Scotch atropelaria com o Le Mener para ganhar.
Mas nessa hipótese, o King Sun provavelmente, não suportaria o assédio do Interlagos, e eu tiraria 1º e 3º, mas eu queria o 1º e o 2º. Acabamos concluindo que era melhor o King Sun correr na ponta com Le Mener em ritmo forte, mas sem exagero, e o King Scotch, com o Bolino, cuidaria do Interlagos, isto é, em função do que o excelente Dendico Garcia faria com o Interlagos. Quatro dos melhores jóqueis da época, montando quatro bons corredores, sendo um bom, dois ótimos e um ganhador de grandes prêmios. Os quatro jóqueis eram amigos, davam-se muito bem, e tudo iria depender da estratégia e da qualidade e performances dos quatro cavalos.
Dada à largada, King Sun tomou resolutamente a ponta, imprimindo um ritmo forte, mas comedido, livrou uns quatro corpos, enquanto Interlagos e King Scotch corriam emparelhados, e King Lawrence sempre em último. Da largada dos 1.800 metros até a entrada da reta final, não houve alterações. Na entrada da reta final, quando o Dendico foi fazer correr o seu cavalo, viu que o Bolino ainda guardava o King Scotch. Em um piscar de olhos, o Dendico entendeu que então o plano da parelha era que Interlagos partisse logo para tentar dominar King Sun, e Interlagos no caso dando boa vantagem de peso, para no final da luta ser, eventualmente, dominado pelo King Scotch.
Dendico não fez o Interlagos correr, esperou o Bolino se mexer, permanecendo emparelhado, enquanto King Sun aumentava a diferença. Quando faltavam menos de 500 metros, não dava mais para esperar, na verdade o plano da parelha era outro, era para o King Sun ganhar. Exigidos ao máximo por Dendico e Bolino, Interlagos e King Scotch lutaram desesperadamente pelo 2º lugar, já que King Sun mantinha-se firme na ponta, sem mostras de cansaço. Talvez pela diferença de peso e/ou o fato de que o King Scotch tinha maior aceleração que o Interlagos, na verdade, o King Scotch ganhou do Interlagos por pequena diferença. King Sun que venceu por mais três corpos e melhorou seu record na distância, deu-me o 1º, com King Scotch em 2º, Interlagos em 3º e King Lawrence em 4º.
Quatro ótimos jóqueis, montando quatro bons animais, proporcionaram uma exibição de alta técnica, qualidade e competitividade. O ponto central do plano era o King Scotch não arrancar no início da reta, e isso era da alçada de um piloto calmo, experiente, enérgico, um jóquei de padrão internacional, e esse foi Antonio Bolino, que executou um plano que deu certo em função de sua alta classe.
